A população universitária global saltou de 100 milhões, em 2000, para cerca de 264 milhões em 2024, segundo a Unesco (sengchoy/Getty Images)
Repórter
Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 16h53.
Chega o momento decisivo do ano: resultados do Enem, abertura do Sisu, processos seletivos nas universidades particulares — e milhares de jovens brasileiros diante da mesma pergunta: para onde ir agora? A escolha do curso e da instituição volta ao centro das decisões familiares, mas, junto com ela, surge uma questão maior: o que o brasileiro espera da universidade hoje?
As universidades nunca tiveram tantos alunos nem foram tão centrais para o desenvolvimento econômico e social — e, ao mesmo tempo, nunca foram tão questionadas. O ensino superior vive uma fase de expansão, mas também de crise de sentido: mais acesso, mais pressão, mais dúvidas sobre seu papel em um mundo em rápida transformação.
A população universitária global saltou de 100 milhões, em 2000, para cerca de 264 milhões em 2024, segundo a Unesco. Ao mesmo tempo, o ritmo de conclusão começa a desacelerar. Desde 2021, a taxa média de formatura nos países da OCDE cresce apenas 0,3 ponto percentual ao ano, bem abaixo do avanço de 1 ponto registrado nas duas décadas anteriores. O acesso aumentou, mas a conclusão não acompanhou o mesmo fôlego — revelando desigualdades persistentes e novas tensões que afetam a credibilidade do ensino superior.
A taxa global de matrícula no ensino superior, segundo a Unesco, é de 40%, mas despenca para apenas 9% nos países de baixa renda.
“O acesso a um ensino superior inclusivo, equitativo e resiliente não deveria ser um privilégio de poucos, mas um direito de todos – mesmo em tempos de crise”, afirma Stefania Giannini, diretora-geral adjunta de Educação da Unesco.
Além das barreiras estruturais, há uma crise de imagem. No pós-pandemia, com a explosão do ensino a distância, jovens passaram a questionar se o investimento em uma graduação ainda compensa — diante do alto custo de vida, do endividamento estudantil e dos debates sobre liberdade de pensamento no ambiente universitário.
Paralelamente, a ascensão de caminhos alternativos de mobilidade social, como carreiras rápidas no digital, também mudou referências de sucesso. Se os novos ídolos são influencers que constroem fortuna com um smartphone, o diploma ainda faz sentido?
O cenário é agravado por tensões geopolíticas. Em um mundo mais fragmentado, universidades — especialmente nos Estados Unidos — têm sofrido pressões políticas, cortes de verba e tentativas de restringir temas como diversidade, clima e saúde pública. A migração internacional de estudantes, essencial para a troca de ideias e formação de redes globais, também enfrenta novas barreiras.
Para Lucas de Souza Martins, pesquisador da Temple University, o papel da universidade também mudou.
“Quando assuntos como mudanças climáticas, diversidade ou saúde pública se tornam alvos de disputas políticas, a universidade é pressionada a adotar uma postura mais ativa na proteção da ciência. Nesses contextos, ela deixa de ser somente um ambiente de produção de saber e passa a ter de comunicar e justificar à população por que esse conhecimento é essencial.”
Apesar das críticas, pesquisas recentes reforçam o valor do ensino superior. Um estudo da Universidade de Stanford, que analisou mais de 2.000 fundadores de startups nos EUA, mostrou que apenas 4% dos criadores de unicórnios abandonaram a faculdade — bem abaixo da taxa média de evasão do país, de 36%.
Um levantamento da McKinsey & Company vai na mesma direção: mais de 95% dos fundadores dos 100 principais unicórnios avaliados concluíram o ensino superior, e mais de 70% avançaram para pós-graduações, como mestrado, MBA e doutorado.
O valor das universidades persiste na sociedade e ganha novas formas com o passar do tempo. Criadas na Europa medieval para formar líderes, impulsionar a ciência e moldar sociedades, as faculdades mantêm esse papel no século XXI. Os líderes das próximas transformações provavelmente estão hoje nas salas de aula.
