Ciência

Dengue pode atingir pessoas vacinadas? Entenda por que isso acontece

Cientistas identificaram anticorpos que podem ajudar a medir o nível de imunidade e facilitar a avaliação de novas vacinas

Dengue: descoberta pode contribuir para a avaliação de novas vacinas contra a doença transmitida pelo mosquito Aedes (Freepik)

Dengue: descoberta pode contribuir para a avaliação de novas vacinas contra a doença transmitida pelo mosquito Aedes (Freepik)

Publicado em 30 de outubro de 2026 às 11h36.

Priorizar nos meus resultados Google
Tudo sobreDengue
Saiba mais

Uma nova pesquisa identificou pistas sobre por que a dengue pode provocar respostas mais intensas em pessoas que já tiveram a doença. O estudo, publicado na revista científica Science Translational Medicine, investigou como as infecções anteriores influenciam a resposta do sistema imunológico a diferentes tipos do vírus.

Para isso, os cientistas acompanharam 45 voluntários expostos a uma versão enfraquecida do vírus da dengue. Os resultados indicam que determinados anticorpos podem favorecer a multiplicação viral, enquanto outros estão associados a uma resposta mais protetora.

As descobertas podem contribuir para o desenvolvimento e a avaliação de novas vacinas contra a dengue.

Por que a dengue pode ser mais grave na segunda infecção?

O vírus da dengue possui quatro sorotipos, identificados como DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4.

Uma pessoa que já teve a doença pode ser infectada novamente por outro sorotipo. Em determinadas situações, essa segunda exposição está associada a maior risco de complicações.

Uma das hipóteses envolve os anticorpos produzidos durante a primeira infecção. Quando o organismo encontra um sorotipo diferente, parte dessas moléculas pode reconhecer o vírus sem conseguir neutralizá-lo adequadamente.

Em algumas circunstâncias, esse processo pode favorecer a multiplicação viral, fenômeno conhecido como amplificação dependente de anticorpos.

Os pesquisadores investigam como esse mecanismo influencia a gravidade da doença e a formação de imunidade duradoura.

Como os cientistas investigaram uma nova infecção por dengue?

A equipe, que inclui pesquisadores do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, reuniu 45 adultos saudáveis.

Os participantes foram divididos conforme o histórico de exposição à dengue: pessoas nunca infectadas, indivíduos com uma infecção anterior e aqueles que já haviam contraído diferentes sorotipos. Todos receberam uma versão atenuada do DENV-3, utilizada em condições controladas de pesquisa.

Os cientistas coletaram amostras de sangue e linfonodos para comparar as respostas imunológicas dos grupos. A análise permitiu observar como a imunidade preexistente influenciava a quantidade de vírus no organismo e a ativação das defesas.

Anticorpos revelam respostas diferentes ao vírus

Os resultados mostraram que a resposta imunológica anterior nem sempre favoreceu o controle de uma nova infecção. Participantes cujos anticorpos apresentavam maior capacidade de aumentar a replicação viral em testes laboratoriais desenvolveram cargas virais mais elevadas.

Esse grupo também apresentou alterações na ativação das respostas inflamatória e adaptativa. Apesar de uma reação inicial intensa, os pesquisadores observaram redução posterior de determinados anticorpos e células de defesa.

Por outro lado, pessoas com níveis mais elevados de anticorpos contra a proteína NS1, presente no vírus da dengue, apresentaram respostas mais equilibradas.

Nesses participantes, houve melhor controle da multiplicação viral e desenvolvimento de componentes da imunidade associados à proteção duradoura.

Os achados indicam que não apenas a quantidade, mas também as características dos anticorpos podem influenciar a resposta à doença.

Como a descoberta pode ajudar no desenvolvimento de vacinas?

Um dos desafios das vacinas contra a dengue é estimular proteção contra os quatro sorotipos sem favorecer respostas imunológicas prejudiciais.

Os resultados sugerem que determinados anticorpos, sobretudo os direcionados à proteína NS1, podem funcionar como biomarcadores de proteção. Esses indicadores poderiam ajudar os pesquisadores a avaliar a qualidade da imunidade produzida por novas vacinas.

Atualmente, a ausência de marcadores suficientemente precisos dificulta a previsão da proteção e exige estudos clínicos extensos. Segundo Leah Katzelnick, uma das autoras da pesquisa, compreender essas respostas pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias de imunização mais eficazes.

Entretanto, o estudo envolveu apenas 45 voluntários e utilizou um vírus atenuado. Dessa forma, os resultados não demonstram que pessoas vacinadas necessariamente terão infecções mais graves.

A investigação oferece novas informações sobre os mecanismos imunológicos da dengue, mas ainda são necessárias pesquisas para determinar sua aplicação no desenvolvimento de vacinas.

Acompanhe tudo sobre:DengueVacinasPesquisas científicas

Mais de Ciência

Qual é a probabilidade do telescópio espacial da Nasa cair no Brasil? Veja o que se sabe

Plano para resfriar a Terra prevê instalação de para-sol gigante no espaço; entenda o projeto

Patrick Stewart: o que é a demência com corpos de Lewy, que afetou ator de 'X-men' e 'Star Trek'

Doença cerebral pode ter atingido 3 em cada 4 ex-jogadores da NFL, estima estudo