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A pior forma de solidão

No patético episódio de Honduras, acabamos ao lado de Hugo Chávez e Evo Morales - e isolados de todo o resto. Será que até o fim do governo Lula a nossa diplomacia vai romper a sina de perder todas as brigas que disputa?

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Da Redação

Publicado em 18 de março de 2010 às 09h58.

Mais uns poucos dias e estaremos chegando, enfim, ao último ano de vigência do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para os responsáveis pela política externa brasileira, é um momento de particular gravidade. Só lhes resta esse escasso ano para afinal conseguirem aquilo que não conseguiram nos sete anos anteriores: ganhar uma disputa, pelo menos uma que seja, na arena da diplomacia internacional. Brigar eles vêm brigando desde 2003; o problema é que até agora perderam todas. Haverá tempo suficiente, no curto horizonte que se abre à frente, para obter uma primeira vitória? Tempo até que existe, mas a dificuldade não está no relógio, e sim nos jogadores. Eles provavelmente ficariam surpresos se ouvissem dizer que não conseguem ganhar uma; estão convencidos, ao contrário, que ganham todas. Aí fica difícil, porque vão continuar jogando o mesmo jogo - e com o jogo que mostraram nestes últimos sete anos não vão conseguir ganhar nem da Portuguesa Santista.

Sua frustração mais recente, que vai se encerrando com avaria generalizada de chassi, motor e lataria, é essa medíocre opereta de Honduras. Não era preciso ser nenhum especialista em política externa para perceber que desde o começo havia um ar absurdo em volta da história toda. Com todo o respeito a Honduras e sua finíssima gente, nunca existiu a mais remota possibilidade de acontecer ali alguma coisa, qualquer coisa, capaz de afetar o Brasil, para melhor ou para pior. Mas o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e o assessor do presidente da República para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, viram no tumulto que se formou por lá no último mês de junho uma janela de oportunidade. A ideia era colocar de novo no poder o presidente que acabara de ser deposto, por ter tentado, já ao final do seu mandato, virar a mesa e continuar no emprego. No começo, todos os países das três Américas, incluindo os Estados Unidos, estavam de acordo: não se pode mais permitir golpes de Estado no território que vai do Alasca à Patagônia. O consenso durou pouco. Em alguns dias, para o Brasil, tudo começou a dar errado.

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Os Estados Unidos e outros países perceberam rapidamente que não havia, no caso, um golpe clássico. Não apareceu no palácio presidencial, com intenções de ficar morando lá por prazo indefinido, nenhum general de óculos escuros, peito cheio de medalhas e uma automática no cinturão. As eleições que estavam marcadas pela Constituição para o final de novembro foram mantidas. Os candidatos permaneceram os mesmos. A Corte Suprema e o Congresso confirmaram a deposição do ex-presidente. Não houve nenhum levante popular em seu favor; não houve prisões em massa; não aconteceu nada, enfim, que pudesse impedir um acerto. Era hora, em suma, de ir tirando o pé do acelerador. Foi o que fizeram os Estados Unidos e outros países - se a eleição fosse mantida, e transcorresse num clima de razoável limpeza, vamos dar o caso por resolvido e deixar a vida seguir em frente. Mas os condutores da nossa política externa quiseram ir para o tudo ou nada: ou o presidente deposto volta ao cargo, advertia o Brasil, ou então... Ou então o quê? Então nada. Foi o que deu.

Houve, é claro, a torcida dos Hugos Chávez e Evos Morales. "Vai nessa, Amorim! Vai que é sua, Marco Aurélio!" Eles foram. Deixaram o presidente expulso transformar a embaixada do Brasil em escritório político. Queixaram-se que os Estados Unidos deveriam intervir com mais força.

Propuseram o adiamento das eleições marcadas pela Constituição. No fim, ficaram na posição de "não reconhecer" uma eleição livre - fórmula universalmente aceita para a solução desse tipo de conflito. Pior que isso, depois de jogar todas as fichas no lado que perdeu, o Brasil acaba dando o dito por não dito e se dispõe a reconhecer a eleição que até a véspera jurava que não iria reconhecer nunca. Acabou mais uma vez sozinho - ou na companhia de Chávez, Evo e assemelhados, o que é a pior forma de solidão.

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