Bem-estar: estudo mostra que manter horários regulares ao longo do dia podem favorecer o equilíbrio do organismo (Freepik)
Publicado em 19 de agosto de 2026 às 18h58.
Por Rogério Chér, sócio-fundador da Winx e da Devello
Ao longo dos últimos cento e vinte anos, a Administração evoluiu de maneira extraordinária.
Aprendemos a organizar processos, administrar recursos financeiros, estratégia, operações, marketing, logística, tecnologia, governança, gestão de pessoas e tantos outros campos do conhecimento que transformaram empresas em organizações cada vez mais sofisticadas.
Nenhuma dessas disciplinas perdeu importância. Ao contrário. Todas continuam indispensáveis.
Mas começo a acreditar que estamos diante da próxima etapa da evolução da própria Administração. Uma etapa que ainda não ocupa as salas de aula das escolas de negócios nem as reuniões da maioria das empresas.
Nós aprendemos a administrar organizações. Agora precisaremos aprender a administrar organismos. Essa parece uma diferença pequena. Na verdade, ela muda muita coisa.
Durante muito tempo, quando a Administração resolveu olhar para as pessoas, fez isso principalmente pela psicologia. Foi uma enorme evolução.
Passamos a estudar motivação, personalidade, liderança, inteligência emocional, cultura organizacional, comunicação, clima, engajamento, propósito.
Tudo isso continua sendo absolutamente necessário. Mas talvez já não seja suficiente, dado que antes de existir uma mente, existe um corpo. Antes de existir um pensamento existe uma emoção, e antes de existir um comportamento existe uma biologia funcionando.
Foi exatamente isso que o neurocientista António Damásio demonstrou de maneira brilhante ao explicar que a emoção nasce no organismo e que os sentimentos são a percepção consciente dessas alterações biológicas.
Essa compreensão muda a forma de enxergar o desempenho humano. Ela nos lembra de algo simples. Nós não somos cérebros carregando um corpo. Somos organismos vivos que pensam. E isso muda a maneira de administrar pessoas.
Até aqui, aprendemos sobre como conhecer comportamentos. Daqui para frente, precisaremos compreender algo anterior ao comportamento: a capacidade biológica de sustentá-lo.
A psicologia organizacional nos ensinou a conhecer um pouco mais como as pessoas pensam. A fisiologia organizacional nos permitirá compreender como elas conseguem sustentar, ao longo do tempo, aquilo que pensam, decidem e realizam.
Essa, para mim, é a próxima fronteira da Administração. Mas note: enquanto essa competência ainda não chegou às empresas, ela já começou a chegar aos indivíduos.
Sobretudo em São Paulo, onde vivo muito próximo do mundo dos negócios, tornou-se comum encontrar executivos e empreeededores usando relógios e pulseiras inteligentes e, mais recentemente, sensores como anéis e brincos capazes de medir variabilidade da frequência cardíaca, qualidade do sono, recuperação fisiológica, temperatura corporal, nível de estresse e outros indicadores.
Não por acaso, muitos deles também são maratonistas, triatletas, ciclistas ou praticantes de esportes de alta performance. Aprenderam uma lição que o esporte conhece há décadas: alta performance não depende apenas de esforço. Depende, sobretudo, da qualidade da recuperação.
No esporte de elite ninguém administra apenas treinamento. Administra carga, recuperação, adaptação, ritmo e capacidade disponível. Existe comissão técnica exatamente por isso, fisiologista e preparação física, exatamente por isso!
O objetivo nunca foi fazer o atleta trabalhar mais. Sempre foi permitir que ele sustentasse seu melhor desempenho durante mais tempo.
Há um detalhe interessante que costuma passar despercebido. Mesmo quem nunca comprou um wearable (sensor vestível) provavelmente já carrega um bom laboratório fisiológico no bolso.
Os aplicativos nativos de saúde presentes nos smartphones iPhone e Android já registram passos, atividade física, frequência cardíaca, mobilidade, tempo de sono, regularidade do descanso e diversos outros indicadores capazes de revelar muito sobre nossa capacidade de recuperação.
A tecnologia necessária para começarmos essa jornada já está conosco. O que ainda falta é aprender a interpretar esses sinais. Começar a olhar para nosso próprio organismo. Construir estratégias pessoais de recuperação, desenvolver um ritmo sustentável, aprender a administrar a nós mesmos antes de pretendermos administrar outras pessoas.
É curioso observar um fenômeno relativamente novo entre alguns CEOs que conheço. Muitos passaram a disputar quem é "melhor de cama".
