Memória negra de SP ganhará espaço no bairro da Liberdade

O memorial será instalado em um terreno de 441,44 metros quadrados, no qual as ossadas - do século 18 - foram encontradas pela equipe de arqueologia em 2018
O memorial terá a entrada principal pela Rua Galvão Bueno, a principal via turística do bairro, quase frente ao Jardim Oriental da Liberdade. (Commons Wikipedia/Reprodução)
O memorial terá a entrada principal pela Rua Galvão Bueno, a principal via turística do bairro, quase frente ao Jardim Oriental da Liberdade. (Commons Wikipedia/Reprodução)
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Estadão ConteúdoPublicado em 23/11/2022 às 09:36.

Após quatro anos da descoberta arqueológica de nove ossadas em um dos primeiros cemitérios da cidade de São Paulo, uma licitação da Prefeitura selecionará três projetos para servir como base da obra do Memorial dos Aflitos, na Liberdade. O espaço na região central será construído ao lado da Capela de Nossa Senhora dos Aflitos, a fim de marcar a história negra paulistana e do bairro e homenagear os sepultados naquele local.

Segundo a gestão Ricardo Nunes (MDB), a expectativa é de que as obras sejam iniciadas após a aprovação do concurso para a escolha dos projetos, previsto para "meados do segundo semestre de 2023. A inauguração do memorial está no Plano de Metas da Prefeitura, que abrange de 2021 a 2024. O custo total será de cerca de R$ 14,4 milhões, dos quais R$ 10,1 milhões em desapropriação.

O memorial será instalado em um terreno de 441,44 metros quadrados, no qual as ossadas - do século 18 - foram encontradas pela equipe de arqueologia em 2018. Os resquícios arqueológicos serão mantidos no espaço, em uma área de até 4 metros quadrados, com um velário e sem materiais inflamáveis, voltada a homenagens "aos que perderam suas vidas". A obra também vai incluir um espaço multifuncional para reuniões, oficinas, espaço educativo e apresentações, "que poderá contemplar atividades culturais e espaços expositivos (para exposições temporárias e de longa duração), dentre eles o acervo arqueológico", além de outras instalações.

O terreno foi parte do Cemitério dos Aflitos, que funcionou por volta de 1775 a 1858, destinado ao sepultamento de escravizados, criminosos, indigentes, excomungados e condenados à forca. Do espaço, o único remanescente é a capela homônima, de 1779. Hoje, o templo religioso é procurado não apenas por fiéis devotos de Chaguinhas - santo popular negro que teria sido injustamente morto no século 19 -, como também por grupos que atuam pela preservação da memória negra paulistana.

O memorial terá a entrada principal pela Rua Galvão Bueno, a principal via turística do bairro, quase frente ao Jardim Oriental da Liberdade. O outro acesso será pela Rua dos Aflitos, também conhecida como "Beco dos Aflitos", junto à capela. Um dos pré-requisitos do edital é que o projeto melhore o acesso e a visualização do templo católico, hoje escondido pelas construções do entorno e acessível só por uma pequena e estreita rua sem saída.

Segundo relatórios de vistorias, o terreno do memorial hoje está com uma estrutura metálica parcialmente montada, entulho diverso e outros remanescentes de construção. A descoberta ocorreu após uma denúncia pela realização de uma obra irregular sem acompanhamento arqueológico, obrigatório no entorno da capela. Segundo a Prefeitura informou à época, a obra - de um centro comercial - acabou embargada por "desconformidade com o projeto aprovado".

O material arqueológico foi higienizado, catalogado, analisado e depois, armazenado no Centro de Arqueologia de São Paulo, da Prefeitura. Neste ano, uma outra obra na garagem de um imóvel na mesma rua foi multada por ocorrer em área de interesse arqueológico. Uma avaliação técnica apontou que a irregularidade pode ter causado "danos arqueológicos". Os responsáveis não tinham prévia manifestação do Centro de Arqueologia de São Paulo (CASP) e de órgãos de patrimônios para as atividades.

Reparação

Coordenadora do coletivo União dos Amigos da Capela dos Aflitos (Unanca), a artesã Eliz Alves conta que a denúncia que culminou na identificação da ossada ocorreu porque a obra irregular estava abalando o templo religioso vizinho, inclusive com o surgimento de rachaduras. O grupo passou a defender a criação do memorial após a descoberta arqueológica. "Vemos como uma reparação aos nossos ancestrais", descreve.

Eliz argumenta que o memorial será uma forma de salvaguardar a memória negra e indígena da Liberdade, hoje mais conhecida pela colonização japonesa no século 20. A ideia é que amplie os debates e as atividades culturais já cultivados na capela, que recebe apresentações, celebrações inter-religiosas e festas populares, como quermesse e folia de reis. Outro ponto que ela defende é um projeto de reurbanização da Rua dos Aflitos, hoje utilizada basicamente para estacionamento e entrega de mercadorias.

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