Gato-leopardo: animal já foi companheiro de humanos por milênios, mas se tornou selvagem novamente (Wikimedia Commons/Wikimedia Commons)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 23 de janeiro de 2026 às 12h40.
Por milhares de anos, antes mesmo da chegada dos gatos domésticos à China, um outro felino já dividia o espaço com comunidades humanas: o gato-leopardo (Prionailurus bengalensis).
É o que revela um estudo genético e arqueológico publicado no dia 14 de janeiro na Cell Genomics. A pesquisa analisou ossos de pequenos felinos encontrados em sítios arqueológicos chineses ao longo de cinco milênios.
Os resultados indicam que essa espécie, considerada selvagem, manteve uma relação de convivência, chamada pelos cientistas de comensalismo, com populações humanas desde pelo menos 5.400 anos atrás, caçando roedores em áreas agrícolas e assentamentos.
“Os dados mostram que os gatos-leopardos ocuparam ambientes moldados por humanos muito antes da introdução dos gatos domésticos”, explicam os autores do estudo. Essa relação durou cerca de 3.500 anos, atravessando do período Neolítico até o fim da dinastia Han, por volta de 200 d.C.
Apesar do nome, o gato-leopardo não é um ancestral do gato doméstico. Trata-se de um pequeno felino selvagem asiático, de tamanho semelhante ao de um gato comum, mas com pernas mais longas e pelagem manchada.
A espécie é a mais amplamente distribuída da Índia e do Sudeste Asiático até a China, Coreia e o extremo leste da Rússia.
De acordo com a International Society for Endangered Cats (ISEC), o gato-leopardo mede entre 45 e 75 centímetros de comprimento, pesa de 1,7 a 7 quilos e apresenta populações consideradas estáveis.
Adaptável, ele vive em florestas, áreas agrícolas e até próximo a vilarejos humanos, onde costuma se alimentar principalmente de roedores. Essa postura reflete o passado de companheirismo aos seres humanos.
Para reconstruir a história dessa convivência, pesquisadores de universidades da China, Europa e Austrália analisaram 22 ossos de pequenos felinos escavados em 14 sítios arqueológicos espalhados pela China.
O material foi datado entre cerca de 3.500 a.C. e 1.800 d.C., com uso de datação por radiocarbono e sequenciamento de DNA antigo.
Os resultados mostraram que todos os vestígios anteriores a 200 d.C. pertenciam majoritariamente a gatos-leopardos, e não a gatos domésticos (Felis catus), como se acreditava em estudos mais antigos.
“As equações e classificações morfológicas anteriores superestimaram a presença de gatos domésticos na China antiga”, afirmam os cientistas, destacando que apenas análises genéticas permitem distinguir com precisão espécies tão semelhantes fisicamente.
O estudo também identificou um hiato de quase 600 anos sem registros de pequenos felinos em assentamentos humanos, período que coincide com crises climáticas, queda populacional e instabilidade política após o colapso da dinastia Han.
“Esse colapso provavelmente destruiu o nicho ecológico que sustentava a convivência entre humanos e gatos-leopardos”, observam os autores.
Ao contrário do gato-leopardo, o gato doméstico não surgiu localmente na China. As análises genéticas indicam que os primeiros Felis catus chegaram ao território chinês apenas por volta do século 7, durante a dinastia Tang.
O exemplar mais antigo identificado foi encontrado em Shaanxi e datado de cerca de 730 d.C.
Segundo os pesquisadores, esses gatos têm origem no Crescente Fértil, no Oriente Médio, e teriam sido levados à China por comerciantes ao longo da Rota da Seda.
“Os primeiros gatos domésticos chineses aparecem justamente em centros estratégicos da Rota da Seda, o que sugere um transporte mediado por redes comerciais”, explicam. Registros artísticos e textos da época reforçam essa ideia, descrevendo gatos como animais exóticos, mantidos por membros da elite.
Com o tempo, os gatos domésticos se espalharam, tornaram-se plenamente domesticados e acabaram substituindo o gato-leopardo nos assentamentos humanos.
Enquanto isso, o antigo companheiro felino retornou majoritariamente a habitats naturais.
“Duas espécies diferentes ocuparam, em momentos distintos, o mesmo espaço humano, mas seguiram trajetórias culturais opostas”, concluem os autores.