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A nova obsessão financeira da Geração Z não é riqueza: é estabilidade

Em meio à inflação, burnout e insegurança econômica, a Geração Z troca a promessa de enriquecimento acelerado pela busca de estabilidade emocional, financeira e profissional

Trabalho na Geração Z: obsessão por estabilidade (Maskot/Getty Images)

Trabalho na Geração Z: obsessão por estabilidade (Maskot/Getty Images)

Caroline Oliveira
Caroline Oliveira

Colaboradora na Exame

Publicado em 24 de maio de 2026 às 07h00.

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Existe uma palavra que aparece com frequência crescente quando jovens da Geração Z falam sobre dinheiro. Não é investimento, nem empreendedorismo, tampouco liberdade financeira — o mantra que marcou a geração anterior. A palavra agora é outra, menos aspiracional e mais urgente: estabilidade.

A mudança ajuda a explicar uma transformação silenciosa no comportamento financeiro dos jovens adultos. Depois de crescer assistindo millennials perseguirem enriquecimento acelerado, negócios próprios e estilos de vida vendidos como sinônimo de sucesso, parte da Geração Z parece operar sob outra lógica: menos ostentação, mais previsibilidade. Menos promessa de riqueza rápida, mais necessidade de segurança.

Os dados refletem essa mudança de mentalidade. Segundo o estudo “Gen Z: os novos autores da cultura”, da MindMiners, a estabilidade financeira aparece como principal prioridade para os próximos dez anos para 52% dos entrevistados entre 18 e 28 anos.

O resultado é uma geração que recalibra expectativas, em vez da ambição performática da década passada, emerge uma relação mais cautelosa com dinheiro, trabalho e consumo. A meta já não é necessariamente ficar rico — é conseguir respirar sem ansiedade financeira constante.

O retrato de uma geração no limite

Os dados do relatório 'The Forces Shaping Gen Z: Friends, Fitness and Finances', publicado pelo Morning Consult em fevereiro de 2025 com base em entrevistas com mil jovens entre 13 e 27 anos, mostram uma geração que influencia a cultura contemporânea enquanto convive com uma sensação persistente de estagnação — financeira, emocional e profissional.

Quando o assunto é dinheiro, o cenário é especialmente tenso. Jovens da Geração Z demonstram pessimismo em relação ao próprio futuro financeiro, relatam dificuldade para controlar gastos impulsivos e, em muitos casos, já acumularam dívidas por conta disso. No estudo da MindMiners, 59% dos jovens entre 18 e 28 anos avaliaram o mercado de trabalho como pouco ou nada favorável.

As mulheres Gen Z aparecem como o grupo mais vulnerável: são mais propensas a relatar ansiedade, demonstram menor confiança sobre a própria situação financeira e avaliam de forma mais negativa o próprio bem-estar.

O levantamento da MindMiners também expõe um descompasso entre discurso e realidade quando o tema é saúde mental. Embora 85% dos jovens considerem muito importante cuidar do bem-estar emocional, apenas 45% classificam a própria saúde mental como boa. A ansiedade excessiva atinge 53% da Gen Z, oito pontos percentuais acima da média nacional.

Para lidar com questões emocionais, quase metade dos jovens (42%) já buscou ajuda profissional. Além disso, a geração passou a incorporar práticas para administrar o estresse cotidiano: 37% afirmam investir em atividade física, 37% em hobbies e lazer e 35% priorizam sono e convivência social.

Esse ambiente de pressão constante ajuda a explicar também a relação mais cautelosa da Gen Z com dinheiro, carreira e consumo. O caminho até a estabilidade financeira, principal prioridade da geração, parece cada vez mais estreito. Entre os principais obstáculos apontados estão baixos salários (48%), exigência de experiência prévia (39%), alta concorrência (35%) e falta de networking (32%) — fator que pesa mais para a Gen Z do que para gerações anteriores.

Do hustle ao quiet ambition

Por décadas, o modelo dominante de sucesso para jovens adultos foi o da aceleração constante: trabalhar mais horas, ganhar mais dinheiro, conquistar um cargo mais importante ou uma promoção. O hustle culture transformou a exaustão em sinal de comprometimento e o descanso em sinônimo de falta de ambição.

