Repórter
Publicado em 3 de setembro de 2026 às 15h02.
Última atualização em 3 de setembro de 2026 às 15h10.
Higienizar o corpo, aplicar desodorante e borrifar um perfume são passos que normalmente antecedem uma saída romântica. No entanto, uma parcela de usuários das redes sociais tem defendido o caminho inverso: evitar o banho e até dispensar o desodorante na tentativa de seduzir alguém através do odor corporal em seu estado mais puro.
Esse comportamento recebeu o rótulo de "pheromone-maxxing", numa referência direta aos feromônios. Segundo os adeptos da tendência, cosméticos e perfumes mascarariam sinais químicos naturais que, supostamente, teriam papel na atração entre as pessoas.
O movimento surgiu no TikTok e passou a ser vinculado sobretudo a rapazes da Geração Z. Isso não quer dizer, contudo, que toda uma geração tenha renunciado ao banho: muito do material que ajudou a espalhar o termo é visto também como piada ou exagero proposital, o que dificulta saber ao certo quantas pessoas de fato colocam o hábito em prática fora da tela.
Entre os responsáveis por difundir o "pheromone-maxxing" está o criador de conteúdo americano Isaac, dono do perfil @fluffdumpster. Já em 2024, um vídeo seu unia a expressão à ideia de evitar o banho para manter o cheiro do corpo. O material voltou a bombar depois e acabou entrando na onda mais ampla de tendências "maxxing" que circulam pela internet.
Essa lógica deriva de um movimento maior: o sufixo "-maxxing" passou a ser usado para nomear tentativas de potencializar alguma característica, em geral relacionada à aparência e ao apelo físico — caso do looksmaxxing, voltado a técnicas para melhorar a estética.
No "pheromone-maxxing", o alvo passa a ser o cheiro. Diversos vídeos mostram pessoas relatando que pararam de usar perfume e desodorante, diminuíram a frequência dos banhos ou reutilizam peças de roupa já usadas para não perder o odor corporal.
Um caso recente é o do influenciador Demir Basceri, o "cookiekinggg", que contou ao jornal britânico Daily Mail ter ficado três dias sem se banhar antes de um encontro e vestido de novo uma camiseta já usada no dia da saída. Segundo ele, a ideia era manter o que chama de "efeito halo" dos feromônios.
Feromônios são compostos químicos que várias espécies utilizam para se comunicar entre si. No reino animal, essas substâncias podem estar ligadas à reprodução, à marcação de território e a outras formas de interação.
Já entre os humanos, o quadro é muito mais incerto.
A androstadienona — um esteroide presente principalmente em secreções masculinas — figura entre as moléculas mais investigadas nesse campo. Pesquisas já relacionaram o composto a reações emocionais, cognitivas e de atividade cerebral. Ainda assim, uma revisão de 2025 publicada na Physiology & Behavior concluiu que os dados disponíveis continuam contraditórios, não permitindo classificar a substância como um verdadeiro feromônio sexual humano.
Isso não quer dizer que o olfato seja irrelevante nas interações sociais. Uma revisão sistemática de julho de 2026, publicada na Frontiers in Psychology e baseada em 21 estudos, identificou indícios de que odores interferem em emoções, percepções e julgamentos sobre outras pessoas. Segundo os autores, porém, os efeitos desses sinais químicos humanos são discretos e variam conforme o contexto.
O debate em torno do "pheromone-maxxing" surge em meio a transformações no jeito como os jovens vivenciam relacionamentos e encontros.
Levantamentos indicam que a Geração Z tem registrado índices mais baixos de atividade sexual se comparada a gerações anteriores. Entre as explicações levantadas por especialistas estão mudanças de prioridades, dificuldades financeiras e novas formas de construir vínculos afetivos.
Não existe uma ligação comprovada entre os dois fenômenos, mas ambos ajudam a entender como os códigos ligados à atração e à intimidade vêm sendo repensados pelos mais jovens. Nesse contexto, práticas antes tidas como básicas antes de um encontro — banho, desodorante, perfume — passaram a virar alvo de testes e questionamentos.
Isso não significa, obviamente, que os cuidados de higiene tenham perdido importância. O banho remove suor, oleosidade, resíduos e microrganismos que se acumulam na pele, enquanto sabonete e desodorante auxiliam no controle do odor corporal. Manter uma característica natural do corpo é algo bem diferente de abrir mão dos cuidados básicos.
No fim das contas, a chamada "Geração Cascão" talvez revele mais sobre a rapidez com que comportamentos ganham novos significados na internet do que sobre uma mudança concreta nos hábitos de uma geração inteira. Para parte dos usuários, a dúvida que fica é se o cheiro natural pode realmente pesar na hora da conquista. Por ora, a resposta está longe de ser tão simples quanto simplesmente deixar o sabonete de lado.