A rápida adoção da IA alterou o mercado de venture capital, exigindo que startups desenvolvam barreiras sustentáveis além da inovação tecnológica (Stock-Asso/Shutterstock)
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Publicado em 3 de outubro de 2026 às 07h00.
O investimento global em venture capital atingiu US$ 227,4 bilhões no segundo trimestre de 2026, com forte protagonismo da inteligência artificial. Com a democratização do acesso à tecnologia, o critério principal de investimento mudou: investidores agora buscam startups que apresentem vantagens competitivas defensáveis a partir de dados proprietários, distribuição e relacionamento com clientes.
Por Igor Mazaki*
O dinheiro voltou a circular com força no mercado global de venture capital, mas encontrou um ecossistema bastante diferente daquele que protagonizou a expansão da década passada.
No segundo trimestre de 2026, os investimentos chegaram a US$ 227,4 bilhões em 8.440 operações, segundo a KPMG, em um cenário no qual a inteligência artificial se consolidou como um dos principais vetores de alocação de capital e passou a influenciar não apenas quais empresas recebem atenção, mas também os critérios usados para distinguir negócios promissores de projetos facilmente replicáveis.
A dimensão dessa transformação aparece nos números. Dados da OCDE mostram que empresas de inteligência artificial receberam US$ 258,7 bilhões em venture capital em 2025, o equivalente a 61% de todo o volume investido globalmente naquele ano.
A cifra ajuda a explicar a velocidade com que empreendedores passaram a incorporar IA a produtos, serviços e modelos de negócio, mas também expõe um paradoxo: quanto mais disseminada se torna uma tecnologia, menor tende a ser sua capacidade de funcionar, isoladamente, como argumento de diferenciação.
Durante diferentes ciclos tecnológicos, estar na fronteira da inovação foi suficiente para abrir conversas com investidores. No ambiente atual, essa fronteira se move rápido demais.
Modelos que exigiam equipes altamente especializadas e infraestrutura própria podem ser acessados por APIs; funcionalidades que levavam meses para serem desenvolvidas podem surgir em semanas; produtos podem ser reconstruídos por concorrentes em intervalos cada vez menores.
A inovação continua relevante, evidentemente, mas a pergunta que interessa ao capital começa alguns passos depois: o que permanece quando a tecnologia deixa de ser exclusiva?
É nesse ponto que a discussão sobre diferenciação ganha outra profundidade. Uma startup pode desenvolver um produto tecnicamente sofisticado e ainda assim possuir poucas barreiras contra novos competidores.
Da mesma forma, uma empresa pode utilizar tecnologias disponíveis no mercado e construir uma posição extremamente difícil de reproduzir ao combinar dados proprietários, conhecimento específico de determinada indústria, distribuição, relacionamento com clientes, efeitos de rede e excelência operacional.
O diferencial, portanto, nem sempre está na tecnologia em si, mas no sistema de vantagens que a empresa consegue formar ao redor dela.
Essa mudança também altera a maneira como fundadores precisam apresentar suas companhias ao mercado de venture capital. Dizer que um setor é gigantesco ou que determinada tecnologia irá transformá-lo já não resolve a parte mais difícil da tese.
O investidor precisa compreender por que aquela empresa, entre tantas outras expostas à mesma oportunidade, possui condições particulares de capturar uma parcela relevante desse mercado e defendê-la ao longo do tempo.
A resposta dificilmente cabe em uma única métrica. Ela aparece na combinação entre produto, equipe, distribuição, comportamento dos clientes e economia do negócio.
Uma tecnologia pode atrair o primeiro usuário, mas retenção mostra se existe valor recorrente; crescimento pode chamar atenção, mas eficiência revela quanto capital é necessário para sustentá-lo; uma rodada pode financiar expansão, mas margens, governança e disciplina financeira ajudam a determinar se essa expansão efetivamente constrói valor.