"A ideologia da cultura da correria afirma que as pessoas trabalham demais não por necessidade econômica, mas simplesmente porque essa é a maneira pela qual os ambiciosos conseguem o que querem", afirma Nick Srnicek, professor de economia digital no King's College London e coautor do livro After Work, à BBC.

A Geração Z cresceu imersa nessa narrativa e, em grande parte, passou a rejeitá-la. O que emerge agora é o que analistas chamam de quiet ambition, ou ambição silenciosa: uma visão de carreira que não abandona crescimento profissional, mas recusa a ideia de que trabalho deve ocupar o centro absoluto da vida. Para essa geração, o emprego ideal não é necessariamente o mais glamouroso ou o mais lucrativo. É aquele que oferece previsibilidade, saúde mental, flexibilidade e a possibilidade de existir sem ansiedade permanente.

“Desde a Covid-19, as pessoas começaram a rejeitar a cultura da correria e a se retrair – elas não estão mais dispostas a fazer o trabalho que não importa e estão estabelecendo limites entre si e as narrativas tóxicas”, diz Brooks E Scott, coach executivo e especialista em comunicação interpessoal da Califórnia, à BBC. “Elas percebem que a cultura da correria não funciona mais como a chave para o sucesso.”

A mudança acontece em paralelo a um cenário de esgotamento generalizado no mercado de trabalho. Segundo pesquisa da consultoria The Grossman Group, citada pela Forbes, mais de 75% dos profissionais e 63% dos líderes afirmam se sentir esgotados em suas posições atuais. No Brasil, 30% dos profissionais relatam sofrer de burnout. Entre os principais fatores apontados estão sobrecarga de trabalho e alta rotatividade.

Em entrevista à Forbes, Kathleen Shanley, da Statice, resume a mudança: profissionais de alta performance estão repensando o significado de sucesso em um ambiente que já não glorifica o trabalho como uma luta constante. A ambição continua existindo — mas agora acompanhada de limites mais claros.

Nesse contexto, a recusa em “trabalhar apenas por trabalhar” se tornou quase uma resposta geracional ao esgotamento coletivo. Mais do que rejeitar o esforço, a Geração Z parece rejeitar a ideia de que sucesso precisa custar a própria estabilidade emocional.

Estabilidade como nova linguagem de aspiração

Não é coincidência que a CLT trend — movimento de valorização do trabalho formal, com carteira assinada, estabilidade e benefícios — tenha ganhado força justamente entre jovens que cresceram ouvindo que o futuro pertencia aos empreendedores. O contrato formal, que para gerações anteriores muitas vezes simbolizava acomodação, passou a representar proteção em um ambiente econômico marcado por insegurança e imprevisibilidade.

A mudança de percepção acompanha uma transformação mais ampla na relação da Geração Z com trabalho e sucesso profissional. Mais do que salário, jovens passaram a buscar propósito, equilíbrio e previsibilidade. Segundo pesquisa global da Deloitte realizada em 2024, 86% da Gen Z afirmam que ter senso de propósito é essencial para a satisfação no trabalho, enquanto 44% dizem rejeitar propostas de empresas que não estejam alinhadas aos seus valores éticos.

A Geração Z está, à sua maneira, revisando o contrato simbólico que a modernidade construiu em torno de trabalho e dinheiro. Não se trata de ausência de ambição, mas de uma redefinição do que significa “dar certo” profissionalmente.

Essa revisão acontece em meio a contradições e inseguranças reais. Os dados mostram uma geração que teme o futuro financeiro, sente dificuldade para construir patrimônio e convive com pressão emocional constante. Segundo o levantamento da MindMiners, 28% dos jovens têm medo de não alcançar independência financeira, enquanto 27% afirmam não conseguir guardar dinheiro. Outros 26% demonstram preocupação direta com o futuro econômico do país — reflexo de um cenário marcado por juros elevados, renda pressionada e baixa previsibilidade.

Ainda assim, uma ideia parece atravessar todas essas transformações: o objetivo já não é riqueza como símbolo de status, mas estabilidade como condição de sobrevivência emocional.

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