Ciência

Natureza em alerta: como luz e ação humana afetam sobrevivência de espécies

Os animais adotam estratégias variadas, como a camuflagem, cores vivas, entre outras

Camuflagem: tática de sobrevivência é usada por insetos como os  bichos-pau (© Jonathan Brecko/IISE + ESF)

Camuflagem: tática de sobrevivência é usada por insetos como os bichos-pau (© Jonathan Brecko/IISE + ESF)

Da Redação
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Redação Exame

Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 09h49.

Na natureza, sobreviver significa saber escapar de predadores. Para isso, insetos e outros animais desenvolveram diferentes estratégias anti-predatórias, que vão desde a camuflagem até o uso de cores vivas e chamativas que sinalizam perigo ou toxicidade, mecanismo conhecido como aposematismo.

Apesar de bem conhecidas, essas táticas ainda levantam dúvidas sobre como o ambiente e a ação humana influenciam sua eficácia.

Um estudo com participação da Universidade de São Paulo (USP) trouxe uma análise bastante abrangente sobre o tema. Publicada na revista Science, a pesquisa investigou como fatores ecológicos, como luminosidade, intensidade da predação e localização geográfica, afetam o sucesso dessas estratégias.

Experimento global revela que não há estratégia única

Para simular situações reais de ataque, os cientistas utilizaram presas artificiais de papel em formato de mariposas.

Ao longo de oito dias, mais de 15 mil “mariposas” foram distribuídas em ambientes naturais de 21 locais espalhados por seis continentes. As presas apresentavam três padrões distintos: camufladas, aposemáticas (com cores de advertência) e com cores atípicas, usadas como controle. Fixadas em árvores junto a larvas-da-farinha, elas serviam de isca para aves insetívoras.

O monitoramento registrou 3.247 ataques — cerca de 21,6% do total — e levou a uma conclusão central: não existe uma estratégia anti-predatória universalmente superior. A eficácia depende do contexto ecológico.

Em ambientes com baixos índices de predação, a coloração de advertência tende a funcionar melhor; já a camuflagem se mostra mais eficiente em locais com pouca luz e quando o animal é um dos poucos camuflados no ambiente.

No Brasil, o experimento foi realizado na Serra do Japi (SP), na Reserva Ecológica do IBGE, em Brasília, e no Vale Encantado, em Uberaba (MG), integrando o esforço global da pesquisa.

Camuflagem, cores vivas e os impactos do ambiente

Segundo Vinicius Marques Lopez, um dos autores do estudo, a chave para entender essas estratégias está no comportamento e na aprendizagem dos predadores.

“Elas funcionam porque os animais têm uma capacidade cognitiva que os possibilita aprender a associar uma cor a uma experiência ruim e evitar uma experiência subsequente”, explicou ao Jornal da USP.

Lopez, doutor em Entomologia pela USP e professor da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), destaca que a camuflagem permite que insetos passem despercebidos ao se assemelharem ao ambiente em cor, forma ou textura.

Já no aposematismo, cores chamativas atuam como um aviso de toxicidade. O estudo mostrou que, em ambientes com alta competição entre predadores, a camuflagem tende a beneficiar as presas, mas essa vantagem diminui com o tempo, à medida que os predadores aprendem a identificá-las.

Com as presas aposemáticas, o efeito foi inverso: no início do experimento, o risco de ataque foi cerca de 50% maior, mas diminuiu ao longo dos dias, sugerindo que predadores “testam” esse tipo de presa antes de aprender a evitá-la.

A pesquisa também revelou o papel central da luminosidade. “A nossa capacidade de perceber a cor de um animal depende da luz disponível”, explica Lopez. Ambientes mais iluminados podem prejudicar a camuflagem, enquanto cores de advertência só funcionam adequadamente sob determinadas condições.

Por fim, os pesquisadores alertam para os efeitos da ação humana. A retirada de árvores e a conversão de áreas naturais em regiões agrícolas aumentam a entrada de luz e alteram o equilíbrio ecológico.

“Impactos ambientais não atingem só a biodiversidade no quesito de presença da espécie ou não. Eles atingem também a biodiversidade num cenário de estratégias gerais”, conclui o pesquisador.

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