Nelson Rodrigues foi mais do que um tarado e reacionário

Rótulos simplistas como esses escondem um homem tão contraditório quanto qualquer mortal

São Paulo - "Querem me chamar de reacionário, chamem. Querem me pichar como reacionário, pichem. Querem me pendurar num galho de árvore como ladrão de cavalo, pendurem.” Em uma exaltada retórica que terminaria obviamente por afirmar o contrário do que sugeria no início – “Realmente, eu sou um libertário” –, Nelson Rodrigues assume, ironicamente, o epíteto que lhe reservaram para o final da vida. Apoiador declarado da ditadura militar brasileira e anticomunista ferrenho, o “reacionário” Nelson provocava arrepios na esquerda.

Mas, durante boa parte de sua vida, quem fazia o sinal da cruz à menção de seu nome eram os que resistiam a uma época de mudanças constantes nos padrões de comportamento e que, por sua vez, lhe cunharam o apelido de “tarado” por causa de suas peças e folhetins recheados de adultérios e incestos. Atacado pelo flanco esquerdo na política e pelo direito na área dos costumes, o tarado de suspensórios, o reacionário amigo do general Emílio Garrastazu Médici, que presidiu o Brasil no auge da tortura, era bastante mais complexo e contraditório do que os rótulos podem cravar.

Longe, por exemplo, do fervor sexual de uma Engraçadinha, a fogosa adolescente capixaba do folhetim Asfalto Selvagem (1960), Nelson Rodrigues conduzia a vida de maneira a estar sempre nos conformes do compêndio da moral e dos bons costumes – em termos rodriguianos, naturalmente, mas de qualquer forma bem longe do que se podia imaginar de um tarado. Com dois casamentos em seu currículo e alguns pares de casos extraconjugais, Nelson era machista com a época em que viveu – ao mesmo tempo que marcava encontros vespertinos com amantes, adulava com flores e bombons a Amélia que o aguardava em casa. E ai de Elza, sua primeira mulher, se ousasse uma roupa mais curta ou pintura no rosto. Enquanto isso, o “tarado” declarava acreditar no amor eterno e lamentava a banalização da nudez pelo biquíni.

Acreditar que sua obra seja uma cartilha de pecados e tabus é também apenas uma leitura rasa dos homens universais que Nelson punha em movimento no subúrbio carioca. Ele mesmo afirma que suas peças são obras morais, que “deveriam ser encenadas na escola primária e nos seminários”, ao que os estudiosos, em uníssono, respondem relativizando qualquer moralidade nos textos, para o bem ou para o mal. “Ao chamar-se de tarados os personagens, arquétipos de Nelson Rodrigues, cai-se no mesmo e profundo ridículo que corresponderia a uma acusação desse tipo feita a Édipo, do Édipo Rei, de Sófocles”, escreveu o psicanalista e escritor Helio Pellegrino em texto do volume Teatro Completo – Nelson Rodrigues.


Matizes

Com a política era diferente. Sua posição era bem clara: ele abominava a ditadura comunista da então União Soviética e de Cuba, ao mesmo tempo que apoiava a ditadura no Brasil, aproximando-se de maneira pessoal dos militares. É famoso o episódio em que Nelson volta de uma partida de futebol a que foi assistir em São Paulo no avião particular do general Médici. Nessa ocasião, relata Ruy Castro, ao questionar o general sobre a existência de tortura no Brasil, ouviu dele um “dou-lhe a minha palavra de honra que não se tortura”. Foi justamente a tortura, no entanto, que abalou sua grande certeza política. Após um período de militância no grupo revolucionário MR-8, seu filho Nelsinho caiu nas mãos da polícia. Ao encontrá-lo pela primeira vez após a prisão, o pai quis saber se Nelsinho havia sido torturado. “Muito”, o rapaz respondeu.

O preto no branco dos rótulos já vinha sendo matizado por um Nelson humanista, que usava de sua proximidade dos militares para libertar jovens de esquerda que caíam prisioneiros do regime. Descobrir a tortura foi o ponto final de uma carreira de defesa do regime, que para ele se igualou à versão comunista da ditadura no que ele mais combatia: a falta de liberdade. “Nelson Rodrigues foi reacionário apenas na medida em que não aceitou a submissão do indivíduo a qualquer regime totalitário”, escreve o estudioso Sábato Magaldi. “Quando a pessoa humana for revalorizada, também desse ponto de vista ele será julgado revolucionário.”

Compatíveis com essa visão humanista são as posições de Nelson a respeito de racismo e homossexualismo. O esperado do “reacionário” seria que ele reforçasse qualquer preconceito? Pois Nelson criou todo um enredo trágico em torno de um beijo gay, em O Beijo no Asfalto. E, irmão do Mário Filho que em 1947 publicou o ensaio interpretativo O Negro no Futebol Brasileiro, depois de celebrizar os craques mulatos em crônicas, escreveu em 1946 a peça Anjo Negro para colocar no centro do palco o racismo velado do país. E brigou – e perdeu – para que o protagonista fosse representado não por um ator branco com o rosto pintado de preto, como era comum na época, mas por um ator negro, Abdias do Nascimento, para quem havia escrito o texto. “Retratando e levando às últimas consequências os estereótipos racistas cultivados pela nossa ‘democracia racial’, Nelson demolia as absurdas pretensões à harmonia racial”, declarou Nascimento.

“Junte o maio de 68 francês, a chegada da pílula, canção popular e festivais, a corrida espacial que foi o auge da Guerra Fria, tudo agravado pelo Golpe de 64. É nesse ambiente que Nelson se apresenta como reacionário”, pondera o escritor e professor de literatura brasileira Luís Augusto Fischer. Em um mundo que avançava cada vez mais rápido, Nelson talvez possa ser mais bem retratado pela definição do artista plástico, escritor e ensaísta Nuno Ramos, que vê na obra do dramaturgo um eterno retorno ao arcaico: Nelson é “como uma má notícia ambulante a assombrar a velocidade do mundo lá fora”.

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