Fábrica de carros elétricos da GAC na cidade de Guangzhou, China. No Brasil serão vendidos cerca de 20 mil veículos este ano (Leandro Fonseca /Exame)
Repórter
Publicado em 3 de novembro de 2026 às 06h01.
A montadora chinesa GAC já tem data para começar a produzir carros no Brasil. A partir de janeiro de 2027, a companhia pretende iniciar a fabricação de seus primeiros veículos nacionais na planta da HPE, em Catalão, Goiás, onde também são produzidos automóveis da Mitsubishi.
A novidade faz parte de uma estratégia mais ampla da fabricante, que prevê US$ 1,3 bilhão em investimentos no Brasil até 2030, novos lançamentos e uma expansão acelerada da rede de concessionárias.
Em entrevista exclusiva à EXAME, Gustavo Schmidt, novo diretor comercial (CCO) da GAC no Brasil, confirma que a companhia está finalizando os últimos detalhes operacionais e logísticos para iniciar a produção nacional.
"Janeiro de 2027 a gente começa a produção na planta da HPE em Catalão", afirma Schmidt.
O executivo, que assumiu o cargo em agosto após passagens por Volkswagen, Fiat e Renault, terá a missão de acelerar a presença comercial da marca no país.
A meta é ambiciosa: sair de aproximadamente 20 mil veículos vendidos em 2026 para 50 mil unidades em 2027, um crescimento projetado de 150%.
A companhia também pretende ampliar sua rede de aproximadamente 60 pontos de venda para 100 até dezembro deste ano e chegar perto de 150 unidades até o fim de 2027.
"O objetivo é fazer com que o Brasil se torne, já no próximo ano, a maior operação comercial da GAC fora da China", diz o CCO.
Gustavo Schmidt, novo diretor comercial (CCO) da GAC no Brasil: “O objetivo é fazer com que o Brasil se torne, já no próximo ano, a maior operação comercial da GAC fora da China” (GAC/Divulgação)
A produção nacional começará com um modelo que já faz parte do portfólio comercializado pela montadora no país.
Atualmente, todos os veículos da GAC vendidos no Brasil são importados da China e chegam pelo Porto de Vitória, no Espírito Santo.
O primeiro passo, segundo Schmidt, será nacionalizar um desses modelos. Em seguida, a companhia pretende iniciar a fabricação de um segundo veículo, ainda inédito no mercado brasileiro.
O executivo não revelou quais serão os automóveis escolhidos, mas confirmou que a estratégia é ampliar gradualmente a produção local e reduzir a dependência das importações.
"Primeiro vamos trazer um dos modelos que hoje importamos prontos para ser produzido em Catalão. Depois, teremos um carro novo que também será produzido na planta", afirma.
A estratégia vai além dos primeiros lançamentos.
Até 2035, a GAC pretende produzir no Brasil a maior parte dos veículos responsáveis pelo volume de vendas da marca, mantendo as importações principalmente para modelos de nicho e automóveis premium.
A nacionalização também poderá ajudar a reduzir os custos de produção e tornar os preços mais competitivos.
Schmidt, porém, ressalta que esse benefício não será imediato, já que a formação de uma cadeia de fornecedores nacionais depende de escala e investimentos.
"A ideia é termos carros com custo menor. Se temos um carro com custo menor, conseguimos posicioná-lo com mais agressividade no mercado", diz.
O executivo também aponta a reforma tributária como um fator de incerteza para a definição dos custos e preços dos veículos nos próximos anos.
O plano de investimento de US$ 1,3 bilhão da GAC no Brasil até 2030 será direcionado principalmente à produção nacional e ao lançamento de novos produtos.
Os recursos também contemplam pesquisa e desenvolvimento, estruturação do pós-venda, treinamento de profissionais e ampliação dos estoques de peças.
Uma das novidades é a intenção de criar um centro de pesquisa e desenvolvimento (P&D) no Brasil, embora a companhia ainda não tenha divulgado prazo ou valor específico para o projeto.
Na área comercial, a expansão será acelerada.
A montadora pretende encerrar 2026 com 100 pontos de venda e alcançar aproximadamente 150 até o fim de 2027.
O crescimento também deverá levar a marca a regiões onde ainda possui presença limitada, especialmente no Norte do país.
"Queremos ter, provavelmente até o primeiro trimestre de 2027, pelo menos um ponto de venda GAC em todas as capitais do Brasil", afirma Schmidt.
Além das capitais, a fabricante pretende avançar para cidades do interior, principalmente municípios com mais de 200 mil habitantes.
A estratégia busca aproximar a cobertura geográfica da GAC daquela oferecida por fabricantes mais tradicionais no mercado brasileiro.
Montadora da GAC Group na cidade de Guangzhou, China (Leandro Fonseca /Exame)
A nacionalização dos veículos também abre caminho para uma nova etapa da operação brasileira: as exportações.
