Em 2025, mais de meio milhão de licenças foram concedidas por transtornos mentais, estabelecendo um novo recorde no Brasil (Malte Mueller/Getty Images)
Repórter
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 12h19.
Última atualização em 27 de janeiro de 2026 às 12h27.
O avanço dos transtornos mentais no mundo do trabalho já se reflete diretamente nos indicadores nacionais. Em 2025, mais de meio milhão de licenças foram concedidas por transtornos mentais, estabelecendo um novo recorde no país. Ao todo, o Brasil registrou cerca de 4 milhões de licenças do trabalho no ano, ampliando o peso da saúde mental no total de afastamentos, segundo dados divulgados pelo G1 do Ministério da Previdência Social.
É nesse contexto que uma pesquisa nacional realizada pela Heach Recursos Humanos, entre 6 e 22 de janeiro de 2026, com 1.730 empresas brasileiras, revela um cenário preocupante diante das mudanças trazidas pela nova NR-1, que passa a exigir das organizações uma abordagem mais estruturada sobre riscos psicossociais, saúde mental, preparo da liderança e governança na gestão de pessoas.
De acordo com o levantamento:
Para Elcio Paulo Teixeira, CEO da Heach Recursos Humanos, a atualização da norma apenas escancara um problema estrutural já existente.
“A nova NR-1 não cria um problema novo. Ela apenas torna visível um risco que as empresas brasileiras vêm ignorando há anos. O discurso sobre saúde mental avançou, mas a estrutura para lidar com isso não acompanhou”, afirma.
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A pesquisa aponta que a liderança ocupa papel central nesse cenário de vulnerabilidade organizacional. Segundo o estudo, 67% dos líderes nunca passaram por avaliação comportamental ou psicológica estruturada, e 54% não receberam treinamento para lidar com conflitos, pressão emocional ou situações críticas. Para 49% dos profissionais de RH ouvidos, o comportamento da liderança é hoje o principal fator de adoecimento emocional das equipes.
“Não é possível falar em cultura saudável quando quem lidera não está preparado emocionalmente para liderar pessoas. A norma coloca luz exatamente sobre essa incoerência”, reforça Elcio.
O levantamento também evidencia um descompasso entre o discurso institucional e a prática. Embora 78% das empresas afirmem se preocupar com saúde mental, apenas 23% possuem políticas formais, orçamento dedicado e indicadores claros. Em 64% dos casos, o tema ainda é tratado de forma pontual, por meio de ações isoladas ou benefícios desconectados da estratégia organizacional.
Os impactos desse despreparo já aparecem nos indicadores operacionais. 61% das empresas não sabem calcular o custo real do turnover, e 44% perdem talentos por fatores ligados a clima organizacional e liderança, e não por remuneração. Além disso, 52% admitem manter profissionais com comportamento tóxico por receio de perda de resultados de curto prazo, ampliando riscos trabalhistas, financeiros e de saúde coletiva.
Para o CEO da Heach, o momento exige mudança de postura.
“Fica claro que não se trata mais de boa vontade, narrativa institucional ou discurso de ESG. Trata-se de responsabilidade legal, risco financeiro e impacto humano. As empresas que não se prepararem agora estarão expostas”, diz.
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A pesquisa também reforça o fenômeno dos profissionais invisíveis. 39% dos trabalhadores se sentem pouco ou nada reconhecidos, e 48% afirmam assumir responsabilidades acima do cargo sem contrapartida, cenário que eleva significativamente o risco de desligamentos e afastamentos.
Segundo o estudo, organizações com altos índices de invisibilidade apresentam até o dobro de turnover em relação à média do mercado.
“Ignorar pessoas sempre teve custo. A diferença é que agora a norma obriga as empresas a enxergarem isso de forma objetiva e mensurável”, diz Teixeira.
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