Semaglutida: pesquisas investigam possíveis alterações dermatológicas associadas ao tratamento (Roberto Pfeil/picture alliance/Getty Images)
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Publicado em 19 de outubro de 2026 às 06h12.
Medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic e Wegovy, foram associados a uma maior frequência de alterações nas unhas, queda de cabelo e problemas no couro cabeludo. Uma pesquisa multinacional identificou diferenças entre pessoas que utilizavam esses tratamentos e participantes com diabetes tipo 2 ou obesidade que nunca haviam usado essas substâncias.
Os resultados foram apresentados no Congresso da Academia Europeia de Dermatologia e Venereologia (EADV) de 2026 e divulgados em comunicado oficial da entidade, publicado em 1º de outubro.
Os pesquisadores analisaram relatos de 575 usuários de medicamentos GLP-1 e 1.329 não usuários, recrutados na França, nos Estados Unidos, no Brasil e no México.
A pesquisa identificou que 66% dos usuários de GLP-1 relataram pelo menos uma alteração nas unhas. Entre os participantes que nunca haviam utilizado esses medicamentos, a proporção foi de 53%. Uma das condições analisadas foi a onicólise, caracterizada pela separação da unha da pele localizada abaixo dela.
O problema foi relatado por 39% das pessoas em tratamento, em comparação com 9% dos não usuários. Outra diferença envolveu a descoloração das unhas, observada em 46% e 17% dos participantes, respectivamente.Após ajustes para considerar deficiências nutricionais e doenças dermatológicas preexistentes, o descolamento e a mudança de coloração continuaram aproximadamente duas a três vezes mais frequentes entre os usuários. Entretanto, cerca de metade das pessoas em tratamento já relatava problemas nas unhas antes de começar a utilizar os medicamentos.
Segundo Charles Taïeb, autor do estudo, os resultados reforçam uma associação que anteriormente era baseada principalmente em relatos isolados.
Um estudo complementar, realizado com os mesmos participantes, também identificou diferenças na saúde capilar. Os principais resultados foram:
Os dados mostram maior frequência desses sintomas entre pessoas que utilizavam os medicamentos, mas não comprovam uma relação direta de causa e efeito.
Além das alterações capilares, os pesquisadores identificaram diferenças relacionadas ao couro cabeludo. A vermelhidão foi aproximadamente três vezes mais comum entre os participantes que utilizavam GLP-1.
Pessoas que relataram perda de cabelo também mencionaram sintomas como coceira e descamação. A combinação dessas manifestações levantou a hipótese de que processos inflamatórios possam contribuir para as alterações observadas.
Segundo Bruno Halioua, também autor da pesquisa, os resultados sugerem que os sintomas podem envolver mecanismos além da queda capilar associada ao emagrecimento rápido. Entretanto, ele destaca que os dados ainda não permitem determinar se a inflamação contribui diretamente para a perda dos fios.
Os pesquisadores investigaram se as alterações poderiam estar relacionadas à perda de peso, em vez de serem provocadas diretamente pelos medicamentos. O emagrecimento acelerado pode causar mudanças nutricionais e fisiológicas capazes de afetar a saúde das unhas e dos cabelos.
No entanto, mesmo entre participantes que haviam perdido peso, os problemas nas unhas permaneceram mais frequentes no grupo que utilizava GLP-1. Isso não permite descartar a influência do emagrecimento nem comprovar que os medicamentos sejam responsáveis pelos sintomas.
As pesquisas foram transversais, ou seja, avaliaram os relatos dos participantes sem acompanhá-los ao longo do tempo. Além disso, as informações foram fornecidas pelos próprios voluntários, sem confirmação sistemática por exames clínicos padronizados.
Por isso, não foi possível determinar com precisão quando cada alteração começou ou se a frequência dos sintomas varia conforme a dose e a duração do tratamento.
Os medicamentos investigados atuam em mecanismos hormonais relacionados ao controle do apetite e da glicose no sangue. Entre os exemplos estão a semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy, e a liraglutida, presente no Victoza.
Já o Mounjaro e o Zepbound contêm tirzepatida, substância que atua nos receptores de GLP-1 e GIP.
Os pesquisadores destacam que os resultados não justificam a interrupção do tratamento por conta própria. Pessoas que perceberem descolamento ou mudanças na coloração das unhas, queda persistente de cabelo ou inflamação do couro cabeludo devem comunicar os sintomas ao profissional de saúde responsável pelo acompanhamento.
A equipe pretende realizar novos estudos para acompanhar pacientes desde o início do tratamento, com avaliações padronizadas da pele, das unhas e dos cabelos. O objetivo é identificar quando as alterações surgem, quais fatores estão associados aos sintomas e se desaparecem com o tempo.