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A mulher à frente da gigante dos vinhos orgânicos

A espanhola Noelia Orts se consolidou como um dos principais nomes da enologia sustentável

Noelia Orts: um dos principais nomes da enologia sustentável (Divulgação/Divulgação)

Noelia Orts: um dos principais nomes da enologia sustentável (Divulgação/Divulgação)

Júlia Storch
Júlia Storch

Repórter de Casual

Publicado em 17 de março de 2026 às 13h50.

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À frente de uma das maiores vinícolas orgânicas do mundo, a chilena Viña Emiliana, a espanhola Noelia Orts se consolidou como um dos principais nomes da enologia sustentável. Desde 2011 na companhia, Orts lidera a produção de rótulos orgânicos e biodinâmicos premium. Sob sua gestão, a Emiliana se tornou referência em agricultura sustentável.

O trabalho rendeu reconhecimentos como Enóloga do Ano no Guia Descorchados 2025 e Melhor Vinho do Chile para o Gê, segundo James Suckling. Noelia também atua em pesquisas sobre biodiversidade microbiana e mudanças climáticas e já representou o Chile no Biodynamic Federation International Group.

Em conversa com EXAME Casual, a enóloga fala sobre sua trjetória à frente da vinívola e o mercado de vinhos orgânicos.

Como foi sua trajetória até se tornar enóloga-chefe da maior vinícola orgânica do mundo?

Estudei enologia na Espanha e depois comecei a fazer vindimas em diferentes vinícolas. Quando trabalhei em uma chamada Recaredo, uma casa de cava que já atuava de forma orgânica e biodinâmica, senti que havia algo diferente ali — não era como os outros lugares onde eu havia trabalhado. Passei também pela Miguel Torres, trabalhei na Nova Zelândia e na França, até finalmente chegar ao Chile. Inicialmente fiz uma vindima em outra vinícola, que não era a Emiliana, mas fui chamada pela Emiliana quando estavam procurando um enólogo. Entrei como assistente e permaneci alguns anos nessa função, muito guiada pelo enólogo Álvaro Espinosa. Pouco a pouco fui recebendo mais responsabilidades e oportunidades, e o cargo foi evoluindo até chegar à posição que ocupo hoje.

O setor vitivinícola ainda é majoritariamente masculino em cargos técnicos e executivos. Que barreiras estruturais você teve que superar?

É verdade que o mundo do vinho é bastante masculino à primeira vista. Mas existem muitas mulheres trabalhando no setor — o que acontece é que nem sempre são as figuras mais visíveis. Há exceções, claro, e hoje vemos cada vez mais mulheres, embora ainda em menor número nas posições de maior responsabilidade. Quando falamos de barreiras estruturais, acredito que uma das principais seja a conciliação com a vida familiar. Este é um trabalho muito exigente, especialmente durante a vindima, quando as jornadas são intermináveis. Há também muitas viagens e a necessidade de sair para promover e vender os vinhos. Conciliar tudo isso com a vida familiar pode ser complexo. Se você não tem um parceiro que apoie essa rotina, torna-se muito mais difícil assumir um cargo como o de enóloga-chefe.

O que mudou no papel das mulheres no mundo do vinho na última década?

Não sinto que o mundo do vinho tenha mudado profundamente nesse aspecto. O que mudou é que hoje há mais mulheres visíveis, que se tornaram o rosto de vinhedos e projetos. Existem muitas enólogas excelentes — no Chile, por exemplo, há várias que se destacam. Mas, no geral, ainda não houve uma transformação estrutural tão grande. Há pequenos movimentos em alguns países, como na Espanha, onde surgem profissionais como Verónica Ortega, que vêm fazendo um trabalho muito interessante. Ainda assim, a mudança tem sido gradual.

Como a sustentabilidade deixou de ser um diferencial para se tornar o centro da estratégia da Emiliana?

O foco em sustentabilidade na Emiliana começou com José Guilisasti, fundador da vinícola. Ele percebeu muito cedo que o uso de pesticidas e herbicidas era prejudicial à saúde e ao ambiente, antes mesmo de muitos estudos confirmarem isso. A partir dessa visão, decidiu orientar o projeto da vinícola para a agricultura orgânica, biodinâmica e regenerativa. Esse caminho foi nos conduzindo naturalmente ao universo da sustentabilidade, que hoje é o eixo central da Emiliana.

O consumidor de vinhos premium realmente valoriza a sustentabilidade ou ainda prioriza apenas marca e pontuações?

Na minha opinião, o consumidor de vinhos premium prioriza primeiro a marca, depois as pontuações e, em terceiro lugar, a sustentabilidade. Esse seria o ordenamento mais comum. Se um vinho é muito bom, tem uma marca forte e ainda é orgânico ou sustentável, isso funciona como um “double check”, um ponto extra muito positivo. Mas, em geral, não é o primeiro fator que o consumidor busca ao escolher um vinho premium.Ao mesmo tempo, vemos cada vez mais vinícolas clássicas e de grande prestígio adotando agricultura orgânica e biodinâmica. Isso acontece porque esses métodos ajudam a manter vinhedos mais saudáveis e longevos.

Como a vinícola se prepara para os desafios climáticos que já afetam o terroir chileno?

As mudanças climáticas são um grande desafio. Na Emiliana, por exemplo, mudamos a forma de irrigação. Tentamos evitar que as vinhas sofram estresse, mantendo-as o mais equilibradas possível e com suas necessidades atendidas. Antigamente, removíamos folhas para que os cachos recebessem mais insolação. Hoje já não fazemos isso. Mantemos os cachos parcialmente protegidos pelas folhas para evitar o excesso de radiação solar. Também utilizamos corredores biológicos e cultivos de cobertura em todos os vinhedos. Essas práticas ajudam a maximizar a absorção da água da chuva, evitando erosão e escorrimento. Durante o verão, essa cobertura vegetal funciona como uma espécie de proteção que mantém o solo mais fresco. Em alguns vinhedos também utilizamos porta-enxertos mais resistentes à seca ou com raízes mais profundas. E o uso da água é extremamente controlado: utilizamos sondas de umidade e instrumentos para medir o estado hídrico da planta, o que nos ajuda a tomar decisões precisas de irrigação.

Como você define o perfil do consumidor das etiquetas premium da Emiliana?

O consumidor dos vinhos premium da Emiliana é bastante transversal em termos de idade. Temos consumidores mais jovens e também mais maduros. O que caracteriza esse público é o fato de ser um consumidor conhecedor de vinho. Ele busca qualidade e confia que a Emiliana sempre entregará um produto consistente. Além disso, há também o valor agregado da produção orgânica. Quem escolhe um vinho premium da Emiliana sabe que por trás dele existe uma agricultura responsável e uma vinificação muito respeitosa, baseada em mínima intervenção.

Que legado você gostaria de deixar no mercado global do vinho?

Essa é uma pergunta difícil. Eu simplesmente trabalho com algo que amo e que me faz feliz. Se penso em legado, gostaria de acreditar que posso contribuir, ainda que com um pequeno grão de areia, para um mundo ambientalmente mais consciente. Que meu filho possa aprender, através desse trabalho, a respeitar a natureza e entender que precisamos cuidar do planeta. E, agora no mês da mulher, algo que me faz muito feliz é imaginar que jovens mulheres possam se inspirar ao me ver trabalhando, viajando e ocupando esse espaço — e que percebam que somos capazes de chegar onde quisermos.

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