(Eduardo Frazão/Exame/Divulgação)
Redatora
Publicado em 20 de agosto de 2026 às 11h45.
Toda empresa que vende cuidado para o consumidor final pode enfrentar uma pergunta incômoda: o cuidado também chega até quem trabalha ali dentro? Na Beiersdorf, casa de marcas como NIVEA e Eucerin, a resposta virou política formal de gestão de pessoas há mais de 140 anos, sob o nome de "Care Beyond Skin, o Cuidado Além da Pele".
Um dos programas mais recentes ilustra bem essa lógica: o Socorrista Mental. A ideia é simples de explicar e difícil de executar. Assim como um socorrista físico é treinado para agir nos primeiros minutos de uma emergência, a Beiersdorf está capacitando lideranças para reconhecer sinais de sofrimento emocional na equipe e oferecer o primeiro acolhimento, antes que a situação se agrave.
"O socorrismo mental fortalece nossa rede de cuidado, ampliando a capacidade de apoio dentro da organização", diz Juan Pablo Leymarie, diretor de Gente e Gestão da companhia no Brasil.
A conexão entre propósito de marca e política interna raramente é automática. Muitas empresas vendem uma promessa ao consumidor e praticam outra internamente. Na Beiersdorf, segundo Leymarie, esse é um ponto de honra.
"A forma como queremos cuidar dos consumidores começa pela maneira como valorizamos e desenvolvemos as nossas pessoas", afirma o executivo. Essa coerência é o que sustenta, segundo ele, uma cultura marcada por liderança próxima, feedback constante e espaços de escuta como os cinco Grupos de Afinidade da empresa, dedicados a pautas como equidade racial, empoderamento feminino e inclusão de pessoas com deficiência.
Cuidado, na Beiersdorf, também aparece na planilha de benefícios. A empresa oferece atendimento psicológico 100% coberto, suporte emocional disponível 24 horas por dia, licença-maternidade de seis meses e licença-paternidade de 40 dias, além de previdência privada com contrapartida da empresa.
Há ainda a Política Global de Doenças Críticas, que garante ao colaborador diagnosticado com uma doença grave estabilidade no emprego por até um ano, manutenção integral do salário e dos benefícios, acompanhamento médico e emocional e um plano de retorno gradual ao trabalho.
Institucionalizar o cuidado significa também abrir espaço regular para ouvir. A Beiersdorf mantém rituais internos com essa função: o Papo BDF, fórum mensal em que a empresa expõe indicadores e performance das marcas para todo o time, e o Café com Ana, encontro bimestral em que a presidente da companhia, Ana Bógus, senta com colaboradores para uma conversa sem roteiro fixo.
Existem também os Squads de Engajamento, grupos que reúnem funcionários de áreas e níveis diferentes para mapear gargalos em três frentes: tomada de decisão, bem-estar e igualdade de oportunidades. Foi desse tipo de escuta estruturada, segundo Leymarie, que nasceram mudanças concretas de política, não apenas ajustes cosméticos.
A empresa também quer usar representatividade como métrica de cuidado. No Brasil, 55% dos cargos de diretoria e 58% das posições de liderança são ocupados por mulheres. O programa de estágio reserva metade das vagas para pessoas negras, e a companhia integra o MOVER, movimento voltado à equidade racial no ambiente corporativo.
O resultado, segundo a empresa, apareceu recentemente em uma certificação Great Place to Work, que Leymarie cita como termômetro externo de que a estratégia está funcionando.
Cuidado, quando vira rotina de gestão e não apenas discurso, deixa de ser um adjetivo da marca e passa a ser um indicador de RH como outro qualquer.