Vamos avaliar um possível ajuste final em setembro, diz Campos Neto

Presidente do Banco Central também falou sobre inflação e disse que PIB brasileiro está "em um processo de revisão para cima"
Roberto Campos Neto: presidente do Banco Central (Patricia Monteiro/Getty Images)
Roberto Campos Neto: presidente do Banco Central (Patricia Monteiro/Getty Images)
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Estadão Conteúdo

Publicado em 06/09/2022 às 12:19.

Última atualização em 06/09/2022 às 13:51.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sinalizou há pouco que a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) deste mês está em aberto e que o colegiado vai avaliar "um possível ajuste final" da taxa Selic, atualmente em 13,75%. Ontem, 5, o Boletim Focus mostrou manutenção da expectativa do mercado financeiro em 13,75% no fim deste ano e aumento da expectativa no fim de 2023 a 11,25%.

"A gente entende que tem de passar mensagem dura. A mensagem de hoje é a mesma do último Copom. Aproveitamos eventos como esse para nos manifestar e a mensagem que continua valendo hoje é a do último Copom, que a gente disse que avaliaria um possível ajuste final", disse, no evento "Prêmio Valor 1000", promovido pelo jornal Valor Econômico, em São Paulo.

"Vamos avaliar um possível ajuste final em setembro", reforçou, em outro momento quando perguntado se ainda existe a possibilidade de aumento de 0,25 ponto percentual da Selic este mês. No Copom de agosto, o BC disse que avaliaria "a necessidade de um ajuste residual, de menor magnitude, em sua próxima reunião".

Inflação

O presidente do BC afirmou que "a inflação de 12 meses bateu pico no Brasil e começa a melhorar". Apesar disso, ele disse que esse processo ainda inspira cuidados.

Como em sua última apresentação, Campos Neto disse que a batalha da inflação não está ganha e que "não é para comemorar", apesar da melhora recente do IPCA — índice oficial de inflação — e das expectativas de 2022.

O presidente do BC voltou a destacar que o principal motivo para melhora no curto prazo são as medidas de desoneração tributária do governo, mas citou que há notícias mais favoráveis em "outros índices" na margem. Campos Neto ainda avaliou que há uma reprecificação da inércia para 2023, que fica menor com as expectativas cadentes para este ano.

Segundo ele, a comunicação é muito importante para terminar o trabalho do ciclo de aperto monetário e o BC vai comunicar passo a passo o que pretende fazer, mas, em momentos de maior incerteza, tende a falar menos. Ele lembrou que há muita incerteza sobre o retorno da cobrança de impostos federais sobre combustíveis em 2023, assim como sobre o financiamento do Auxílio Brasil.

Campos Neto ainda disse que há muito do processo já realizado de alta de juros que ainda não fez efeito. "Entendemos que, em algum momento para e espera o efeito. Mas entendemos que temos meta e queremos fazer a convergência para meta", frisou. Ele ainda destacou que, com o histórico de indexação no Brasil, o BC sempre tenta navegar evitando "fazer de menos" nos juros.

Internacional

Campos Neto afirmou que a pandemia de covid-19 e a guerra na Ucrânia trouxeram uma inflação acentuada para todo o mundo. Segundo ele, a demanda maior por produtos, que encareceu o preço da energia, criou uma inflação estrutural.

"A gente vê o que acontece com a inflação em países avançados. Lembrando que a inflação em 12 meses no Reino Unido está acima de 20%. Uma coisa nunca antes vista. As pessoas na Europa estão com dificuldade enorme de lidar com inflação tão acentuada. E lembrando que hoje a Rússia acentuou o problema com a interrupção no fornecimento de gás", disse.

Segundo Campos Neto, a crise global provocou um evento inédito, em que a relação entre preço e aumento de investimentos quebrou.

"Essa é uma das poucas vezes em que a relação entre o preço e quanto se investe quebrou. Basicamente, a gente teve aumento da demanda de bens, que aumentou a demanda de energia. A gente criou uma inflação de energia estrutural. Isso já acontecia antes da crise da Ucrânia", disse.

O presidente do BC também disse que o mercado precifica uma queda contínua da inflação, enquanto ele divide esse processo em duas etapas, com uma redução inicial de preços de energia e alimentos.

"A gente olha no final, a inflação cheia está alta e núcleos estão subindo muito no mundo. A inflação começou com energia, alimentos e um pouco de serviços. E agora começa a contaminar toda a cadeia. Por isso eu digo que o mundo tem dificuldade na luta com a inflação. Os mercados quase que precificam que a queda da inflação será contínua e eu entendo que não", disse.

Segundo Campos Neto, o ajuste nos preços de energia e alimentos levará a inflação a cair em alguns países desenvolvidos de 9% para 5%. "Mas acredito que haverá outra luta para derrubar a inflação de 5% para 3% e 2%", disse.

PIB

"A gente está em um processo de revisões para cima. Vamos ver um processo de revisão para cima de PIB do Brasil de 2022. A parte de emprego é o grande destaque e surpresa. A gente vai para uma taxa para perto de 8,5%. Isso tem sido uma surpresa. A população empregada tem sido um grande destaque", disse.

Segundo Campos Neto, os dados fiscais mostram uma situação das contas públicas melhor do que o esperado, apesar de entender que existem desafios significativos para financiar programas sociais no próximo ano.

"Há um quadro macroeconômico favorável para este ano. O PIB e o emprego estão para cima, o fiscal está melhor e a inflação está caindo", disse.