Pulmões: tecnologia substituiu temporariamente a função pulmonar enquanto paciente de 33 anos aguardava novos órgãos (Manan Vatsyayana/AFP)
Redatora
Publicado em 31 de janeiro de 2026 às 09h00.
Um órgão artificial manteve um homem de 33 anos vivo por 48 horas após a retirada de seus pulmões, até a realização de um transplante duplo. O procedimento inédito foi realizado por médicos da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, e descrito em estudo publicado na revista científica Nature.
Os pulmões do paciente precisaram ser completamente removidos devido a uma infecção grave. A partir desse momento, ele passou a depender de um pulmão artificial externo, desenvolvido para manter a circulação sanguínea e a função cardíaca enquanto o transplante era preparado.
Diferentemente de tecnologias convencionais de suporte respiratório, o sistema criado pela equipe mantém o fluxo contínuo de sangue pelo coração. Essa característica reduz o risco de coágulos e falência cardíaca durante a ausência dos pulmões.
Segundo o cirurgião torácico Ankit Bharat, responsável pelo procedimento, o equipamento funciona como uma versão modificada da oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO), conectada diretamente ao sistema circulatório.
Antes da cirurgia, o paciente desenvolveu síndrome da angústia respiratória aguda, desencadeada por infecção viral. Mesmo com ventilação mecânica, ele evoluiu para uma infecção bacteriana resistente, causada por Pseudomonas aeruginosa.
O quadro resultou em choque séptico, com comprometimento do coração e dos rins. Como o estado clínico impedia um transplante imediato, os médicos decidiram remover os pulmões, eliminando a principal fonte da infecção.
Após ser conectado ao pulmão artificial, o paciente apresentou melhora significativa em menos de dois dias. Em cerca de 48 horas, não necessitava mais de medicamentos para manter a pressão arterial, e a função renal foi restabelecida.
Com o organismo estabilizado, foi possível realizar o transplante duplo de pulmão. De acordo com a equipe, quase três anos após o procedimento, o paciente não apresenta sinais de rejeição nem perda da função pulmonar.
O sistema começou a ser desenvolvido durante a pandemia de Covid-19 com o objetivo de servir como ponte para transplantes em pacientes em estado crítico. Especialistas avaliam que a tecnologia pode beneficiar outras pessoas gravemente doentes que aguardam órgãos.
A médica Natasha Rogers, do Hospital Westmead, na Austrália, destaca que o estudo mostra ser possível manter pacientes sem pulmões por períodos prolongados, desde que haja equipes altamente especializadas.
Apesar do potencial, os pesquisadores ressaltam que a técnica ainda é experimental e exige estrutura hospitalar avançada. Novos casos serão acompanhados antes de qualquer ampliação do uso clínico.