Ciência

Adiar o alarme afeta o sono?

Pesquisas ainda são limitadas, mas hábito pode mascarar distúrbios

"Só mais cinco minutos": adiar o alarme faz mal à saúde?

"Só mais cinco minutos": adiar o alarme faz mal à saúde?

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 13 de fevereiro de 2026 às 17h08.

Usar a função "soneca" para adiar o alarme faz parte da rotina de milhões de pessoas e pode ser considerado uma prática comum. É o que indica um estudo recente publicado na revista Nature, que avaliou os hábitos de sono de mais de 21 mil adultos em todo o mundo durante seis meses a partir de seus smartphones.

A pesquisa concluiu mostrou que, em mais da metade das noites registradas, os participantes adiaram o alarme, em média, 2,4 vezes antes de se levantar, em busca de "mais cinco minutinhos" de sono.

O estudo constatou que a prática é popular, mas não mapeou as causas — e os efeitos — dela na qualidade de vida, tópico que ainda é pouco explorado pela ciência. Hoje, as poucas pesquisas existentes sugerem que os efeitos podem variar conforme o motivo do adiamento e se a prática está associada a hábitos de sono inadequados.

Possível impacto no sono REM

Uma das principais críticas ao uso da função soneca é a possibilidade de reduzir o sono REM, que tende a ocorrer com mais intensidade no final da noite e no início da manhã. Essa fase tem impacto direto na saúde cerebral e está relacionada a funções como memória, processamento emocional e criatividade.

Dessa forma, programar o despertador para tocar antes do necessário — com a intenção de adiá-lo — pode interromper uma fase REM importante. Ao voltar a dormir, a pessoa entra em um sono mais leve e não REM, que tende a ser mais fragmentado e menos reparador, afirmou Rebecca Robbins, cientista do sono do Brigham and Women’s Hospital, ao New York Times.

Mesmo assim, não há evidências robustas de que pequenas perdas de sono REM pela manhã sejam suficientes para prejudicar de forma importante o desempenho cognitivo, disse Cathy Goldstein, professora clínica de neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan. Para ela, até que haja mais dados, não é possível afirmar perder alguns minutos dessa fase seja prejudicial.

Risco de desregular o relógio biológico

Especialistas alertam, porém, que o adiamento pode se tornar um problema quando leva afeta os horários de sono. Se a prática faz com que a pessoa acorde mais de meia hora depois do habitual, o ritmo biológico pode ficar desregulado, o que se estende para os dias seguintes.

Em muitos casos, o recurso vira uma estratégia para lidar com sono insuficiente ou de má qualidade, segundo Shelby Harris, professora associada clínica de neurologia e psiquiatria no Albert Einstein College of Medicine.

Condições como insônia, síndrome das pernas inquietas, narcolepsia e apneia do sono aumentam a probabilidade de a pessoa adiar o alarme. O mesmo pode ocorrer com o uso de medicamentos que causam sonolência no começo do dia.

Segundo Harris, o risco é que o hábito esconda distúrbios importantes. A recomendação da professora é priorizar a higiene do sono por pelo menos uma semana, com medidas como limitar cafeína e álcool no fim do dia, evitar cochilos tardios, manter horários regulares e garantir um ambiente escuro e silencioso. Se não houver melhora, a orientação é procurar avaliação médica.

Possíveis benefícios em alguns casos

Por outro lado, algumas pesquisas sugerem que adiar o despertador pode ser benéfico em algumas situações. Goldstein afirma que isso pode ocorrer quando a pessoa mantém rotina de sono consistente e apresenta sinais de estar bem descansada.

Em um estudo de 2023 com 31 participantes que costumavam usar a soneca, realizado em laboratório do sono, os pesquisadores observaram associação entre o adiamento do alarme e melhor desempenho cognitivo logo após acordar, em comparação com quem não utilizou o recurso.

Como o período final do sono costuma ocorrer em estágios mais leves, a prática pode ajudar algumas pessoas a reduzir aquela sensação de lentidão ao despertar e engajar nas atividades do dia com mais facilidade.

Ainda assim, especialistas destacam que são necessárias mais pesquisas para compreender as causas e os efeitos da prática. Se a dificuldade para levantar estiver ligada a distúrbios ou outros problemas de sono, a recomendação é tratar a causa principal, em vez de depender da soneca.

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