Ciência

Data centers espaciais ainda não saíram da ficção — mas são apostas bilionárias

Empresas querem levar servidores de IA à órbita para fugir da crise energética e da falta de água na Terra

Data centers no espaço: mercado deve crescer até 2030 (CSA Images/Getty Images)

Data centers no espaço: mercado deve crescer até 2030 (CSA Images/Getty Images)

Publicado em 22 de fevereiro de 2026 às 06h01.

Imagine rodar modelos de inteligência artificial acima das nuvens, alimentados por sol constante e resfriados pelo vácuo do espaço. A ideia pode até parecer roteiro de ficção científica, mas já mobiliza empresas e governos e deve atingir um valor de mercado de até US$ 11,3 bilhões até 2030, segundo o Research and Market.

Para 2035, estimativas apontam para US$ 39 bilhões a US$ 41 bilhões, com taxa composta anual de crescimento entre 24,7% e 67,4%, a depender do ritmo de adoção comercial.

O avanço da IA elevou o consumo energético global. Servidores dedicados à tecnologia podem usar, até 2028, energia equivalente a 22% das residências dos Estados Unidos, segundo o MIT Technology Review.

Em paralelo, data centers terrestres consomem milhões de galões de água por dia para resfriamento, o que pressiona redes locais.

Corrida para a órbita

Para escapar dessa pressão energética e hídrica, empresas passaram a mirar a órbita terrestre como alternativa estratégica. A proposta é transferir parte do processamento pesado para data centers orbitais, abastecidos por energia solar quase contínua e resfriados por radiação térmica.

Em janeiro, a SpaceX solicitou autorização para lançar até 1 milhão de satélites no projeto “Orbital Data Center System”, após integrar a xAI ao grupo. O objetivo é combinar conectividade e treinamento de modelos em órbita.

A startup Starcloud lançou, em 2025, o Starcloud-1, equipado com uma NVIDIA H100, e informou ter treinado um modelo de linguagem no espaço. Um segundo satélite, com potência 100 vezes maior, está previsto para 2026.

A viabilidade financeira depende diretamente do custo por quilo colocado em órbita.

A meta da Starship é alcançar US$ 100 por quilo. Em cenários de US$ 20 por quilo, centros orbitais podem se tornar competitivos em relação aos terrestres para computação intensiva.

Investidores apostam também na evolução dos links ópticos, capazes de transmitir terabits por segundo entre satélites, reduzindo gargalos de comunicação.

Desafios físicos e operacionais

No espaço, o calor só pode ser dissipado por radiação térmica. Um centro orbital de 1 megawatt exigiria aproximadamente 980 metros quadrados de área radiadora. Data centers terrestres operam entre 100 e mil megawatts.

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Há ainda desafios relacionados à radiação espacial, latência adicional de 10 a 20 milissegundos e manutenção limitada.

A órbita baixa abriga cerca de 10.000 satélites ativos e aproximadamente 10 mil toneladas de detritos. A expansão do setor aumenta o risco de colisões e pressiona a governança do tráfego espacial.

Se os planos saírem do papel, os próximos grandes polos de computação não terão CEP, mas coordenadas orbitais.

E, enquanto a Terra discute conta de luz e uso de água, parte da inteligência artificial pode estar processando dados a 500 quilômetros de altitude — sob o Sol permanente e longe de qualquer vizinho reclamando do barulho dos servidores.

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