Economia

Um relato da "enlouquecedora" hiperinflação em Caracas

Nenhuma transação comercial - pagar um táxi ou comprar um cachorro-quente na rua -- é simples e descomplicada. Nenhuma.

Mural em Caracas onde se lê "não há paz com fome" (Marco Bello/Reuters)

Mural em Caracas onde se lê "não há paz com fome" (Marco Bello/Reuters)

João Pedro Caleiro

João Pedro Caleiro

Publicado em 12 de agosto de 2018 às 08h00.

Última atualização em 12 de agosto de 2018 às 08h00.

Fiquei hipnotizada enquanto o caixa do Burger King passava o cartão de débito do meu amigo.

Um Whopper, uma passada.

Uma Coca-Cola, uma passada.

Uma batata frita, uma passada.

Um molho de churrasco extra, uma passada.

A inflação é tão insana que os dispositivos de leitura de cartões não conseguem processar nem sequer um simples almoço de fast food -- esse custou cerca de 20 milhões de bolívares -- sem dividi-lo em pequenas partes.

O grande plano do presidente Nicolás Maduro para resolver essa situação é mudar a denominação da moeda e cortar cinco zeros. Ele diz que isso vai "mudar radicalmente a vida monetária do país".

É pouco provável. Mas, pelo menos temporariamente, isso aliviará a loucura. Hoje em dia, nenhuma transação comercial -- pagar um táxi ou comprar um cachorro-quente em um carrinho de rua -- é simples e descomplicada. Nenhuma.

Eu só fui parar no Burger King por causa de uma sequência de acontecimentos bizarra em um restaurante na noite anterior que me deixou, de repente, completamente sem dinheiro.

Tudo começou quando o caixa me disse que o meu cartão de débito tinha sido recusado. Ele tentou passar o cartão diversas vezes, mas a resposta foi sempre a mesma.

Liguei para o banco. A pessoa do outro lado da linha me informou que eu tinha atingido o limite mensal de extração. De quanto é? 480 milhões de bolívares. Isso pode parecer muito, mas é apenas cerca de US$ 120.

O limite, segundo ele me disse, foi imposto pela autoridade bancária para combater atividades financeiras ilícitas. De verdade. E, como os cartões de crédito (limites minúsculos de gastos) e o dinheiro em espécie (trabalhoso demais) há muito tempo deixaram de ser opções de pagamento viáveis, eu fiquei, como vi, completamente sem dinheiro durante 11 dias até o mês acabar.

Eu não estava totalmente quebrada, é claro. O aluguel estava pago, as contas não estavam vencidas. E, de fato, consegui comer naquela noite de sexta-feira, depois de chamar o gerente. Ele aceitou uma transferência bancária on-line, mas eu tive que deixar algum tipo de garantia até a transação ser confirmada. Entreguei a minha carteira de identidade e o meu cartão de débito -- que ficaram reféns durante a noite por uma taça de vinho e rolls de sushi de camarão.

O Burger King, graças à generosidade do meu amigo, me alimentou no sábado. No domingo, fui a La Guairita, um bairro onde vendem produtos importados que há muito tempo desapareceram das prateleiras dos supermercados.

Tudo é incrivelmente superfaturado e boa parte dos produtos está com a data de validade vencida. A vantagem, como lembrei no meu desespero, era que eu poderia pagar por transferência bancária.

Essa dose súbita de liberdade financeira me levou a comprar mais do que eu precisava. Fermento em pó, por que não? Cereal de chocolate, claro. A empolgação não durou muito. O site do meu banco caiu.

Sentei em uma cadeira de plástico ao sol e esperei. Enquanto eu esperava, a vontade de comprar um monte de coisas aleatórias foi diminuindo. Comecei a desistir de alguns itens. Primeiro, abandonei a caixa de cereal de chocolate e uma lata de refrigerante e depois, infelizmente, um pacote de salgadinhos de queijo.

Após 45 minutos, a transferência felizmente se concretizou. Com um sorriso no rosto, fui embora com o fermento, um pouco de farinha de trigo e alguns ovos e bananas. Naquela tarde, fiz panquecas de banana. Ficaram uma delícia. Ou talvez eu estivesse mesmo é com muita fome.

Acompanhe tudo sobre:VenezuelaInflação

Mais de Economia

Governo determina que distribuidoras informem margem de lucro em adesão à subvenção dos combustíveis

Tesouro planeja emitir títulos em euro após mais de uma década

Lula diz que vai enviar projeto da escala 6x1 ao Congresso nesta semana

Alckmin diz que governo deve enfrentar efeitos dos penduricalhos: 'Quem paga é o trabalhador'