'Raposa Voadora': o morcego suspeito de ligação com o vírus Nipah ( NurPhoto/Getty Images)
Repórter
Publicado em 1 de fevereiro de 2026 às 14h27.
O surto recente do vírus Nipah registrado na Índia e em Bangladesh, neste início de 2026, colocou em alerta autoridades sanitárias de diferentes países. O episódio também reacendeu a atenção sobre um animal pouco conhecido do público geral, mas fundamental para entender a origem da doença: a raposa-voadora.
Esses morcegos de grande porte pertencem ao gênero Pteropus e são considerados os principais reservatórios naturais do vírus. Embora associados a pandemias em obras de ficção, os animais não representam ameaça direta fora de seus habitats naturais. Separadas dos morcegos brasileiros por cerca de 40 milhões de anos de evolução, as raposas-voadoras habitam apenas regiões da Ásia, Oceania e ilhas do Oceano Índico.
Ao contrário das espécies que vivem em cavernas no Brasil, as raposas-voadoras não dependem da escuridão nem do uso de ecolocalização para navegar. Sua visão é desenvolvida e ativa durante o dia.
O tamanho desses morcegos chama atenção. Algumas espécies, como o Pteropus vampyrus, alcançam até 1,80 metro de envergadura. Outra característica singular, segundo o pesquisador, é a presença de uma unha no dedo indicador — uma herança ancestral rara entre os quirópteros, grupo que inclui todos os morcegos.
A alimentação também os diferencia: são frugívoros, consumindo principalmente frutas, néctar e pólen. Especialistas alertam, no entanto, que o desequilíbrio causado por atividades humanas, como desmatamento e urbanização, pode aumentar o risco de contato com humanos e desencadear episódios como o atual.
O surto do vírus Nipah, registrado no estado de Bengala Ocidental, na Índia, provocou o isolamento de mais de 100 pessoas e acendeu o alerta sanitário no país após a confirmação de infecções entre profissionais de saúde. Casos envolveram médicos e enfermeiros, o que levou autoridades a reforçarem medidas de controle semelhantes às adotadas durante a pandemia de Covid-19, inclusive em aeroportos internacionais.
De acordo com o Ministério da Saúde, o risco de entrada do vírus no Brasil é considerado baixo. O surto indiano contabiliza até o momento dois casos confirmados, ambos localizados em ambiente hospitalar, sem indícios de transmissão comunitária ou impacto para a população brasileira.
"Diante do cenário atual, não há qualquer indicação de risco para a população brasileira. As autoridades de saúde seguem em monitoramento contínuo, em alinhamento com organismos internacionais", afirmou a pasta em nota.
O governo afirma que o país mantém protocolos contínuos de vigilância para agentes altamente patogênicos. A estrutura envolve laboratórios de referência como o Instituto Evandro Chagas e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A OMS também classificou o risco de propagação internacional como baixo. Não há recomendação, até o momento, para restrição de viagens ou comércio com a Índia. Apesar disso, o vírus Nipah integra a lista de patógenos prioritários da entidade, devido ao seu potencial de provocar epidemias.
Identificado pela primeira vez em 1998, o vírus Nipah provoca surtos esporádicos em países do sul e sudeste asiático. O patógeno desperta atenção pelo alto índice de letalidade — que pode chegar a 75% — e pela ausência de tratamento específico ou vacinas. O aumento da conectividade global amplia o alerta para potenciais riscos de disseminação.
O vírus circula principalmente entre morcegos do gênero Pteropus, frugívoros, que atuam como reservatórios naturais. A transmissão pode ocorrer por meio de alimentos contaminados ou pelo contato direto entre pessoas. A infecção se manifesta de forma variável, incluindo sintomas respiratórios e casos de encefalite, uma inflamação grave no cérebro com risco de morte.
Os sintomas associados ao vírus Nipah costumam surgir de forma súbita, iniciando com febre, dor de cabeça, dores musculares, vômitos e irritação na garganta. Em casos mais avançados, pacientes podem apresentar tontura, sonolência, alterações de consciência e sinais neurológicos compatíveis com encefalite aguda.
Também foram registrados casos com quadro respiratório, como pneumonia atípica e desconforto respiratório agudo. A progressão clínica pode incluir convulsões e, nos casos graves, levar ao coma em um intervalo de 24 a 48 horas.
Estudos indicam que o período de incubação do vírus — intervalo entre a infecção e o aparecimento dos sintomas — varia geralmente entre 4 e 14 dias, embora já tenha sido relatado um caso com incubação de até 45 dias.
Não há tratamento antiviral específico. A abordagem médica se concentra em cuidados intensivos de suporte, especialmente voltados para as complicações neurológicas e respiratórias graves.