Aumento dos custos freia crescimento do setor aéreo

"O ano de 2012 pode ser classificado facilmente como o pior ano da história da aviação civil comercial", disse Paulo Kakinoff, presidente da aerolínea brasileira Gol

São Paulo – Após uma período de crescimento explosivo, no qual milhões de brasileiros andaram de avião pela primeira vez, o mercado aéreo brasileiro enfrenta dificuldades, sofrendo com a alta do combustível, a infraestrutura deficiente e os novos impostos.

“O ano de 2012 pode ser classificado facilmente como o pior ano da história da aviação civil comercial”, disse Paulo Kakinoff, presidente da aerolínea brasileira Gol, a segunda do país, em entrevista à AFP.

“E isso é uma inédita combinação de fatores: o mais importante é o aumento significativo do custo dos combustíveis, que subiu quase 60% desde 2009. Isso foi combinado com a queda do real (-10%), o reajuste das taxas de navegação a criação de novas tarifas”, disse.

O combustível representa 45% dos custos da companhia, afirma Kakinoff.

Além disso, a empresa estatal que administra os aeroportos, Infraero, elevou em 2012 em até 150% algumas tarifas que não eram ajustadas desde 2005.

Com 500 milhões de dólares em perdas acumuladas até setembro, a Gol quer reduzir custos diminuindo sua oferta e aumentando a ocupação de seus voos, uma estratégia seguida por outras companhias aéreas.

Recentemente, a empresa anunciou o fechamento de sua filial de baixo custo, Webjet, e a demissão de 850 trabalhadores, apesar de a justiça ter ordenado esta semana sua recontratação.

A TAM, líder do setor, que se fundiu com a chilena LAN para criar a maior linha aérea da América Latina, LATAM, também busca reduzir custos.

A TAM já não publica resultados financeiros por si só, mas os últimos dados que correspondem ao primeiro trimestre apontam uma queda de 21,7% em seus ganhos com relação ao mesmo período de 2011.

Em 2012 “gastamos muito dinheiro por culpa de uma infraestrutura deficiente, do aumento do combustível e das novas tarifas”, declarou à AFP Gianfranco Beting, chefe de comunicações da Azul, uma empresa com aviões menores e eficientes que opera rotas novas ou pouco exploradas.


As empresas dizem ter sentido também a desaceleração do crescimento da economia brasileira este ano, que só crescerá em torno de 1%, segundo recentes estimativas.

De acordo com dados do setor, as cinco maiores empresas brasileiras de aviação são TAM, com 41,1% do mercado local; Gol, com 33,9%; Azul (9,35%) – que se fundiu este ano com a Trip (4,53%) e em seguida Avianca (5,95%).

Apesar de a demanda nacional por passagens aéreas ter se estabilizado, especialistas do setor projetam ainda um grande potencial inexplorado.

Em 2002, foram vendidos no Brasil 33 milhões de passagens aéreas e em 2011 essa cifra quase triplicou, para 86 milhões.

“No Brasil, há uma média de 0,4 viagens por ano por habitante. Em mercados maduros, esse número sobe para 2,7”, disse Adalberto Febeliano, consultor da Associação Brasileira de Empresas Aéreas, que agrupa as cinco maiores empresas aéreas do país.

“Para 2013, vemos uma provável estabilidade da demanda e uma retração da oferta para manter a rentabilidade”, disse Febeliano.

Esta entidade pede ao governo uma redução dos impostos ou dos preços do combustível.

“A fórmula para fixar o preço do combustível de aviação no Brasil continua sendo como há 20 ou 30 anos atrás, quando se dependia das importações. Hoje isso não se justifica”, explicou à AFP Gilson Garofalo, especialistas em aviação da Universidade de São Paulo.

Para o diretor-executivo da Associação Latino-Americana e do Caribe de Transporte Aéreo (ALTA), Alex de Gunten, a expectativa é que o mercado brasileiro continue crescendo, mas é necessário um desenvolvimento proporcional da infraestrutura local.

O governo de Dilma Rousseff começou a realizar concessões ao setor privado de alguns aeroportos, mas o avanço tem sido lento. No ano passado, foram licitados dois em São Paulo e um em Brasília, e para 2013 se espera a entrega da concessão dos aeroportos do Rio e de Belo Horizonte.

Dilma também anunciou na França na semana passada a construção de 800 aeroportos regionais, ao menos um para cada cidade de mais de 100.000 habitantes, sem dar mais detalhes.

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