A prioridade inicial, segundo Schmidt, será consolidar a marca no mercado doméstico, mas a companhia já considera utilizar o Brasil como uma plataforma de produção para outros países da América Latina.
Entre os mercados citados pelo executivo estão Argentina, Chile e Colômbia.
O México também aparece como uma possibilidade, embora o cenário comercial com os Estados Unidos torne essa alternativa mais complexa no momento.
"Sem sombra de dúvida, passa pela estratégia da companhia de industrialização vislumbrar mercados de exportação", afirma o CCO.
A ampliação da produção local e a possibilidade de exportar fazem parte de uma estratégia para ganhar escala e atrair fornecedores nacionais.
Para Schmidt, alcançar volumes próximos de 100 mil veículos anuais no médio prazo seria um passo importante para sustentar uma cadeia produtiva local e fortalecer a rentabilidade da operação.
Veja também: Empresa chinesa que atraiu US$ 2,2 bilhões do Alibaba chega ao Brasil
A chegada de novas fabricantes chinesas ao Brasil também trouxe uma preocupação para os consumidores: a disponibilidade de peças de reposição e a estrutura de assistência técnica.
Para enfrentar esse desafio, a GAC está ampliando os investimentos no centro de distribuição de peças localizado em Cajamar, na Grande São Paulo.
Atualmente, o estoque reúne aproximadamente 5.500 itens, segundo Schmidt.
A companhia afirma conseguir atender 93% dos pedidos de peças das concessionárias na primeira separação do estoque, indicador conhecido no setor como first picking (ou primeira seleção).
A meta é aproximar esse percentual dos níveis de fabricantes mais estabelecidas, que, segundo o executivo, podem alcançar entre 95% e 97%.
Quando determinada peça não está disponível no Brasil, a empresa também recorre a importações emergenciais da China, inclusive por transporte aéreo.
"Se no limite eu precisar trazer uma peça voando da China para o Brasil, a gente autoriza a fazer", afirma.
O executivo diz que colocou o pós-venda entre as prioridades de sua gestão e realiza reuniões semanais para acompanhar a disponibilidade de peças e a qualidade do atendimento.
A expansão das concessionárias também deverá ampliar a capacidade de assistência técnica da marca.
"Por enquanto, não prevemos a abertura de um segundo centro de distribuição, mas consideramos ampliar a estrutura de Cajamar conforme o crescimento das vendas", afirma o executivo.
Sede da Montadora da GAC Group, na China (Leandro Fonseca /Exame)
À frente da estratégia comercial da GAC, Schmidt reúne uma trajetória de quase quatro décadas no setor automotivo. O executivo começou a carreira em 1988, na Volkswagen, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Passou pela Fiat, retornou à Volkswagen e, em 2010, assumiu sua primeira posição como vice-presidente, na Renault.
Em 2017, voltou à Volkswagen, onde permaneceu até 2021, quando decidiu empreender e abrir uma consultoria especializada no setor automotivo.
Em agosto de 2026, recebeu o convite para assumir a direção comercial da GAC.
Segundo ele, três fatores pesaram na decisão:
"Quando você pega uma montadora tradicional, as coisas já estão mais ou menos todas estabelecidas. Aqui, poder ter a oportunidade de desenhar praticamente do zero toda uma operação é uma coisa bem bacana", afirma.
Schmidt também atua próximo à presidência brasileira da companhia, contribuindo com sua experiência no mercado nacional, especialmente em temas como incentivos fiscais, estratégia de produtos e estruturação comercial.
O desafio será transformar o crescimento inicial da GAC em uma operação sustentável, em um mercado cada vez mais disputado por fabricantes chinesas como as concorrentes GWM e BYD.
Veja também: Por que a China está priorizando contratar profissionais da geração Z?
Apesar dos planos de expansão, Schmidt avalia que o mercado automotivo brasileiro deverá enfrentar um cenário mais desafiador em 2027.
Entre os principais fatores estão a transição da reforma tributária, os juros elevados e as restrições na concessão de crédito para financiamento de veículos.
Na avaliação do executivo, o mercado brasileiro deverá apresentar um crescimento mais modesto no próximo ano, depois de um desempenho que ele considera forte em 2026.
"Não vejo ruptura e vejo um crescimento modesto para 2027", afirma.
Para Schmidt, a redução dos juros será fundamental para estimular o financiamento e sustentar uma nova fase de crescimento do setor.
Mesmo diante dessas incertezas, a GAC pretende acelerar sua presença no Brasil.
Com a produção nacional prevista para janeiro, novos lançamentos e uma meta de vendas 150% superior à projetada para 2026, a fabricante aposta no país como um dos principais motores de sua expansão internacional.
Veja também: Como negociar na China: por que o ‘guanxi’ pode definir o sucesso dos contratos brasileiros