Repórter
Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 19h01.
Durante décadas, o tubarão-da-Groenlândia, espécie ártica de longa vida, foi descrito como um predador cego, pela opacidade dos olhos e da presença de parasitas. Mas, um novo estudo publicado na segunda-feira na revista Nature Communications aponta que o animal mantém um sistema visual funcional, mesmo após séculos de vida.
A pesquisa sugere que a espécie possui mecanismos avançados de reparo do DNA que preservam a retina ao longo do envelhecimento extremo. Desse modo, o estudo contradiz antigas teorias, segundo as quais a visão do tubarão estaria comprometida por viver em ambientes escuros e profundos do Oceano Ártico e Atlântico Norte, que podem alcançar 3 mil metros de profundidade.
A investigação começou após a fisiologista Dorota Skowronska-Krawczyk, da Universidade da Califórnia, observar em vídeos que os olhos do tubarão se moviam seguindo uma fonte de luz. A resposta ocular indicava que o animal não era funcionalmente cego, contrariando a visão predominante na literatura científica. “Do ponto de vista evolutivo, você não mantém um órgão que não precisa”, afirmou a pesquisadora, em nota à imprensa.
Para validar a hipótese, a equipe coletou amostras entre 2020 e 2024 com a colaboração da Universidade de Copenhague, na Estação Ártica da Ilha Disko, na Groenlândia. Os olhos dissecados, incluindo de exemplares com mais de 100 anos, foram enviados à Califórnia para análises histológicas e moleculares.
As análises revelaram a presença organizada de células essenciais à visão, incluindo a proteína rodopsina, sensível à luz azul — faixa de luz que mais penetra no oceano. Segundo a revista Nautilus, mesmo os parasitas nas córneas não obstruem totalmente a entrada de luz, permitindo que ela alcance a retina.
Outro dado central do estudo é a expressão intensa de genes ligados à reparação do DNA ocular. Essa característica pode ser determinante para evitar o desgaste natural da retina, fator associado ao surgimento de doenças como degeneração macular e glaucoma em humanos.
Para os cientistas, o tubarão-da-Groenlândia representa um modelo biológico único. Sua longevidade, que pode alcançar quatro séculos, torna-o um objeto de estudo raro sobre envelhecimento celular em vertebrados. Compreender como tecidos sensíveis mantêm funcionalidade por tanto tempo pode influenciar diretamente pesquisas na área da oftalmologia humana.
A coautora Emily Tom, doutoranda que participou das análises, destacou que ainda há lacunas na biologia visual dos tubarões. Segundo ela, a continuidade das pesquisas depende de financiamento científico que permita aprofundar o estudo desses mecanismos e sua possível aplicação terapêutica.