Lua Blanco: atriz enfrentava câncer de intestino em estágio avançado antes de morrer aos 39 anos (Record/Divulgação)
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Publicado em 19 de outubro de 2026 às 16h59.
A morte da atriz e cantora Lua Blanco, aos 39 anos chamou a atenção para o câncer de intestino, também conhecido como câncer colorretal. A doença afeta o intestino grosso, incluindo o cólon e o reto, e pode evoluir sem apresentar sintomas nas fases iniciais.
Conhecida por interpretar Roberta Messi na versão brasileira da novela Rebelde, exibida pela Record, Lua enfrentava um câncer nos últimos meses de vida, segundo comunicado divulgado por sua família.
Embora seja mais frequente em pessoas acima dos 50 anos, o câncer de intestino também pode atingir adultos mais jovens. Um levantamento do World Cancer Research Fund (WCRF) identificou aumento de casos de alguns tipos de câncer, incluindo o colorretal, em pessoas com menos de 50 anos.
No Brasil, o câncer colorretal é o terceiro tipo de câncer mais incidente, desconsiderando os tumores de pele não melanoma, segundo a publicação Estimativa 2026–2028: Incidência de Câncer no Brasil, do Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Em entrevistas à EXAME, os médicos Alexandre Nishimura, coloproctologista e cirurgião robótico, e Lucas Nacif, cirurgião do aparelho digestivo e membro do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD), explicaram os principais sintomas, os fatores de risco, os exames utilizados no diagnóstico e as possibilidades de tratamento.
Segundo Nishimura, integrante do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e do Hospital Vila Nova Star, muitos casos se desenvolvem a partir de pólipos, lesões inicialmente benignas que podem sofrer alterações ao longo dos anos e se transformar em câncer.
Como esse processo pode ocorrer lentamente e sem sintomas, o rastreamento permite identificar alterações antes que a doença avance.
Os sintomas do câncer de intestino podem variar de acordo com a localização e o estágio do tumor. Em alguns casos, os sinais são semelhantes aos de problemas digestivos comuns, como prisão de ventre, gases e desconforto abdominal.
"É justamente essa semelhança que pode atrasar a procura por atendimento e a investigação da causa", pontua Nacif.
Entre os principais sinais de alerta estão:
Nacif ressalta que esses sintomas não significam necessariamente a presença de câncer. "O alerta está na persistência, na recorrência e na combinação dos sintomas", afirma.
O coloproctologista Alexandre Nishimura destaca, porém, que o câncer de intestino pode ser silencioso, principalmente nas fases iniciais. "O problema é que muitas pessoas esperam aparecer sangue nas fezes, dor, alteração importante do funcionamento intestinal ou perda de peso para procurar ajuda. Só que, nas fases iniciais, muitas vezes não existe sintoma nenhum", alerta.
O aumento dos casos de câncer colorretal em pessoas com menos de 50 anos tem sido observado em diferentes países e mobilizado pesquisadores. Uma análise divulgada pelo World Cancer Research Fund mostrou que, na Inglaterra, a taxa de câncer de intestino entre pessoas jovens passou de 3,9 casos por 100 mil habitantes, em 2001, para 8,4 por 100 mil, em 2023.
As razões para esse crescimento ainda não são completamente conhecidas. Pesquisadores investigam possíveis relações com alimentação pobre em fibras, consumo frequente de carnes processadas e alimentos ultraprocessados, sedentarismo, obesidade, tabagismo e consumo de bebidas alcoólicas.
Segundo Lucas Nacif, o histórico familiar e determinadas condições genéticas também podem elevar o risco. No entanto, pessoas sem esses fatores também podem desenvolver a doença. "Por isso, a idade, isoladamente, não deve ser usada para descartar a necessidade de investigar sintomas persistentes", afirma o especialista.
O diagnóstico do câncer de intestino envolve avaliação médica e exames que permitem identificar alterações no cólon e no reto. Um dos principais procedimentos é a colonoscopia, que possibilita visualizar o interior do intestino grosso, identificar lesões suspeitas e coletar amostras para análise.
O diagnóstico de câncer colorretal é confirmado pela análise de tecido retirado durante a investigação. A colonoscopia também permite remover pólipos que apresentam potencial de se transformar em câncer.
Outra ferramenta utilizada no rastreamento é o Teste Imunoquímico Fecal (FIT), realizado por meio da coleta de fezes. O teste identifica a presença de hemoglobina humana, que pode indicar sangramentos no trato gastrointestinal inferior. Diferentemente da análise de tecido, o FIT não confirma o diagnóstico de câncer, mas ajuda a identificar pessoas que precisam de investigação complementar.
Segundo Nishimura, o FIT é mais específico para identificar esse tipo de sangramento do que o teste tradicional de sangue oculto nas fezes. O especialista explica que um resultado negativo não exclui a possibilidade de lesões, pois algumas alterações podem não provocar sangramento detectável no momento da coleta. Já um resultado positivo indica a necessidade de investigação complementar por colonoscopia.
Além disso, Nacif destaca que a investigação de pessoas com sintomas não segue necessariamente as mesmas recomendações aplicadas ao rastreamento de quem não apresenta sinais da doença.
Mesmo adultos abaixo da faixa etária habitual podem precisar de exames quando existem sintomas persistentes ou fatores de risco relevantes.
O câncer de intestino pode ter cura, sobretudo quando é identificado precocemente. Segundo Nishimura, o tratamento depende do estágio do tumor, da localização da lesão e das condições clínicas do paciente.
Em alguns casos iniciais, a retirada da lesão durante a colonoscopia pode ser suficiente. Quando o câncer invade camadas mais profundas da parede intestinal, geralmente é necessária uma cirurgia.
Técnicas minimamente invasivas, como a laparoscopia e a cirurgia robótica, também podem ser utilizadas segundo as características de cada caso. "Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores são as possibilidades de tratamento e, principalmente, de cura", afirma Nishimura.
Segundo Alexandre Nishimura, uma alimentação equilibrada, rica em fibras, frutas, verduras e legumes, a prática regular de atividade física e a manutenção de um peso saudável estão associadas à redução do risco.
O especialista também recomenda não fumar, evitar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e limitar a ingestão frequente de carnes processadas e alimentos ultraprocessados.
Além dessas medidas, a colonoscopia pode contribuir diretamente para a prevenção ao permitir a identificação e a retirada de pólipos antes que sofram uma transformação maligna. "Quando identificamos e retiramos esses pólipos antes dessa transformação, nós não estamos apenas diagnosticando precocemente, estamos efetivamente prevenindo que aquele câncer apareça", explica Nishimura.