Esse olhar é especialmente importante porque a abundância de aplicações baseadas em IA reduziu a distância entre uma boa ideia e sua execução inicial. Criar ficou mais rápido. Testar ficou mais barato. Entrar em determinados mercados também ficou mais fácil.
Em contrapartida, construir algo defensável tornou-se um problema ainda mais relevante. Se diferentes empresas conseguem acessar modelos semelhantes e desenvolver funcionalidades próximas, a vantagem precisa surgir em outras camadas do negócio.
Para algumas startups, estará nos dados acumulados a partir do uso do produto. Para outras, na integração profunda com os processos de clientes, tornando a substituição custosa.
Há negócios em que a distribuição será decisiva, enquanto outros poderão construir sua posição por meio de conhecimento regulatório, especialização setorial, comunidade ou efeitos de rede.
Em todos esses casos, o ponto central é semelhante: uma vantagem competitiva consistente tende a ficar mais forte conforme a empresa cresce, em vez de desaparecer quando um concorrente adota a mesma tecnologia.
O amadurecimento do mercado privado adiciona outra camada a essa discussão. Empresas permanecem fechadas por períodos mais longos, enquanto investidores procuram mecanismos para obter liquidez antes de uma aquisição ou abertura de capital.
O avanço dos mercados secundários — que, segundo a Lazard, movimentaram aproximadamente US$ 124 bilhões globalmente apenas no primeiro semestre de 2026 — mostra como a indústria está criando novas formas de circulação de participações e de capital dentro do próprio ecossistema privado.
Para os empreendedores, permanecer mais tempo nesse ambiente significa que a capacidade de sustentar uma tese de valor passa a ser testada durante anos, e não apenas no intervalo entre duas rodadas.
Uma narrativa convincente pode ajudar uma empresa a chegar à mesa de negociação, mas dificilmente substitui fundamentos quando investidores acompanham de perto a evolução da receita, a retenção dos clientes, a eficiência do crescimento, a governança e a capacidade da liderança de executar em condições econômicas diferentes.
Talvez esteja aí uma das mudanças mais importantes provocadas pelo atual ciclo de inteligência artificial no venture capital.
A tecnologia ampliou extraordinariamente aquilo que pequenas equipes conseguem construir, mas, justamente por isso, tornou mais urgente responder a uma pergunta antiga do investimento em empresas de crescimento: por que este negócio continuará relevante quando outros puderem fazer algo parecido?
No mercado global de venture capital, a disputa já não acontece apenas para provar quem consegue inovar primeiro.
Em um mundo no qual tecnologia sofisticada se torna rapidamente acessível, a vantagem está cada vez mais naquilo que leva tempo para ser construído e que dinheiro, sozinho, não consegue comprar de imediato.
Para quem busca investimento, usar a tecnologia do momento pode colocar uma startup na conversa; construir algo difícil de copiar é o que pode mantê-la nela.
Dados da OCDE indicam que as empresas de inteligência artificial receberam US$ 258,7 bilhões em venture capital em 2025, o equivalente a 61% de todo o volume investido globalmente naquele ano.
A abundância de aplicações baseadas em IA reduziu a distância entre uma boa ideia e sua execução inicial. De acordo com o texto, isso fez com que o processo de criar ficasse mais rápido, o de testar mais barato e a entrada em novos mercados mais fácil.
A vantagem raramente está apenas na tecnologia em si. O diferencial é construído ao combinar dados proprietários, conhecimento específico de uma indústria, distribuição, relacionamento com clientes, efeitos de rede e excelência operacional.
Os investidores acompanham fundamentos sólidos e buscam entender como a empresa irá capturar e defender o mercado. Isso inclui avaliar a evolução da receita, a retenção de clientes, a eficiência do crescimento e a governança.
Segundo a Lazard, os mercados secundários movimentaram aproximadamente US$ 124 bilhões globalmente apenas no primeiro semestre de 2026, apontando novas formas de obter liquidez dentro do ecossistema privado.