Empresas começam a sofrer com avanço da inflação

Alta de preço dos insumos já faz indústria trabalhar com estoques mais baixos e reduzir produção
 (EXAME.com)
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Da RedaçãoPublicado em 09/10/2008 às 10:47.

Inflação e aumentos de juros tradicionalmente favorecem a desaceleração de economias. Políticas monetárias mais rígidas costumam surtir efeito muito mais rápido no mercado financeiro do que na chamada economia real. Nas bolsas, o impacto imediato - isso quando não é antecipado por invetidores. Em seguida, o sistema bancário começa a repassar os custos mais elevados para a captação de recursos às taxas cobradas dos tomadores de crédito. Estima-se, no entanto, que só seis meses depois da alta de juros haja efeitos significativos no consumo.

Apesar de um novo ciclo de juros ter sido iniciado no Brasil há apenas três meses, indicadores econômicos reforçam a sensação de que o setor industrial já começa a sentir os primeiros efeitos malignos da aceleração da inflação. O primeiro sinal veio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostrou nesta terça-feira que a produção industrial teve crescimento de apenas 2,4% em maio na comparação com o mesmo mês do ano anterior. A expectativa do mercado era de alta de 4,2%. Além disso, trata-se de uma grande desaceleração em relação ao crescimento de 10% observado em abril.

Os números de junho ainda não foram divulgados pelo IBGE, mas pesquisa da atividade industrial divulgada pelo Banco Real mostrou piora ainda maior no setor. E mais: a desaceleração seria parte de uma tendência.iniciada em outubro do ano passado. O indicador PMI - que engloba uma série de dados da indústria, como produção, novos pedidos, emprego, prazo de entrega e estoques - ficou em 52,1 em junho, abaixo dos 53,5 de maio. Apesar de resultados acima de 50 indicarem expansão da indústria, a economista-chefe do Banco Real, Zeina Latif, alertou que não se surpreenderá se o índice cair abaixo desse patamar nos próximos meses. Para ela, a economia segue robusta, mas já não tem o mesmo impulso do ano passado.

A economista-chefe aponta a inflação - mais que o dólar baixo - como principal causa de desaceleração da indústria. O IGP-M, índice de preços mais focado no atacado, ficou em 6,82% nos primeiros seis meses do ano - percentual superior ao de qualquer aplicação financeira no período. A alta de preço dos insumos - principalmente combustíveis e commodities metálicas - tem feito as empresas brasileiras operar com estoques mais baixos. Além disso, a maior parte das indústrias tem encontrado dificuldade para repassar todo o aumento de custos com a aquisição de insumos para seus clientes, o que também desestimula a produção.

Zeina Latif prevê que nos próximos meses a desaceleração econômica comece a ter impacto mais acentuado também no consumo. Até o momento, as vendas dos supermercados e de alimentos mostraram alguma acomodação. Também já se pode observar um pequeno aumento das taxas de inadimplência. E o ciclo de aumento da taxa básica de juros (Selic) iniciado pelo Banco Central em abril ainda não foi assimilado pela economia. Além disso, o viés dos juros segue em alta. O Banco Real estima que a Selic seja elevada para 14,25% até dezembro - ou 2 pontos percentuais acima da taxa atual.

Como enfrentar a crise

Segundo o IBGE, os dois setores que registraram maior desaceleração em maio foram o de fumo (-21,3%) e calçadista (-12,9%). A Grendene, por exemplo, já sentiu o golpe inflacionário. A empresa anunciou que, após um mês de abril forte, as vendas começaram a desacelerar em maio e esse movimento acentuou-se em junho. A previsão de aumento de vendas do segundo trimestre foi revisada de 17% para 10%. "Muito provavelmente a inflação em itens básicos, como de alimentação, (...) começa a afetar o consumo", afirmou a empresa.

O diretor de portfólio de produtos da Grendene, Luiz Antonio Moroni, diz, no entanto, que a empresa deve apresentar resultados melhores nos próximos meses.  "Uma conjuntura desfavorável influencia qualquer negócio, mas só 10% ou 15% das vendas." Contra a queda no faturamento, a empresa intensificou o lançamento de produtos. Somente na Francal, feira do setor calçadista que começou nesta terça-feira em São Paulo, a Grendene apresentou 60 novos modelos. "Pelo movimento acima das expectativas em nosso estande, vamos ter uma retomada consistente neste semestre", afirmou.

Já a Vulcabras/Azaléia aposta nas sinergias obtidas pela fusão das duas empresas para evitar aumentos de preços ao consumidor e superar a inflação e o dólar fraco. Pedro Bartelle, diretor de Marketing da empresa, afirmou que as vendas tiveram uma queda "pequena" em junho, por motivos sazonais. Mas, em todo o primeiro semestre, o faturamento cresceu 20%, e a meta para os últimos seis meses do ano é superar esse índice. "Ganhamos eficiência na produção e economizamos na compra de matérias-primas com a fusão entre Vulcabras e Azaléia. Não estamos repassando preços aos nossos clientes, até porque a forte concorrência asiática não permite isso", afirmou.

A aposta em produtos de maior valor agregado e o crescimento na Argentina mantém a confiança em um futuro promissor para a empresa. "Desde a fusão, contratamos 7.000 novos funcionários", afirmou Bartelle. A empresa também planeja fazer uma nova oferta de ações em bolsa. Hoje cerca de 10% dos papéis da Vulcabras/Azaléia circulam na Bovespa. A intenção da empresa é elevar o capital em circulação para 25% com uma nova oferta de ações, permitindo a migração para o Novo Mercado. Com o dinheiro, a companhia ficaria capitalizada para expandir os negócios, inclusive com novas aquisições. A oferta, no entanto, só deve ser realizada quando as condições de mercado melhorarem. O problema é que isso também depende do arrefecimento da inflação.

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