EX5: SUV da montadora chinesa Geely (Divulgação/Divulgação)
Colunista
Publicado em 14 de fevereiro de 2026 às 10h04.
Os 516 mil visitantes da 31ª edição do Salão do Automóvel (realizada entre 22 e 30 de novembro) perceberam que o cenário automotivo no Brasil mudou. Estreantes como Jetour, GAC, Avatr, Geely, Leapmotor, Denza, Changan, MG e Omoda Jaecoo demonstraram o protagonismo cada vez maior das marcas chinesas no mercado nacional.
Levantamento da Associação Brasileira dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) aponta que 37,6% dos 498 mil importados emplacados no Brasil em 2025 vieram da China; tradicionais exportadores para o Brasil, México e Mercosul foram superados pela primeira vez.
De acordo com o consultor automotivo Ricardo Bacellar, é preciso voltar para os anos 1990 para entender o fenômeno. “Foi nesta época que observamos o fortalecimento de um viés neoliberal na economia global e uma ‘hiperglobalização’ de cadeias de valor. Grandes centros industriais, como EUA e Europa, permitiram o êxodo de suas plantas, seduzidos pela perspectiva de lucros maiores via economias de escala sem precedentes”, explica.
À época sem representatividade no setor, o primeiro país a perceber essa oportunidade na indústria automotiva foi a Coreia do Sul, que tratou de desenvolver políticas de estado de longa duração.
A projeção sul-coreana no setor automotivo teria servido de exemplo para a China: “Além de todas as benesses oferecidas pela Coreia do Sul, como energia elétrica barata, mão de obra qualificada, regime tributário diferenciado e segurança jurídica, acrescentaram um mercado interno gigantesco que encheu os olhos das montadoras americanas e europeias de cifrões”.
Milad Kalume Neto acrescenta que “a China passou a desenvolver sua indústria na década de 1980, obrigando qualquer montadora ocidental interessada no mercado chinês a explorá-lo por meio de de joint-ventures com empresas locais. Sem qualquer troca tecnológica, os chineses aprenderam o processo de manufatura. Em 2009, a China criou um plano de revitalização da indústria automobilística, estabelecendo as premissas da produção e do desenvolvimento de veículos elétricos”.
O consultor também destaca que decisões industriais e regulatórias, além de políticas públicas e estratégias comerciais, desenvolveram o potencial do setor e diminuíram os custos da base da cadeia produtiva.
Enfrentando barreiras comerciais e culturais na Europa e nos EUA, os chineses encontram no Brasil um mercado suculento.
Desde outubro a empresa monta em Camaçari (BA) os modelos Song Pro e Dolphin Mini no regime SKD, com kits parcialmente desmontados provenientes da China. Líder entre os modelos elétricos e híbridos, seus desafios atualmente são de outra ordem: após ser autuada por submeter trabalhadores chineses a condições análogas à escravidão na planta baiana, a montadora e duas empreiteiras terceirizadas firmaram acordo de R$ 40 milhões com o MPT (Ministério Público do Trabalho).
Pioneiro entre os chineses no Brasil, o Grupo Caoa agora investirá na Changan, que estreia no Brasil com a linha de luxo Avatr. Com até 710 quilômetros de autonomia e 0 a 100 km/h em menos de 4 segundos, o SUV elétrico 11 pode ser reservado (e configurado) pelo site Webmotors por R$ 9.999.
Com esforços concentrados na Changan, o Grupo Caoa renovará a linha de produtos da Chery com atualizações para os modelos Tiggo 5X, Tiggo 7 e Tiggo 8.
Marca de luxo da BYD, estreou por aqui com o imponente SUV híbrido B5, de R$ 436 mil. Promete para o primeiro trimestre a perua elétrica Z9 GT, de R$ 650 mil; na sequência será a vez da D9, minivan de R$ 800 mil.
Depois de consolidar sua operação de caminhões, a Foton está apostando nas picapes Tunland V7 e V9, cujo diferencial está no porte de grande com preço de média – inspiradas visualmente na Ford F-150 e na Ram 1500, custam respectivamente R$ 289,9 mil e R$ 309,9 mil.
Presente em mais de 70 países, desembarcou no por aqui em maio do ano passado com cinco modelos: os elétricos Hyptec HT, Aion V, Aion Y e Aion ES e o híbrido GS4, este com a mira apontada para o Toyota Corolla Cross.
