Cogumelos e terapia: estudo indica que combinação pode ser a chave para abandonar de vez o cigarro (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Colaboradora
Publicado em 17 de março de 2026 às 09h44.
Uma substância encontrada nos chamados “cogumelos mágicos” pode ajudar fumantes a abandonar o cigarro com mais eficácia do que tratamentos tradicionais. É o que indica um estudo recente publicado na revista científica JAMA Network Open: a psilocibina, quando combinada com terapia cognitivo-comportamental, pode aumentar em até seis vezes as chances de parar de fumar se comparada com o adesivo de nicotina.
A psilocibina é um composto psicodélico presente em certos tipos de cogumelos. Nos últimos anos, ela passou a ser investigada como possível tratamento para diversos quadros psiquiátricos e dependências, como o uso de álcool e tabaco.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins e envolveu 82 fumantes adultos, com idades entre 21 e 80 anos. Todos fumavam diariamente, consumiam cerca de um maço por dia e já haviam tentado parar de fumar várias vezes — em média, seis tentativas anteriores.
Os participantes foram divididos em dois grupos. Ambos passaram por 13 semanas de TCC, um tipo de aconselhamento que ajuda a identificar gatilhos para o cigarro, controlar a dependência e desenvolver práticas para abandonar o hábito.
A diferença estava no tratamento principal: enquanto um grupo recebeu uma dose única supervisionada de psilocibina (30 mg para cada 70 kg de peso corporal), o outro seguiu um regime padrão de adesivos de nicotina por 8 a 10 semanas, tratamento aprovado pela FDA, a agência reguladora dos Estados Unidos.
Os pesquisadores acompanharam os participantes por seis meses, por meio de diários de tabagismo preenchidos pelos próprios voluntários e testes biológicos para confirmar se eles haviam realmente abandonado o cigarro.
Os resultados mostraram uma diferença clara entre os dois tratamentos. Entre os participantes que receberam psilocibina, 40% conseguiram parar de fumar e ficar sem cigarro por seis meses. No grupo que utilizou adesivos de nicotina, apenas 10% atingiram esse resultado.
Matthew Johnson, professor associado de psiquiatria e ciências comportamentais e autor principal do estudo, afirmou à Healthline que "não havia dúvidas de que o grupo que recebeu psilocibina teve um desempenho muito melhor". "Descobrimos que as chances de parar de fumar eram seis vezes maiores nesse grupo", completou.
O estudo também analisou outra medida chamada abstinência pontual de sete dias — ou seja, participantes que não fumaram na semana anterior à avaliação de seis meses. Nesse caso, 52% do grupo da psilocibina estavam sem fumar, contra 25% no grupo do adesivo de nicotina, cerca de o triplo.
"A nicotina sequestra o circuito de recompensa e aprendizado do cérebro", explicou Brian Barnett, professor assistente de psiquiatria da Cleveland Clinic, que não participou da pesquisa. "Ela faz com que o cérebro fique extremamente focado em obter a próxima dose."
Apesar de décadas de campanhas de saúde pública, o tabagismo continua sendo uma das principais causas evitáveis de doença e morte. Nos Estados Unidos, mais de 16 milhões de pessoas vivem com doenças relacionadas ao cigarro. Embora quase dois terços dos fumantes digam que querem parar, menos de 10% conseguem abandonar o hábito em um determinado ano.
Já no Brasil, o tabagismo causa cerca de 174 mil mortes por ano e responde por 37% dos cânceres de pulmão e gera perdas de até seis anos de vida, segundo informações do Instituto Nacional do Câncer (INCA).
Embora promissor, o estudo tem algumas limitações. Uma delas é que 64,6% dos participantes já haviam tido contato anterior com psicodélicos, o que pode influenciar os resultados e dificultar a generalização para toda a população.
Além disso, especialistas dizem que seria importante acompanhar os participantes por um período mais longo. "Muitos fumantes conseguem parar por seis meses, mas recaem depois", afirmou George Singletary, professor de medicina de dependência da Universidade Tulane, à Healthline. "Precisamos ver o que acontece além desse período."
Os pesquisadores também alertam que a psilocibina ainda não é um tratamento aprovado para parar de fumar e que seu uso envolve riscos. Os estudos são realizados em ambientes clínicos controlados, com doses específicas e acompanhamento profissional.
"Existem riscos associados à psilocibina e a outros psicodélicos, incluindo riscos legais", disse Johnson. "Certamente não aconselho ninguém a tentar isso por conta própria. Só queremos ter mais ferramentas disponíveis para ajudar o maior número possível de pessoas que desejam abandonar o cigarro", afirmou.
Hoje, os tratamentos mais utilizados incluem terapia de reposição de nicotina, aconselhamento psicológico e medicamentos como bupropiona (Zyban) e vareniclina (Chantix). Independentemente do modelo escolhido, o importante é lembrar que o processo pode não ser linear, exigindo várias tentativas.
"A principal lição é: não desista de tentar parar", disse Singletary. "Quanto mais vezes alguém tenta, maiores são as chances de conseguir", concluiu.