Ciência

'Last of Us' da vida real? Espécie de fungo-zumbi é descoberta no Brasil

Fungo encontrado na Mata Atlântica infecta aranhas e usa elas para crescer no solo

'The Last of Us': apocalipse zumbi representado na série é improvável de ocorrer por causa dos fungos-zumbi da vida real (Liane Hentscher/HBO)

'The Last of Us': apocalipse zumbi representado na série é improvável de ocorrer por causa dos fungos-zumbi da vida real (Liane Hentscher/HBO)

Paloma Lazzaro
Paloma Lazzaro

Estagiária de jornalismo

Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 11h01.

O videogame e a série televisiva The Last of Us trouxe ao público um medo novo nos últimos anos: ser infectado por um fungo-zumbi.

A ideia não foi apenas uma criação dos responsáveis pela franquia, mas foi inspirada em casos reais da natureza, como o de alguns fungos do gênero Cordyceps que infectam insetos e passam a controlar seus corpos.

Para os fãs brasileiros de The Last of Us, uma descoberta científica recente pode gerar um certo nível de fascinação (e até nervosismo). Uma nova espécie de fungo parasita capaz de controlar corpos foi recentemente identificada na Mata Atlântica fluminense. Mas calma: não é preciso temer. Afinal de contas, o fungo infecta apenas aranhas.

Batizado de Purpureocillium atlanticum, ele foi encontrado em aranhas-alçapão enterradas no solo. Após controlar o aracnídeo, o fungo passa a utilizar o corpo do animal como base para crescer e liberar esporos.

A descoberta ocorreu durante uma expedição na Reserva Particular do Patrimônio Natural Alto da Figueira, em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Ela integra um esforço para mapear a biodiversidade ainda desconhecida dos fungos, um grupo no qual mais de 90% das espécies estimadas seguem sem descrição científica.

O que é um fungo-zumbi?

O termo “fungo-zumbi” é usado para designar fungos parasitas que infectam outros organismos e passam a manipular seus corpos para completar o ciclo de vida.

O exemplo mais conhecido é o Ophiocordyceps unilateralis, que infecta formigas e altera seu comportamento até a morte do inseto. Esse foi o exemplo que inspirou os criadores de The Last of Us a criar seu universo pós-apocalíptico.

Na realidade, esses fungos não representam ameaça aos humanos. “Não se tem conhecimento de espécies de fungos do gênero Cordyceps capazes de sobreviver no corpo humano e causar a morte daquela maneira vista na série”, afirma a pesquisadora do Instituto Butantan Ana Olívia de Souza em publicação da instituição.

Segundo ela, apesar de os fungos poderem sofrer mutações, “parece uma possibilidade bastante remota” que algo semelhante ao retratado na ficção ocorra na vida real.

No caso das formigas, o processo é bem documentado. “Este fungo realmente transforma a formiga em um zumbi porque secreta neurotoxinas dentro do animal, que então comprometem o funcionamento dos músculos do inseto, alterando o seu comportamento”, explica a biotecnologista Tainah Colombo Gomes, também do Butantan.

Onde vive o fungo-zumbi?

O Purpureocillium atlanticum foi encontrado na Mata Atlântica, um dos biomas mais biodiversos e ameaçados do planeta. O fungo infecta aranhas-alçapão que vivem enterradas no solo, dentro de tocas cobertas por uma espécie de “porta” camuflada.

Segundo os pesquisadores, o corpo da aranha fica quase totalmente tomado por um micélio branco e macio, parecido com chumaços de algodão.

A partir do cadáver do animal, surge uma estrutura reprodutiva cilíndrica e arroxeada, que atravessa a abertura da toca e se projeta acima do solo para dispersar os esporos. Até o momento, a espécie é conhecida apenas nesse local específico da Mata Atlântica e ainda há dados insuficientes quanto ao seu estado de conservação.

Como foi descoberto o novo fungo-zumbi?

A espécie foi identificada durante uma expedição de campo realizada em novembro de 2022, após cerca de seis horas de buscas focadas em fungos associados a artrópodes.

Os cientistas encontraram apenas a extremidade do fungo visível acima do solo, o que levou à investigação da toca subterrânea, onde estava a aranha mumificada.

Fungo zumbi: após infectar aranhas, ele utiliza os corpos delas para crescer seu micélio (mostrado nas fotos F, G e I) (Divulgação)

Para confirmar que se tratava de uma espécie inédita, os pesquisadores combinaram análise morfológica com sequenciamento genético feito ainda em campo, utilizando tecnologia portátil de DNA. O método permitiu decodificar o material genético do fungo em tempo quase real.

Segundo o estudo, a nova espécie se diferencia por sua morfologia, ciclo de vida, ecologia e distribuição.

A descoberta reforça o quanto ainda é desconhecido sobre o reino dos fungos. Como destacam os pesquisadores, muitas espécies podem desaparecer antes mesmo de serem descritas, o que dificulta sua inclusão em políticas de conservação e o entendimento de seu papel nos ecossistemas.

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