Veja também: Um olhar para o futuro: os desafios e avanços do ensino superior no Brasil
No Brasil, o peso do diploma é ainda maior. Segundo a OCDE, brasileiros de 25 a 64 anos com ensino superior ganham, em média, 148% a mais do que quem tem apenas o ensino médio — quase três vezes a média dos países-membros (54%).
O país já soma mais de 10 milhões de estudantes universitários (2024), mas a taxa de conclusão avança lentamente: apenas 20,5% dos brasileiros com 25 anos ou mais têm diploma, segundo a PNAD. Em duas décadas, a proporção de adultos com ensino superior completo passou de 6,8% para 18,4% — um salto importante, mas ainda insuficiente para um país que pretende transformar educação em mobilidade social, segundo Jefferson Mariano, analista socioeconômico do IBGE.
“O crescimento é real, mas lento. Isso indica que temos um espaço enorme para ampliar o acesso e, principalmente, para garantir que quem entra consiga concluir o curso”, diz Mariano.
Há ainda um forte descompasso entre formação e demandas do mercado. Dados do Censo 2022 mostram que 46% dos diplomas estão concentrados em Administração, Direito e Educação. As engenharias representam apenas 3,9%. Na tecnologia, o déficit é crítico: o país forma cerca de 53 mil profissionais por ano, enquanto a demanda estimada pela Brasscom é de 159 mil. Entre 2015 e 2023, o número de matriculados em engenharia caiu 25%, segundo o Confea.
É nesse contexto que entra a pesquisa inédita EXAME/Na Prática, da instituição filantrópica ligada ao BTG Pactual. O levantamento ouviu 251 universitários e revela um dado central: os jovens não rejeitam o ensino superior — eles querem que ele se transforme.
Para 63%, a universidade segue importante, mas precisa ser complementada por experiências práticas, como estágios, projetos aplicados e vivências extracurriculares. Outros 27% veem a formação superior como essencial e insubstituível. Apenas uma minoria acredita que o diploma pode ser substituído por outros caminhos (6%), que se aprende mais fora da sala de aula (3%) ou que o ensino superior é apenas uma formalidade (1%).
A relação com a inteligência artificial também é menos defensiva do que o discurso do medo costuma sugerir. Para 29%, a IA será muito positiva, criando oportunidades e facilitando o trabalho. Para 53%, ela ajudará, mas exigirá adaptação e aprendizado constante. Apenas 3% veem a tecnologia como algo negativo.
Na prática, a IA já faz parte da rotina: 50% dos universitários dizem usá-la diariamente para estudar, analisar dados, programar ou estruturar projetos; 25% usam com frequência; apenas 4% não utilizam.
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A transformação do ensino superior é inevitável e passa por mudar o papel do aluno, segundo Sofia Esteves, fundadora da Cia de Talentos.
“A grande maioria ainda deixa o aluno num papel passivo, recebendo conteúdo. E o mercado exige co-criação, resolução de problemas e visão de mundo.”
Na mesma linha defende José Claudio Securato, fundador e CEO da Escola de Negócios Saint Paul.
“As universidades precisam abandonar a aprendizagem passiva e migrar para metodologias ativas, que envolvem o aluno em desafios reais, com projetos aplicados e resolução de problemas.”
Para Esteves, o modelo tradicional está esgotado, uma vez que a sala de aula precisa deixar de ser depósito de conteúdo.
“O diferencial do futuro está em quem sabe colocar a teoria em prática.”
Liderança hoje, segundo Securato, começa pela autoliderança, depois evolui para liderar outras pessoas e, por fim, liderar negócios. “Mesmo quem segue carreira acadêmica precisa dessas competências para ampliar a qualidade das pesquisas, fortalecer a produção científica e gerar impacto social.”