Calma. Não é isso que você imaginou.
A conversa agora também gira em torno de quem teve o maior percentual de sono profundo, quem recuperou melhor durante a noite, quem acordou com maior prontidão fisiológica ou quem apresentou a melhor variabilidade da frequência cardíaca.
O recovery virou motivo de conversa entre executivos. E, sinceramente, acho isso fantástico. Minha única preocupação é outra: se essa competência continuar pertencendo apenas aos indivíduos, estaremos desperdiçando uma oportunidade enorme.
Precisamos transformá-la em competência organizacional, fazer com que líderes compreendam recuperação da mesma maneira que hoje compreendem orçamento, produtividade, estratégia ou fluxo de caixa.
É exatamente aí que nasce aquilo que venho chamando de Fisiologia Organizacional.
Não estamos falando de wellness, de programas de bem-estar, de cumprir a NR-1, de transformar líderes em médicos.
Estamos falando de ampliar as competências da Administração, ensinar líderes a compreender como ritmo circadiano, recuperação, variabilidade da frequência cardíaca, carga fisiológica, sono, adaptação e estresse influenciam diretamente a capacidade humana disponível para produzir resultados.
Essa é uma disciplina completamente diferente. Ela desloca a fisiologia do campo da saúde para o campo da gestão, transforma dados biológicos em inteligência administrative, muda a pergunta.
Deixamos de perguntar:
"Como está o clima da equipe?"
E passamos também a perguntar:
"Qual é a capacidade fisiológica disponível desta equipe para enfrentar os desafios desta semana?"
São perguntas complementares. Não concorrentes.
Um líder pode conhecer profundamente os perfis comportamentais da sua equipe e, ainda assim, fracassar por ignorar que aquelas pessoas estão biologicamente incapazes de sustentar o desempenho esperado.
Pode dominar técnicas sofisticadas de feedback e não perceber que noites mal dormidas, recuperação insuficiente, sobrecarga contínua ou desalinhamento do ritmo biológico comprometem atenção, criatividade, memória, tomada de decisão e autocontrole muito antes de qualquer pesquisa de clima conseguir identificar o problema.
É exatamente essa fronteira do conhecimento que temos estudado profundamente na Devello e na Winx. Não porque desejemos aproximar a gestão da medicina. Mas porque acreditamos que administrar capacidade humana será uma das maiores competências competitivas das próximas décadas.
Nosso trabalho em curso de pesquisa e inovação procura justamente transformar conhecimento científico sobre fisiologia humana em inteligência prática para líderes e organizações.
Queremos ajudar empresas a compreender não apenas o que seus profissionais sabem fazer. Nem apenas como eles se comportam. Mas qual é a capacidade que possuem, naquele momento, para transformar conhecimento em desempenho sustentável.
Capacidade humana não é constante. Ela oscila, recupera, desgasta-se, adapta-se. Tem limites, reservas, ritmos, fisiologia.
E empresas são organismos coletivos formados por milhares de organismos individuais. A potência de uma organização jamais será superior à potência biológica das pessoas que a constituem.
Se indivíduos trabalham continuamente acima de sua capacidade de recuperação, a organização inteira perde capacidade adaptativa.
As decisões pioram, os conflitos aumentam, a criatividade diminui, os erros se multiplicam, a inovação desacelera, a produtividade deixa de ser sustentável.
A empresa continua funcionando. Mas passa a funcionar fisiologicamente cansada. É por isso que acredito que a Fisiologia Organizacional representa a continuação natural da evolução da Administração.
Primeiro aprendemos a administrar processos. Depois aprendemos a administrar pessoas. Agora chegou o momento de aprender a administrar capacidade humana.
Na minha opinião, essa será uma das competências mais importantes da próxima geração de administradores. Não porque o futuro pertença aos wearables. Nem aos aplicativos de saúde. Muito menos porque executivos devam se transformar em especialistas em fisiologia. Mas porque organizações extraordinárias continuarão sendo construídas por seres humanos. E seres humanos, antes de serem profissionais, gestores ou líderes, continuam sendo organismos vivos.
Talvez essa seja a competência que faltava para completarmos a formação de quem tem a responsabilidade de administrar empresas complexas.
E tenho a impressão de que, nos próximos anos, olharemos para a Fisiologia Organizacional da mesma forma que hoje olhamos para estratégia, finanças, operações ou governança: não como um diferencial, mas como uma disciplina indispensável para administrar o ativo mais complexo de qualquer organização: o que nos faz humanos.