Economia

A crise por ora é só das bolsas, diz Figueiredo

Ex-diretor do BC e sócio da Mauá investimentos acredita que o Brasil tende a sofrer pouco com a crise na Europa

O ex-diretor do BC e sócio da Mauá, Luiz Fernando Figueiredo (./Site Exame)

O ex-diretor do BC e sócio da Mauá, Luiz Fernando Figueiredo (./Site Exame)

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Da Redação

Publicado em 11 de fevereiro de 2010 às 18h05.

O economista Luis Fernando Figueiredo, sócio da Mauá Investimentos, tem 30 anos de experiência no mercado financeiro, incluindo uma passagem de 1999 a 2003 pelo Banco Central, como diretor de política monetária. De acordo com ele, os reflexos da crise das dívidas da Grécia, Espanha e Portugal no Brasil por ora estão restritos às bolsas. Figueiredo prevê que essa turbulência seja passageira. Mas diz que o momento é de cautela. Caso os problemas lá fora se prolonguem, o temor pode se alastrar e contagiar a economia real. Os efeitos negativos viriam na forma de aumento do custo do dinheiro, aperto no crédito e reavaliação de investimentos. Leia a seguir a entrevista completa com Figueiredo.

O mercado tem motivos para o estresse dos últimos dias?
Figueiredo - O mercado vive e se realimenta de expectativas. Às vezes, antecipa um monte de fatos que depois realmente não acontecem. No momento, o que há de mais relevante por trás da turbulência das bolsas é o que está ocorrendo na Europa. Lá, como em outros lugares do mundo, muitos governos recorreram a uma forte expansão fiscal para evitar que o mundo fosse para o buraco, ou seja, que a crise financeira virasse uma depressão. Isso foi conseguido. Porém, o custo dessa conquista foi a ampliação da dívida pública de diversos países.

Esse problema não está restrito a alguns países?
Figueiredo - Para alguns países isso não é um grande problema. Os Estados Unidos, por exemplo, tiveram um aumento da dívida líquida da ordem de 40% para 70% do PIB, o que ainda é administrável. Mas, na Europa, muitos países já estavam em situação frágil, com dívidas públicas e déficits elevados antes da crise de 2008. Esse problema se torna ainda mais grave num quadro de economia andando devagar, porque quando há crescimento econômico são geradas receitas para abater o endividamento. Sem crescimento, o custo tende a ser ampliado.

Por que os países europeus estão sendo cobrados agora?
Figueiredo - A conta da expansão fiscal começou a ser cobrada antes do que se esperava. Os primeiros a ser cobrados são os países mais fragilizados, como a Grécia. Os do Leste europeu também estavam em situação difícil, mas receberam uma injeção de dinheiro. A Grécia tem uma dívida grande, déficit público enorme e tem muitos vencimentos de sua dívida no curto prazo. Além disso, é um país recém admitido entre os desenvolvidos, e não tem a mesma credibilidade, o mesmo histórico, da Espanha. Embora seja um país pequeno, sua situação cria um temor de contágio sobre outros países. Foi o que ocorreu quando a Rússia quebrou, em 1997. Naquela ocasião, todo mundo olhou para o Brasil, e nós, que também estávamos fragilizados na época, fomos atingidos. Hoje, nossa situação está diferente, o Brasil está bem melhor. (Continua)


Qual é o risco de fato dos países europeus quebrarem?
Figueiredo - Portugal e Espanha, que também estão sendo cobrados, precisam de ajuste fiscal, mas não vão quebrar. A Espanha já anunciou um pacote de ajuste e Portugal também deve anunciar. A Grécia já apresentou um plano de ajuste, mas este ainda precisa passar pelo Congresso. Ao que parece, também caminha para uma solução.

O mercado não está tendo uma reação exagerada?
Figueiredo - O mercado não gosta de volatilidade. Aceita bem quando a bolsa sobe por longo tempo e quando a bolsa cai. Mas quando há sacolejos todo mundo perde. Diante da volatilidade, começa a ficar com medo. Estamos no meio de um processo de aversão de risco. Isso já se refletiu nos indicadores de risco-país e na bolsa. Os preços dos ativos respondem rapidamente. Na bolsa brasileira, a queda acumulada em dólar do valor dos ativos é de 16% desde o início do ano. Nos Estados Unidos, a redução é de 4,5%.

Qual deve ser o impacto na economia como um todo?
Figueiredo - A turbulência deve ser um processo passageiro, mas precisa ser monitorada. Por ora, o reflexo está restrito às bolsas. Se demorar por dois, três, quatro meses, muda de figura e atinge a economia real. O custo do capital pode subir, embora pouco porque já é alto no Brasil. Mas as emissões e captações podem diminuir. O medo alcançaria as empresas e os investidores na economia real. Projetos poderiam ser postergados ou cancelados. Hoje, isso ainda não está acontecendo.

O Brasil pode tomar um novo tranco?
Figueiredo - No Brasil, já estamos acostumados com turbulências e o momento é mais de observar, sem que isso signifique suspender projetos nas empresas. Não creio que essa crise leve a alguma ruptura como a do final de 2008. E, de todo modo, países que dependem mais de seu mercado interno, como é o caso do Brasil, tendem a sofrer menos.


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