Ciência

A estratégia inusitada que pode salvar anfíbios de doença mortal

Pesquisadores usam aquecimento artificial e medicamentos para conter a quitridiomicose, infecção que já afetou mais de 500 espécies de anfíbios

Espécies de anfíbios extintas descobertas (Stefan Sauer / AFP)

Espécies de anfíbios extintas descobertas (Stefan Sauer / AFP)

Publicado em 28 de fevereiro de 2026 às 05h01.

O fungo quitrídio, responsável pela doença conhecida como quitridiomicose, tornou-se uma das maiores ameaças à biodiversidade global. O patógeno já foi associado à extinção de dezenas de espécies de anfíbios e ao declínio populacional de centenas de outras ao redor do mundo.

Diante do avanço da doença, pesquisadores na Austrália e nos Estados Unidos estão testando soluções que vão de saunas artificiais para rãs a banhos antifúngicos medicinais, em uma tentativa de conter a propagação do fungo e evitar novas extinções.

Por que o fungo é tão letal?

O agente da doença é o Batrachochytrium dendrobatidis, fungo transmitido pela água que infecta a pele de rãs, sapos e salamandras. Nos anfíbios, a pele desempenha funções essenciais, como respiração e equilíbrio de líquidos. Quando essa barreira é comprometida, o organismo pode entrar em colapso.

Um estudo retrospectivo publicado na revista Science, em 2019, classificou a quitridiomicose como a doença infecciosa mais devastadora já registrada entre vertebrados, associando o fungo à extinção de cerca de 90 espécies e ao declínio de mais de 500.

O patógeno já foi detectado em todos os continentes onde existem anfíbios e, uma vez estabelecido no ambiente, não pode ser erradicado.

Como funcionam as 'saunas para rãs'

De acordo com a CNN, na Austrália, pesquisadores desenvolveram abrigos simples feitos com tijolos e cobertura de estufa que elevam a temperatura corporal dos animais. O objetivo é explorar uma vulnerabilidade do fungo: ele não sobrevive bem em temperaturas mais altas.

Estudos mostraram que, quando a temperatura das rãs atinge cerca de 30 °C, muitos indivíduos conseguem eliminar a infecção. Experimentos publicados na revista Nature indicaram que rãs com acesso ao aquecimento tiveram maior taxa de recuperação em comparação com grupos mantidos em áreas mais frias.

Além de reduzir a carga fúngica, o tratamento térmico pode aumentar a chance de sobrevivência em reinfecções.

Outra estratégia vem sendo aplicada nas montanhas da Califórnia. Pesquisadores testaram banhos com itraconazol diluído, um medicamento antifúngico, em girinos recém-transformados — fase considerada mais vulnerável à doença.

Os resultados apontaram aumento significativo na sobrevivência durante o primeiro inverno, etapa crítica para a consolidação da população. O tratamento não elimina o fungo do ambiente, mas pode ajudar indivíduos a superar o período de maior risco.

A corrida pela resistência natural

Estudos genéticos indicam que algumas populações vêm desenvolvendo resistência natural ao quitrídio. Em regiões onde o fungo circula há mais tempo, certos anfíbios apresentam maior tolerância à infecção.

Pesquisadores também avaliam o papel do comércio internacional de animais na disseminação global do patógeno e defendem maior controle sanitário para conter novos surtos.

Especialistas destacam que as intervenções atuais funcionam como medidas emergenciais. O objetivo de longo prazo é manter populações vivas tempo suficiente para que processos evolutivos aumentem a resistência natural das espécies.

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