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A oração budista que virou hino nos estádios do mundo inteiro

Trinta anos depois de nascer como um hit italiano sobre desapego, "Freed From Desire" hoje ecoa em estádios, protestos e festivais ao redor do mundo

"Freed From Desire", hino que nasceu como reflexão budista e hoje une estádios, protestos e festivais ao redor do mundo (Ulises RUIZ/AFP)

"Freed From Desire", hino que nasceu como reflexão budista e hoje une estádios, protestos e festivais ao redor do mundo (Ulises RUIZ/AFP)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 8 de julho de 2026 às 06h31.

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Do Canadá ao México, nos estádios da Copa do Mundo, torcedores de diferentes seleções cantam, em coro, o refrão de uma música que fala sobre libertar-se do desejo material. Poucos sabiam que aquele hino de comemoração, reconhecível pela vocalização repetida em 'nanana', nasceu como uma reflexão budista, escrita por uma cantora italiana chamada Gala Rizzatto em 1996. A canção se chama Freed From Desire.

Rizzatto nasceu em Milão em 1975 e saiu de casa aos 17 anos para estudar na Tisch School of the Arts, da Universidade de Nova York. Na cidade, testemunhou de perto o contraste entre riqueza e pobreza e enfrentou um problema na coluna que colocou em risco seu sonho de virar dançarina. Foi também na cidade americana que se apaixonou por um bailarino do National Ballet do Senegal, relacionamento que atravessaria a letra da música que ela escreveria pouco tempo depois.

Uma oração dentro de um hit eurodance

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De volta à Itália, ela transformou essas experiências em uma faixa eletrônica construída sobre um riff repetitivo e um refrão que vira mantra. "A canção é uma oração budista", afirmou Rizzatto anos depois, em entrevista. Os clubes onde a música tocava funcionavam, para ela, como uma espécie de igreja pessoal.

O hook tem exatamente 200 "nas" espalhados pelos 3 minutos e 34 segundos da faixa. Lançada em 1996 como primeiro single do álbum Come Into My Life, Freed From Desire chegou ao topo das paradas na França e na Bélgica, ficou em segundo lugar no Reino Unido e recebeu certificação tripla platina britânica.

De Wigan ao mundo

O salto da pista de dança para a arquibancada aconteceu em 2016, quando torcedores do Wigan Athletic, clube inglês da segunda divisão, trocaram a letra para homenagear o atacante Will Grigg. O coro viralizou em poucos dias e chegou à Eurocopa daquele ano, cantado pela torcida da Irlanda do Norte, mesmo com o jogador praticamente sem entrar em campo.

Dali em diante, a canção virou item fixo do repertório das arquibancadas. Tocou como música de gol das seleções da Inglaterra, França, Suíça e Polônia na Copa do Mundo de 2022, e voltou a ecoar na cerimônia de encerramento das Olimpíadas de Paris, em 2024, ao lado de We Are the Champions.

Símbolo de protesto

A canção também migrou para as ruas. Em novembro de 2024, o teto de uma estação ferroviária desabou na cidade de Novi Sad, na Sérvia, matando 16 pessoas. O acidente deu origem a um ciclo de protestos estudantis contra corrupção que se estendeu por meses. Em julho de 2025, Rizzatto abriu a edição daquele ano do festival Exit, na cidade sérvia, com 16 minutos de silêncio em homenagem às vítimas antes de cantar "Freed From Desire" ao lado dos estudantes que lideravam os protestos.

A faixa também apareceu em greves de professores no Reino Unido e em marchas de mulheres, quase três décadas depois de ter sido escrita como uma reflexão sobre desigualdade social. "Foi emocionante ver que o retorno da música veio das pessoas, cantando em estádios, protestos e festas", disse Rizzatto à revista Mixmag, em 2024.

A briga pelos direitos

Rizzatto passou anos recebendo pouco em royalties por causa de um contrato assinado no início da carreira. Em 2024, ela regravou "Freed From Desire" para tentar reaver parte dos direitos sobre a própria música, movimento parecido com o que Taylor Swift fez com seu catálogo antigo.

A faixa também ganhou versões de outros artistas ao longo dos anos, entre eles a dupla belga Oscar and the Wolf, que gravou uma balada a partir do refrão original, e o produtor Diplo, que assinou um remix eletrônico da canção quase três décadas após seu lançamento.

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