Investirá com a Renault do Brasil – da qual detém 26,4% – R$ 3,8 bilhões no complexo fabril de São José dos Pinhais (PR). O montante será destinado à renovação de um produto existente da marca francesa e para a produção de duas novas plataformas: uma de veículos eletrificados da Geely (GEA), que dará origem a dois modelos da marca chinesa a partir do segundo semestre de 2026 (o SUV médio EX5 EM-i será o primeiro); e uma para um inédito produto da Renault, também eletrificado e previsto para 2027.
Maior empresa automotiva chinesa de capital 100% privado, chegou a 130 concessionárias no País em 2025, ano em que também inaugurou sua fábrica em Iracemápolis (SP), a primeira unidade produtiva da marca nas Américas. Com 1,2 milhão de m² de área total e 94 mil m² de área construída, a planta possui capacidade instalada para produzir 50 mil veículos por ano. Sua gama de produtos é a mais diversificada, indo do compacto elétrico Ora 03, passando pela picape Poer P30 até o SUV de sete lugares Haval H9.
Há tempos uma das primeiras chinesas a operar no Brasil desistiu de renovar sua linha de carros e apostar em vans e caminhões – daí sua oferta de modelos de passeio ser a mais defasada. Seu último lançamento, a picape Hunter, ainda é visão rara nas ruas.
Outra marca do Grupo Chery – sem conexões com a Caoa neste caso – que acaba de estrear no Brasil é a Jetour. Com entregas previstas para março, seus três primeiros modelos são o S06 (R$ 199.990), o T1 (R$ 249,9 mil) e o T2 (R$ 289,9 mil). Todos combinam motor 1.5 turbo e conjunto elétrico do tipo plug-in, com autonomia de até 1.200 km.
Para algumas fabricantes tradicionais, mais lógico do que enfrentar a descomunal capacidade de produção chinesa é se beneficiar dela. É o que fez a Stellantis, que detém 51% da Leapmotor fora da China. Por isso um dos modelos da marca será produzido no Polo Industrial de Goiana (PE), de onde saem atualmente modelos da Jeep, Fiat e Ram. Na última semana, a empresa lançou seu programa de assinatura do C10 híbrido (REEV), com planos de 12, 18, 24 e 36 meses partindo de R$ 5 mil.
Uma das marcas da gigante SAIC – que em 2025 vendeu globalmente mais de 4,5 milhões de carros –, tenta validar sua conexão com a Morris Garages original, de 1924, com o Cyberster, roadster elétrico de R$ 499,8 mil que entrega 510 cavalos de potência e quase 400 km de autonomia. Durante o Salão do Automóvel, anunciou que pretende montar localmente até o fim do ano, quando terá cerca de 70 lojas no País.
Duas recentes movimentações da marca do Grupo Chery demonstram suas ambições no mercado nacional. A primeira foi contratar como vice-presidente executivo Roger Corassa, ex-vice-presidente de Vendas e Marketing da Volkswagen do Brasil. A segunda, escalar o Jaecoo 7 como carro oficial Carnaval do Rio de Janeiro. Com mais de 70 lojas em 24 estados e quatro modelos em oferta, prepara o lançamento de mais três carros ao longo de 2026: Omoda 4, Jaecoo 5 e Jaecoo 8.
Estreou em outubro de 2024 com a perua 001, que chega a R$ 542 mil na versão Flagship. Depois vieram os SUVs X (R$ 338 mil) e 7X (R$ 448 mil).
Fundado em 1997 em Hangzhou, o Geely Auto Group comprou a Volvo da Ford em 2010 e opera no Brasil as marcas Geely e Zeekr. Polestar e Lynk & Co, outras marcas do conglomerado, também estão no planejamento para este ano.
Nas contas de Kalume Neto, entre marcas e submarcas em operação, testando e homologando produtos, há 38 competidores chineses no Brasil. Mas nem todos tem espaço garantido no mercado brasileiro.
“Aquelas com maior poder de investimento e que derem mais atenção ao consumidor brasileiro permanecerão. Não há segredo, quem manda é o mercado: se o consumidor se sentir prejudicado, nunca mais terá uma marca chinesa, e ninguém quer que isso aconteça novamente. A cota de erros dessa indústria já foi batida”, analisa.
“O sucesso de vendas dessas marcas não deixa dúvidas de que o momento atual dos produtos automotivos chineses em nada se parece com a primeira ‘invasão’ ocorrida no final dos anos 2000. Mas, para conquistar de vez a confiança do público, ainda precisam comprovar a qualidade de seus produtos e serviços durante a jornada completa de seus consumidores. E isso passa por uma rede robusta e bem treinada, disponibilidade de peças, agilidade de atendimento, consistência na atualização do portfólio, e por que não, produção local com alto índice de localização”, conclui Bacellar.