A essência do socialismo em fotos de vitrines
Veja 10 fotos dos últimos dias do bloco soviético reunidas pelo fotógrafo americano David Hlysnky em seu livro "Window-Shopping Through the Iron Curtain"
João Pedro Caleiro
Publicado em 30 de julho de 2015 às 18h35.
Última atualização em 13 de setembro de 2016 às 14h37.
São Paulo – Com os sinais de abertura em Cuba , vão ficando mais escassos os resquícios do que o mundo conheceu como socialismo. É neste cenário que David Hlynsky lança o livro “Window-Shopping Through The Iron Curtain” (Olhando Vitrines Através da Cortina de Ferro, em tradução livre) pela editora Thames e Hudson (sem previsão de lançamento no Brasil). O fotógrafo nasceu no meio-oeste americano, mas tem dois avôs e duas avós do Leste Europeu. Entre 1986 e 1990, ele viajou para o bloco soviético diversas vezes e tirou cerca de 8 mil fotos. David evitou conscientemente momentos dramáticos e focou em vitrines: “Vi essas janelas como um grande museu ad hoc de uma utopia fracassada”, diz. As lojas escondiam o tanto quanto revelavam sobre a economia socialista. A chegada de inventário era anunciada por debaixo do pano; fofocas e rumores tomavam o lugar da publicidade. Como todas as lojas eram do Estado, não havia competição nem marcas. Corretores clandestinos se proliferavam nas ruas para fazer trocas com moeda estrangeira muito acima da cotação oficial. A produção de fábricas era contada errada de propósito e os excedentes eram desviados: "se você não está roubando do Estado, você está roubando da sua família", dizia o ditado. Criar relações de confiança com comerciantes era essencial para não ficar de fora e vizinhos estocavam o que podiam para depois poder trocar entre si. Veja a seguir 10 fotos incluídas no livro e os comentários do fotógrafo para EXAME.com; uma seleção maior pode ser vista no seu site.
“Isso pode parecer óbvio no limite da ingenuidade ou do ridículo, mas as pessoas dos dois lados da Guerra Fria precisavam de comida, vestuário, atividades culturais, utensílios de casa, livros, serviços de cuidado pessoal, transporte e tudo mais."
“Uma vitrine de loja congelada no tempo pode revelar os produtos mas também a condição arquitetônica, a sofisticação e a intenção do mostruário, e servir depois para um estudo da economia, da estética e da própria cultura material."
“Eu fiquei surpreso pela falta de sinais ostensivos e cor no cenário urbano. Senti as pressões da sedução constante da propaganda sendo suspendidas. Fiquei realmente surpreso em como meu ritmo ficou casual e que as ruas eram ao mesmo tempo limpas mas tinham sinais de decadência e gastura."
“O comunismo começou como uma visão utópica mas falhou por causa de uma economia institucionalizada de compartilhamento forçado que era muito difícil de garantir. O compartilhamento não é assim tão humanamente natural como poderíamos esperar. Então ele se tornou burocrático, dogmático, repressivo e ineficiente."
“A mudança certamente veio muito mais facilmente do que as mitologias da Guerra Fria teriam previsto. A queda do comunismo foi certamente uma vitória para aqueles que viviam lá. Mas sinto que aqui no Ocidente nós também perdemos algo na equação, porque supúnhamos que se o sistema deles era falho, o nosso deveria ser perfeito."
“Gostamos de pensar que nosso próprio sistema produz uma trajetória positiva: saúde, segurança e felicidade. Chamamos a isso de 'progresso'. Mas todas as culturas estão cheias de suposições erradas, idealismos, ineficiências e falhas",
"Precisamos examinar as economias capitalistas por uma medida semelhante. A ganância e a liberdade pessoal podem criar um ambiente enérgico e de competição aparentemente sem limites para a inovação e a distribuição material... mas ele também pode concentrar poder e riqueza nas mãos de cada vez menos pessoas."
“Nosso sistema cresce através do consumo e o consumo floresce através da obsolescência programada, modas frívolas e a produção de montanhas de propaganda. Isso tem um impacto ambiental que não é sustentável - e eu diria que também cobra um pedágio espiritual e emocional."
"Perdemos o pessoal, o excêntrico, o feito em casa. Ganhamos lixões perpétuos dependentes de consumo frenético e demos a nós mesmos a permissão para nos esbaldar nesta orgia."
“A era pós-Guerra Fria tem sido marcada por uma corporatização cada vez maior da cultura material. Pequenos negócios são engolidos por franquias multinacionais até que uma mesmice decorativa se instala. A eficiência das franquias superou o charme irregular que tínhamos com empresas menores."
"O Leste entrou em colapso não porque era 'mal', mas porque seu próprio mercado de ideias e coisas finalmente esgotou sua promessa. Por enquanto, pelo menos, e para o bem e para o mal, a Livre Iniciativa se provou uma das maiores liberdades de todas. As lojas do Leste estão sendo preenchidas por um simulacro do Oeste, uma nova utopia baseada em brilho e sedução. Mas as vitrines do Bloco que eu fotografei estavam longe de serem falidas. Sim, eram despretensiosas, ingênuas e pareciam irônicas. Mas elas também tinham um inventário das nossas necessidades humanas mais comuns. Só isso já deveria ser suficiente para nos unir."