Economia

Copom vê cena externa pior; indica mais corte na Selic

Agentes econômicos já projetam mais cortes na taxa básica de juros

Por outro lado, o Copom reconheceu que a atual deterioração do cenário internacional será mais persistente do que a vista em 2008 e 2009 (Álvaro Motta/Veja)

Por outro lado, o Copom reconheceu que a atual deterioração do cenário internacional será mais persistente do que a vista em 2008 e 2009 (Álvaro Motta/Veja)

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Da Redação

Publicado em 8 de setembro de 2011 às 14h07.

São Paulo - Ao afirmar que o cenário internacional apresentou "substancial deterioração" recentemente, o Comitê de Política Monetária (Copom) deixou claro nesta quinta-feira que vê sinais mais "favoráveis" para a inflação no Brasil. Diante disso, os agentes econômicos já começam a projetar mais cortes na Selic.

"O comitê avalia que o cenário internacional manifesta viés desinflacionário no horizonte relevante", afirmou o Copom na ata de sua última reunião, realizada na semana passada.

O documento ressaltou que outras medidas tomadas no país, como restrições ao crédito de longo prazo anunciadas em dezembro, também ajudaram. "O processo de moderação em que se encontra a economia é uma decorrência das ações de política implementadas desde o final do ano passado e tende a ser potencializado pela fragilidade da economia global."

No último dia 31, o Copom surpreendeu o mercado ao reduzir a Selic em 0,50 ponto percentual, para 12 por cento ao ano, interrompendo um ciclo de cinco altas seguidas. Boa parte do mercado esperava que a autoridade monetária manteria a taxa básica de juros em 12,50 por cento.

O movimento do BC, segundo uma fonte oficial, foi decidido também para mostrar que houve um "ponto de inflexão" da política monetária, com busca de patamares menores para a taxa.

Apesar da piora significativa no cenário externo verificada pelo Copom, a ata trouxe também que, em um cenário alternativo, as atuais turbulências poderiam causar um impacto na economia brasileira "equivalente a um quarto do impacto observado durante a crise internacional de 2008/2009".

Por outro lado, o Copom reconheceu que a atual deterioração do cenário internacional será mais persistente do que a vista em 2008 e 2009, "porém, menos aguda".

Parte do mercado avaliou que a ata do Copom veio menos "dovish" do que se poderia esperar após a surpreendente decisão da semana passada. Ainda assim, analistas já começavam a rever suas projeções para os próximos passos da autoridade monetária.


O banco Barclays Capital, por meio de relatório, mudou suas estimativas para a Selic, esperando agora mais dois cortes de 0,50 ponto percentual nas reuniões de outubro e dezembro, o que faria a Selic encerrar 2011 a 11 por cento ao ano. "Nós mantemos nossa visão de que o Copom continuará muito dependente dos próximos indicadores."

A CM Capital, por sua vez, prevê mais três cortes de 0,50 por cento na Selic, chegando em janeiro a 10,50 por cento ao ano. A corretora ressaltou, no entanto, que caso o cenário mais pessimista traçado pelo BC não se concretize, a autoridade monetária poderia ter de voltar a subir os juros a partir de julho de 2012.

Como já fizera no comunicado que anunciou o corte de 0,5 ponto na semana passada, a autoridade monetária voltou a informar que a transmissão do ambiente externo pode se materializar por diversos canais, como moderação do fluxo de investimento, condições de crédito mais restritivas e na piora no sentimento de consumidores e empresários.

Inflação em queda em 2012

O Copom argumentou ainda que neste trimestre termina o ciclo de elevação da inflação acumulada em 12 meses e que, a partir do quarto trimestre, o cenário indica tendência declinante. "Ou seja, passa a se deslocar na direção da trajetória de metas (em 2012)", referência que voltou a fazer nesta ata sobre a meta oficial de 4,5 por cento pelo IPCA, com margem de 2 pontos percentuais para mais ou menos.

As projeções de inflação para o próximo ano, tanto no cenário de referência quanto de mercado, foram reduzidas agora, "posicionando-se ao redor do centro da meta". Na ata anterior, de julho, a autoridade monetária as colocava acima do centro da meta.

Já para o primeiro semestre de 2013, a estimativa de inflação recuou no cenário de referência e ficou estável no cenário de mercado, nos dois casos posicionando-se ao redor do valor central da meta.

O Copom informou ainda que, de maneira unânime, reconheceu que o ambiente macroeconômico mudou "substancialmente" desde sua reunião de julho, mas dois dos sete membros do comitê avaliaram que o momento atual ainda não oferece todas as condições necessárias para que a Selic fosse reduzida.


Esses dois membros votaram pela manutenção da taxa, enquanto que os demais, pelo corte de 0,50 ponto percentual.

Fiscal ajuda

O fato de o Copom ter voltado a citar o reforço fiscal anunciado pelo governo como um fator no combate à inflação, foi visto por analistas como outro indício de um afrouxamento maior da política monetária.

"Sobre a inflação, no geral, ele (Copom) fala de economia acomodando, moderação do mercado de crédito, o reforço no lado fiscal, isso aponta para mais cortes de juros", disse o economista sênior do Espírito Santo Investment Bank, Flávio Serrano.

"Achamos que serão de 0,50 ponto", acrescentou, ressaltando que "o ciclo total ainda é difícil prever".

Dois dias antes de o Copom cortar o juro, o governo anunciou que estava elevando em 10 bilhões de reais a meta de superávit primário deste ano, para evitar mais gastos, numa clara ação para ajudar a sustentar quedas na Selic.

Na ata, o Copom afirma que considera o cumprimento da nova meta de superávit primário, cerca de 3,15 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), sem ajustes, em 2011. Além disso, admitiu como hipótese de trabalho uma economia para pagamento de juros em torno de 3,10 por cento do PIB em 2012 e em 2013, sem ajustes.

O BC também manteve a projeção de reajuste no preço da gasolina em 2011 em 4 por cento, enquanto que os preços do gás de bujão, para o acumulado de 2011, foram mantidos estáveis.

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