A busca por curtidas e aprovação nas redes sociais pode transformar experiências pessoais em performance e enfraquecer a espontaneidade
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Publicado em 25 de outubro de 2026 às 13h00.
O cibernarcisismo está relacionado à busca excessiva por reconhecimento e validação nas redes sociais. Segundo a reflexão da escritora Lygia Flaiano Nyikos, a dependência de curtidas e comentários pode influenciar a identidade, estimular comparações e comprometer a espontaneidade das experiências. A autora defende escolhas mais conscientes e momentos de privacidade para recuperar a presença na vida cotidiana.
Vivemos em uma época em que compartilhar a vida se tornou quase tão importante quanto vivê-la.
Fotografamos refeições, registramos viagens, publicamos conquistas e acompanhamos a rotina de pessoas que, muitas vezes, sequer conhecemos pessoalmente.
Nesse movimento constante de exposição, uma pergunta me parece fundamental: estamos construindo relações mais verdadeiras ou aprendendo a representar versões de nós mesmos para sermos aceitos?
É dessa reflexão que parto ao abordar o cibernarcisismo, fenômeno relacionado à busca por reconhecimento e validação no ambiente digital.
Não se trata de classificar quem publica fotos ou compartilha momentos como narcisista, mas de observar o que acontece quando a percepção que temos de nós mesmos passa a depender excessivamente da reação dos outros.
As redes sociais oferecem oportunidades de expressão, troca e pertencimento.
O problema começa quando curtidas, comentários e seguidores deixam de ser interações pontuais e se transformam em medidas do nosso valor.
Nesse cenário, a aprovação externa ganha espaço nas decisões, nos comportamentos e até na maneira como interpretamos nossas experiências.
Percebo um paradoxo nessa dinâmica. Ao mesmo tempo que somos incentivados a demonstrar autenticidade, aprendemos a selecionar cuidadosamente aquilo que mostramos.
Escolhemos os melhores ângulos, editamos imagens, organizamos narrativas e, muitas vezes, escondemos as partes da vida que não correspondem à expectativa de sucesso.
Aos poucos, corremos o risco de confundir nossa identidade com a imagem que construímos para o público.
Essa lógica não se limita à aparência física. Ela alcança o trabalho, os relacionamentos, o lazer e até a saúde emocional. Precisamos parecer produtivos, felizes, realizados e disponíveis.
O descanso vira conteúdo, o autocuidado se transforma em desempenho e as conquistas parecem incompletas quando não são compartilhadas.
Existe uma diferença importante entre sentir satisfação e precisar provar que estamos satisfeitos. Quando tudo precisa ser exibido, a experiência perde parte de sua espontaneidade.
Em vez de estarmos inteiramente presentes em um encontro, por exemplo, podemos nos preocupar com a fotografia que faremos dele ou com a reação que ela provocará.
A atenção se desloca do momento vivido para a imagem que ficará registrada.
Essa busca contínua por reconhecimento também pode alimentar comparações. Nas redes, geralmente vemos recortes cuidadosamente selecionados da vida alheia, mas tendemos a compará-los com nossa realidade inteira, incluindo dúvidas, dificuldades e inseguranças.
Essa comparação é desigual e pode produzir a sensação de que estamos sempre atrasados, aquém das expectativas ou perdendo alguma coisa.
Em Ser é a nova revolução – Da performance à presença: um guia para quem quer trabalhar, viver e se conectar com propósito, publicado pela Editora Labrador, proponho uma reflexão sobre a relação entre identidade, atenção e hábitos.
Acredito que recuperar a presença exige reconhecer quando nossas escolhas deixam de refletir nossos desejos e passam a responder principalmente à expectativa de aprovação.
Não defendo o abandono das redes sociais. A tecnologia faz parte da vida contemporânea e pode aproximar pessoas, ampliar conhecimentos e abrir caminhos profissionais.
O desafio está em utilizá-la sem permitir que ela determine nossa percepção de valor.
Podemos começar com atitudes simples: fazer uma refeição sem consultar o celular, caminhar sem transformar o percurso em publicação, reservar momentos de intimidade e observar o que sentimos quando uma experiência não recebe reconhecimento público.
Também vale perguntar a nós mesmos: eu faria isso se ninguém pudesse ver? Essa escolha tem significado para mim ou estou tentando corresponder a uma expectativa?
Essas pausas não resolvem, isoladamente, todas as pressões da vida digital, mas podem abrir espaço para escolhas mais conscientes. O silêncio, nesse sentido, não representa ausência de conexão.
Pode ser uma oportunidade de escutar necessidades que ficam abafadas pelo excesso de estímulos.
Para mim, a questão central não é quantas pessoas acompanham nossa vida, mas quanto conseguimos habitá-la de verdade.
Quando precisamos de uma plateia para confirmar nossa existência, corremos o risco de nos afastar justamente da pessoa que deveríamos conhecer melhor: nós mesmos.
Descer da vitrine é compreender que nem tudo precisa ser mostrado para ter valor.
Há experiências que ganham profundidade quando permanecem privadas, conquistas que não precisam de aplausos e momentos de felicidade que não dependem de testemunhas.
Recuperar essa liberdade é um exercício de presença e uma forma de construir uma relação mais honesta com quem somos, dentro e fora das telas.
*Lygia Flaiano Nyikos é advogada, pesquisadora, professora, escritora e pós-graduanda em Neurociência, Neuromarketing e Narrativas de Impacto pela PUC-PR. É autora de “Ser é a nova revolução – Da performance à presença: um guia para quem quer trabalhar, viver e se conectar com propósito”.
O cibernarcisismo é um fenômeno relacionado à busca por reconhecimento e validação no ambiente digital. Segundo a reflexão de Lygia Flaiano Nyikos, o problema surge quando a percepção que uma pessoa tem de si mesma passa a depender excessivamente das reações dos outros nas redes sociais.
Compartilhar fotografias e experiências pessoais não significa necessariamente apresentar um comportamento narcisista. A diferença está na dependência da aprovação externa, quando curtidas, comentários e seguidores passam a funcionar como medidas do valor pessoal.
As redes sociais podem influenciar a percepção de valor pessoal quando a busca por aprovação passa a orientar comportamentos e escolhas. A exposição de versões idealizadas da própria vida também pode criar uma distância entre a identidade individual e a imagem construída para o público.
A comparação pode provocar insatisfação porque as pessoas geralmente observam recortes selecionados da vida alheia e os comparam com sua própria realidade, incluindo dificuldades e inseguranças. Segundo Lygia Flaiano Nyikos, essa diferença pode gerar a sensação de estar atrasado ou de não corresponder às expectativas.
A autora sugere atitudes como fazer refeições sem consultar o celular, caminhar sem publicar registros e reservar momentos de intimidade. Também recomenda refletir se determinadas escolhas têm significado pessoal ou se são motivadas principalmente pela expectativa de reconhecimento público.
Não. Lygia Flaiano Nyikos defende o uso consciente da tecnologia, reconhecendo seu potencial de aproximar pessoas, ampliar conhecimentos e criar oportunidades profissionais. O desafio é preservar a autonomia e a presença nas experiências cotidianas sem depender da validação digital.