Entenda como pandemia mudou o turismo na Ilha de Páscoa

Visitantes retornaram após 28 meses de isolamento; já há preocupação com preservação do local
 (AFP/AFP)
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AFPPublicado em 10/08/2022 às 08:00.

Após viver do frenesi do turismo, apesar dos avisos de precaução de seus ancestrais, a Ilha de Páscoa se tornou mais sustentável durante os mais de dois anos de isolamento devido à pandemia de covid e hoje quer preservar esse aprendizado.

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"Chegou o momento que os mais velhos previam", disse à reportagem Julio Hotus, membro do Conselho de Anciãos da Ilha de Páscoa, um território insular chileno localizado no Pacífico a 3.500 quilômetros do continente.

Eles haviam advertido: mantenham a independência alimentar, porque em algum momento podem ficar isolados. Mas as últimas gerações ignoraram esse conselho, explica Hotus.

Antes do coronavírus, quase 160.000 turistas chegavam a cada ano, em dois voos por dia. Mas em março de 2020 as autoridades locais fecharam completamente esta ilha de quase 8.000 habitantes.

Na quinta-feira passada, após 28 meses de isolamento, um avião com turistas pousou pela primeira vez na ilha, em meio à agitação dos habitantes, que ansiavam por ver novos rostos depois de tanto tempo.

A abertura, no entanto, será gradual. Inicialmente, haverá apenas dois voos por semana. Por hora, com este fluxo de chegadas, os grandes hotéis têm preferido manter as portas fechadas.

Voltar a plantar

Ilha está a 3.500 km ao oeste da costa Chile, no Oceano Pacífico

Ilha está a 3.500 km ao oeste da costa Chile, no Oceano Pacífico (AFP/AFP)

A artesã Olga Ickapakarati deixou de vender seus moais esculpidos em pedra para turistas. Sem renda, voltou-se para a agricultura e a pesca para sobreviver, como faziam seus ancestrais. "Ficamos todos sem nada (...) mas começamos a plantar", contou Olga à reportagem.

Moais são esculturas gigantes de pedra com forma humana. Existem mais de 900 dessas estátuas, esculpidas pelos antigos polinésios rapanuí, na ilha. Elas podem atingir 20 metros de altura e pesar 80 toneladas.

Sem a clientela turística, Olga estabeleceu duas hortas no pátio de sua casa, beneficiando-se de um programa municipal que, antes do fechamento da ilha, entregou sementes à população para que pudessem subsistir.

Olga plantou espinafre, beterraba, coentro, acelga, aipo, manjericão, abacaxi, orégano e tomate. Entregava o que não consumia para outras famílias, que por sua vez também dividiam sua colheita, formando uma grande rede de apoio.

"Vamos seguir com o turismo, mas espero que a pandemia tenha servido como uma lição que possamos aplicar no futuro, disse Julio Hotus.

Moais vulneráveis

Barcos atracados na Ilha de Páscoa

Mudanças climáticas também se tornaram uma preocupação (AFP/AFP)

A pandemia os levou também a pensar sobre a necessidade de cuidar dos recursos naturais afetados pelas mudanças climáticas, como água e energias.

Agora os recursos naturais serão otimizados e será dada prioridade de trabalho aos habitantes da ilha, sob “códigos culturais” como o Tapu, um regulamento ancestral que promove a solidariedade, explicou o prefeito da Ilha de Páscoa, Pedro Edmunds Paoa.

“O turista, a partir de hoje, torna-se amigo do lugar, quando antes era um estranho que nos visitava”, acrescentou. Existem também temores sobre o futuro dos moais, já afetados pelas fortes chuvas, ventos potentes e a fúria das ondas do mar que atingem as estátuas e suas bases.

"O problema dos moais é que são muito frágeis (…) Devemos deixar de lado a visão turística e paisagista e pegar muitas dessas peças e protegê-las, cuidar delas com cúpulas de vidro porque elas têm um valor incalculável", disse Hotus.

Para Vairoa Ika, diretora de Meio Ambiente do município, “as mudanças climáticas, com esses eventos extremos, colocam em risco nosso patrimônio arqueológico”.

"A pedra está se degradando, então os parques vão tomar as providências e protegê-la", explicou sobre essas gigantescas estátuas que representam seus ancestrais rapanuí.

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