Ciência

Brasil tem primeiro porco clonado da América Latina - e o objetivo é doar seus órgãos

O objetivo inicial é produzir órgãos como rim, córnea, coração e pele

Primeiro porco clonado do Brasil nasceu em laboratório em Piracicaba e faz parte de projeto para transplantes (Reprodução)

Primeiro porco clonado do Brasil nasceu em laboratório em Piracicaba e faz parte de projeto para transplantes (Reprodução)

Luiz Anversa
Luiz Anversa

Repórter

Publicado em 23 de abril de 2026 às 10h30.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) anunciaram no fim de março o nascimento do primeiro porco clonado no Brasil e na América Latina. O feito, alcançado após quase seis anos de tentativas, ocorreu em laboratório do Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, em Piracicaba (SP).

O resultado marca um avanço no projeto que busca desenvolver suínos geneticamente modificados para fornecer órgãos a transplantes em humanos sem risco de rejeição. A iniciativa é conduzida pelo Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR), criado em 2022 com apoio da FAPESP.

Desafio científico

Segundo o pesquisador Ernesto Goulart, do Instituto de Biociências da USP, a clonagem de suínos é considerada uma das etapas mais complexas do processo. Embora o Brasil tenha experiência na clonagem de bovinos e equinos, os porcos apresentam barreiras biológicas ainda pouco compreendidas. O clone nasceu saudável, com 1,7 kg, após gestação de quatro meses.

Modificação genética

Para viabilizar o xenotransplante, os cientistas utilizaram a ferramenta CRISPR/Cas9 para inativar três genes suínos que provocariam rejeição imunológica. Em seguida, inseriram sete genes humanos nas células dos animais, aumentando a compatibilidade com receptores humanos, de acordo com a FAPESP.

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Estrutura pioneira

Os porcos clonados serão mantidos em laboratórios de grau clínico inaugurados em 2024 na USP e em 2025 no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). As instalações seguem rígidos padrões de biossegurança para evitar transmissão de patógenos.

Impacto estratégico

O objetivo inicial é produzir órgãos como rim, córnea, coração e pele, que representam 94% da demanda do Sistema Único de Saúde (SUS). Para Goulart, dominar essa tecnologia é estratégico para o Brasil: “Se o xenotransplante se tornar realidade nos Estados Unidos ou na China e não detivermos essa tecnologia, nosso sistema nacional de transplantes ficaria vulnerável e dependente de importações”.

A meta é que São Paulo se torne referência em xenotransplante na América Latina, beneficiando países vizinhos. Atualmente, estudos clínicos estão em andamento nos EUA e prestes a começar na China. Os resultados devem indicar a viabilidade da técnica e a sobrevida dos órgãos transplantados.

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