O protótipo de molas do Shox, testado ainda nos anos 1980, ilustra o peso e a instabilidade que atrasaram o projeto por dezesseis anos (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 10 de agosto de 2026 às 11h44.
Poucas marcas conseguiram transformar acidentes e contratempos de bastidor em parte do próprio mito comercial como a Nike fez ao longo de suas décadas de história. Muitos dos modelos que hoje ocupam prateleiras, vitrines e coleções particulares em todo o mundo carregam, por trás do sucesso comercial, histórias de quase fracasso, protótipos destruídos, custos que beiravam o absurdo e materiais que simplesmente não funcionavam como o esperado.
Alguns desses tênis levaram anos, e em certos casos décadas, para sair do papel. Outros só chegaram às lojas depois de mudanças de última hora, motivadas por problemas técnicos que ameaçavam inviabilizar o projeto por completo. Confira alguns dos casos mais conhecidos dessa trajetória.
O Waffle Trainer nasceu da fôrma de waffles arruinada por Bill Bowerman em 1974, origem do solado mais reconhecível da Nike (Divulgação)
O Nike Waffle Trainer, lançado em 1974, nasceu de um episódio doméstico que se tornou parte do folclore da marca. Bill Bowerman, cofundador da Nike e treinador de atletismo da Universidade de Oregon, buscava um solado leve e com boa aderência para pistas sintéticas, que na época vinham causando lesões nos corredores da equipe. Durante um café da manhã, reparou no padrão quadriculado da fôrma de waffles da esposa, Barbara, e decidiu testar a ideia despejando poliuretano líquido dentro do aparelho.
O resultado imediato foi a destruição da fôrma, um presente de casamento do casal que datava da década de 1930. O material grudou e selou o equipamento de forma definitiva. Ainda assim, o experimento deu origem ao solado que se tornaria a base de uma das tecnologias mais reconhecíveis da Nike, usada até hoje em diferentes linhas da marca.
O Air Foamposite One trouxe o solado que custou cerca de R$ 3,8 milhões em moldes terceirizados à Daewoo (Divulgação)
Já o Air Foamposite One, apresentado em 1997, quase não saiu do papel por outro motivo, o custo. Para produzir o solado único que integrava cabedal, entressola e solado em uma peça só, a Nike precisou terceirizar a fabricação do molde para a Daewoo, fabricante sul-coreana de automóveis, pagando cerca de 750 mil dólares, hoje equivalentes a aproximadamente R$ 3,8 milhões, apenas pelo equipamento.
O valor elevado, somado à estranheza do design e à resistência inicial de parte da própria equipe, fez o projeto ser visto com desconfiança nos primeiros meses de desenvolvimento. O tênis chegou ao mercado com preço de 180 dólares, hoje próximo de R$ 918, considerado alto para calçados esportivos em 1997. Tornou-se, ainda assim, um dos modelos mais cultuados da marca, a ponto de a Nike destruir os moldes originais anos depois, por acreditar que não haveria demanda para relançamentos, decisão da qual voltou atrás pouco tempo depois.
O Air Max 1 original, de 1987, ganhou janela reduzida na entressola após rachaduras nos protótipos com bolha maior (Divulgação)
O Air Max 1, de 1987, também passou por um susto antes do lançamento oficial. O design inicial de Tinker Hatfield previa uma janela ampla no calcanhar, mostrando quase toda a câmara de ar. Os primeiros protótipos, no entanto, apresentaram rachaduras e estouros quando expostos a baixas temperaturas, um problema sério para vitrines refrigeradas e mercados mais frios.
A equipe de desenvolvimento precisou reduzir o tamanho da janela e tornar a estrutura mais estável, o que resultou no desenho que se tornou o clássico conhecido hoje. O modelo final foi fabricado entre setembro e outubro daquele ano e chegou às lojas pouco depois, já sem os problemas apresentados pelos protótipos anteriores.
O Shox R4, lançado em 2000, chegou às lojas só depois de a Nike abandonar o aço em favor das colunas de espuma (Divulgação)
O caso do Nike Shox é talvez o mais longo dessa lista. A ideia de um sistema de amortecimento mecânico surgiu em 1984, pelas mãos de Bruce Kilgore, o mesmo designer responsável pelo Air Force 1. Os primeiros testes usaram molas de aço no solado, inspiradas em suspensões automotivas, mas o resultado era pesado e instável demais para uso em corrida.
Ao longo da década seguinte, a equipe testou diferentes configurações de molas e dobradiças sem conseguir viabilizar comercialmente a tecnologia. Somente no fim dos anos 1990 surgiu a solução com colunas de espuma, mais leve e estável, que resultou no lançamento do Shox R4 em 2000, dezesseis anos depois da concepção original do projeto.
O Air Presto, com sua malha elástica batizada de spacer mesh, foi visto como radical demais antes de conquistar o público japonês (Divulgação)
O Air Presto, também de 2000, seguiu um caminho parecido. Desenvolvido pelo engenheiro Tobie Hatfield a partir de 1996, o projeto buscava um tênis com a sensação de uma meia, sem os elementos estruturais tradicionais de um calçado esportivo. A escolha final por uma malha elástica, batizada de spacer mesh, e por uma numeração inspirada em tamanhos de camiseta, do 3XS ao 3XL, tornou o modelo um dos mais incomuns já lançados pela marca até aquele momento.
A estranheza do formato e da proposta gerou dúvidas internas sobre a aceitação do público, mas o tênis acabou conquistando espaço primeiro entre consumidores japoneses e, na sequência, em outros mercados. O modelo se consolidou como um dos símbolos da Alpha Project, iniciativa da Nike voltada a experimentações de design lançada no fim dos anos 1990.