Josée Perreault, diretora global de marketing da BRP: “Minha missão é transformar consumidores em fãs” (BRP / Sea Doo/Divulgação)
Repórter
Publicado em 9 de março de 2026 às 10h43.
Última atualização em 9 de março de 2026 às 10h58.
Em Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, 70 mulheres se reuniram neste fim de semana para experimentar motos aquáticas da Sea-Doo, marca que pertence ao grupo BRP (Bombardier Recreational Products). O encontro faz parte do Sea-Doo Social Club, uma das iniciativas do grupo voltada à criação de comunidades em torno da marca.
À frente dessa estratégia está Josée Perreault, diretora global de marketing da companhia canadense responsável também pelas marcas Can-Am e Ski-Doo.
Para a executiva, o objetivo do marketing vai muito além da publicidade.
“Minha missão é fazer com que nossos consumidores e concessionários sejam nossos maiores fãs. Um profissional de marketing é um grande contador de histórias”, diz Perreault em entrevista exclusiva à EXAME.
A lógica, segundo ela, se aproxima do universo esportivo.
“É como um time que está vencendo: os fãs ficam felizes e falam sobre ele. Quando oferecemos produtos e experiências incríveis, as pessoas falam da marca.”
Hoje, a BRP opera em cerca de 60 países e movimenta aproximadamente 8 bilhões de dólares canadenses em vendas anuais, usando como uma das táticas a criação de clubes para aproximar seus clientes, seja no mar ou até na neve, já que o grupo produz no México veículos recreativos como motos aquáticas da marca Sea-Doo, quadriciclos e veículos off-road da Can-Am, além de motos de neve da Ski-Doo.
A trajetória da executiva, no entanto, não começou no marketing. Perreault nasceu em Montreal, Canadá, e se formou em urbanismo pela Université du Québec à Montréal. Trabalhou dois anos na área antes de perceber que não era o caminho que queria seguir.
“Trabalhei com planejamento urbano por dois anos e percebi que não gostava. Foi então que decidi fazer um MBA especializado em marketing,” afirma a executiva.
Após concluir o MBA, começou a trabalhar em gestão de marcas, inicialmente em setores menos glamourosos.
“Eu queria trabalhar com marcas. Comecei como gerente de marca, mas com produtos nada ‘sexy’, como tinta,” diz a CMO da BRP.
A virada veio quando decidiu migrar para a indústria esportiva, uma paixão pessoal.
“Sou apaixonada por esportes. Pratico esportes e queria muito trabalhar nessa indústria.”
Foi assim que ingressou na Oakley, onde construiu uma carreira de 23 anos.
“Quando entrei, a empresa era pequena. Quando saí, já era uma companhia de um bilhão de dólares. Foi uma grande escola de marketing e construção de marca.”
Durante esse período, trabalhou em diferentes países, incluindo Canadá, França, Suíça e Estados Unidos. O Brasil também entrou em seu radar antes das Olimpíadas de 2016.
“Estive muitas vezes no Rio e em São Paulo, porque abrimos muitas lojas da Oakley antes dos Jogos Olímpicos.”
Após mais de duas décadas na empresa, voltou ao Canadá e se juntou à BRP, onde está há quase dez anos.
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Entre as principais prioridades da executiva está ampliar o reconhecimento global das marcas do grupo.
“Nosso principal objetivo é aumentar o reconhecimento da Sea-Doo e da Can-Am. Em alguns mercados, as pessoas ainda não conhecem tanto essas marcas,” afirma.
Para isso, a estratégia vai além da comunicação tradicional e aposta na criação de comunidades de consumidores, para fazer o negócio crescer faça chuva, sol ou até neve.
“Quanto mais colocamos as pessoas juntas, mais elas se conectam. E quanto mais conectadas elas estão, mais falam sobre a marca.”
Eventos como o realizado em Ilhabela fazem parte desse movimento.
Criado há cerca de dois anos, o Sea-Doo Social Club reúne consumidores em experiências coletivas e agora passa a investir também em encontros voltados exclusivamente para mulheres.
“Quando mulheres se reúnem, criam um espaço seguro e desenvolvem um forte senso de comunidade,” diz a executiva.
O grupo também começou a testar novos canais de venda. “Lançamos o e-commerce há dois anos na América do Norte. Hoje vendemos online apenas peças, acessórios e roupas.”
Segundo Perreault, a empresa pretende evoluir para um modelo omnichannel global.
“Esperamos no futuro ter um modelo omnichannel em todos os mercados, mas ainda temos algumas barreiras de sistemas e tecnologia antes de fazer isso”, diz.
Com uma mulher que construiu uma carreira passando por empresas globais, Perreault deixa um conselho para mulheres que buscam cargos de liderança.
“Permaneça fiel a quem você é. Seja autêntica e confie em si mesma.”
Segundo ela, a confiança é essencial para ganhar espaço e voz dentro das organizações.
“Quando você encontra sua voz, você começa a crescer.”
A história da BRP (Bombardier Recreational Products) começa em 1937, quando o inventor canadense Joseph-Armand Bombardier fundou a Bombardier no Canadá com o objetivo de desenvolver veículos capazes de se locomover na neve, um desafio comum nas regiões mais frias do país. A inovação ganhou escala em 1959, com o lançamento do Ski-Doo, considerada a primeira moto de neve produzida em escala comercial e que ajudou a popularizar o transporte recreativo em ambientes nevados.
Nos anos seguintes, a empresa ampliou sua atuação para outras categorias de veículos voltados ao lazer. Em 1968, lançou a marca Sea-Doo, dedicada às motos aquáticas, entrando no mercado náutico. A presença internacional também começou a se expandir: na década de 1970, os produtos da Bombardier passaram a ser distribuídos no Brasil, ainda sob a estrutura da companhia original.
A estrutura atual da empresa surgiu apenas em 2003, quando a divisão de veículos recreativos foi separada da Bombardier Inc., dando origem à BRP (Bombardier Recreational Products). Hoje, a companhia canadense reúne marcas como Sea-Doo, Can-Am, Ski-Doo e Lynx, especializadas em veículos recreativos para água, neve e trilhas.
Hoje, a empresa opera em cerca de 60 países e movimenta aproximadamente 8 bilhões de dólares canadenses em vendas anuais, com uma rede global de concessionárias e fábricas em países como Canadá, Estados Unidos, México, Finlândia e Áustria.
No Brasil, a operação começou com distribuição nos anos 1970 e ganhou escala na década de 1990 com a criação de uma rede própria de concessionárias. Atualmente, a companhia possui 83 pontos de venda em todos os estados.
A BRP encontrou um "oceano de oportunidades" no Brasil. A marca Sea-Doo lidera o mercado de motos aquáticas no Brasil, com mais de 90% das vendas, movimentando cerca de 2 bilhões de reais por ano. Em 2024, o Brasil ultrapassou Austrália e Canadá e se tornou o segundo maior mercado global da Sea-Doo, atrás apenas dos Estados Unidos.
Além da liderança no mar, o grupo também busca expandir a presença da marca Can-Am no país, com veículos off-road voltados para turismo, recreação e uso no agronegócio.