Estudo aponta que otimismo com IA em países pobres reflete visão das elites com acesso à tecnologia (Freepik/Reprodução/Reprodução)
Plataforma de conteúdo
Publicado em 2 de abril de 2026 às 17h00.
Por Lucas Reis*
A startup Anthropic, desenvolvedora do chatbot Claude, publicou recentemente aquele que é, até o dado momento, o mais amplo esforço para compreender como a inteligência artificial está sendo percebida globalmente.
O estudo reuniu cerca de 79 mil respondentes em um modelo de entrevistas conduzidas dentro do próprio sistema. Dentre os insights da pesquisa, chama atenção que regiões ‘emergentes ou pobres’ são mais otimistas sobre a IA que aquelas mais desenvolvidas.
Por exemplo, na África Subsaariana (18%), Ásia Central (17%) e Sul da Ásia (17%), a proporção de respondentes que afirmam “não ter qualquer preocupação com IA” é quase que o dobro da observada na América do Norte (8%), Oceania (8%) e Europa Ocidental (9%).
A explicação dada pelos pesquisadores é de que, em contextos de menor renda, tecnologias emergentes tendem a ser interpretadas como alavancas de mobilidade, não como ameaças de substituição.
Isso ocorre especialmente quando sua penetração ainda é limitada – e seus efeitos concretos sobre o trabalho estão distantes da experiência cotidiana. Mas esse argumento não considera o viés da amostragem.
A pesquisa foi feita com usuários do Claude, que não é usado de maneira homogênea por toda população dos países. No caso do Brasil, uma pesquisa da Datafolha publicada em 2025 mostra os contrastes da adoção de IA.
O uso de ferramentas de IA como o Claude (ou ChatGPT, Gemini e afins) é de 66% na classe A – e de 23% na classe D. Com relação à educação, o dado se alastra para 73% entre pessoas com ensino superior.
Já entre aquelas com ensino fundamental, o índice é de apenas 18%. Ou seja, os respondentes pertencem majoritariamente às camadas privilegiadas da sociedade.
Assim, o que foi entendido como “otimismo dos países emergentes ou pobres” pelos pesquisadores, é, a meu ver, o otimismo das elites desses países.
Grupos que, por definição, têm maior probabilidade de capturar valor em momentos de transição tecnológica tendem a interpretar a lógica da inteligência artificial como instrumento de ganho e não de ameaça.
Em sociedades mais homogêneas, essa distorção é diluída; em sociedades marcadas por assimetrias profundas, ela se torna mais relevante.
A adoção de IA está concentrada em indivíduos com maior renda e escolaridade formal, que incorporam essas ferramentas em suas rotinas cognitivas e produtivas.
Eles antecipam sua adaptação a um mercado de trabalho progressivamente reorganizado por sistemas “AI-enabled”, ampliando a distância que separa as camadas sociais.
A pesquisa expõe, portanto, mais um sintoma da formação de uma nova fronteira: uma linha separatista que atravessa territórios geográficos e se instala dentro dos próprios mercados.
Ela distingue aqueles que já operam com inteligência artificial, daqueles que não têm acesso a esta tecnologia. No entanto, todos são impactados por ela, sem necessariamente compreendê-la ou controlá-la.
Em outras palavras, o maior otimismo em relação à IA nos países pobres não é sinal da perspectiva de reduzir o fosso que os separa das nações mais ricas.
O dado traz a visão otimista da elite desses países, historicamente vencedora nos ciclos econômicos, que já utiliza as ferramentas de IA numa proporção maior que as camadas mais pobres.
Esta elite enxerga com muito mais nitidez os ganhos do que as potenciais perdas alavancadas por essa nova disrupção tecnológica.
*Lucas Reis, professor doutor em Comunicação, estrategista de marketing de alto impacto, especialista em análise de dados e pesquisador no Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).