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O paradoxo do compliance: diagnóstico claro, tratamento não

Pesquisa revela que 96% dos especialistas veem impactos da corrupção, mas apenas 69% confiam plenamente nos processos atuais de due diligence

Profissionais de governança buscam fortalecer a integridade corporativa em novos cenários (Studio Romantic/Shutterstock)

Profissionais de governança buscam fortalecer a integridade corporativa em novos cenários (Studio Romantic/Shutterstock)

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Publicado em 24 de abril de 2026 às 17h00.

Por Claudia Elisa Soares*

Imagine um médico que identifica perfeitamente a doença, mas questiona a eficácia do próprio tratamento que prescreve.

É exatamente isso que revela a pesquisa "Corrupção e Integridade no Mercado Brasileiro", conduzida pela Transparência Internacional em 2025 com 96 profissionais de compliance.

Os números são preocupantes: 96% dos especialistas concordam que práticas ilegais impactam negativamente o ambiente de negócios brasileiro.

Lacunas na integridade corporativa

Porém, apenas 69% confiam que a due diligence das empresas é adequada para identificar e evitar essas relações perigosas.

Essa lacuna de 27 pontos percentuais é um claro sinal de que estamos tratando sintomas, não causas.

O problema não está na falta de consciência sobre os riscos, e sim na abordagem fragmentada.

Conforme apontado pela pesquisa, 47% veem melhora nas práticas de integridade corporativa, mas isso pode refletir mais uma sofisticação dos processos do que uma mudança real na cultura organizacional.

Precisamos questionar: “Estamos construindo fortalezas de papel?”

Crise de legitimidade institucional

A desconfiança nas instituições públicas – com apenas 8% acreditando no compromisso do Congresso Nacional – não é um dado isolado.

É o reflexo de um sistema que perdeu a capacidade de se autorregular.

Quando 59% dos especialistas em compliance não veem nenhuma instituição como verdadeiramente comprometida, estamos diante de uma crise de legitimidade que transcende a esfera pública.

Aqui reside uma oportunidade transformadora: as empresas podem liderar pelo exemplo.

Se as instituições públicas falharam em inspirar confiança, o setor privado tem a chance histórica de se tornar o laboratório da integridade.

Isso exige coragem para ir além do compliance reativo e abraçar uma governança proativa.

O caminho passa por três pilares fundamentais: transparência radical nos processos decisórios, accountability real (não apenas formal) e engajamento genuíno com stakeholders.

Empresas que adotarem essa tríade não apenas se protegerão melhor, mas se posicionarão como agentes de mudança social.

Inteligência Artificial como ferramenta de auditoria

Estudos recentes indicam que 91% das empresas já utilizam tecnologia em seus programas de compliance, sendo que a Inteligência Artificial já é adotada por 42% das organizações dentro de regras de governança.

A IA oferece algo que nunca tivemos antes: a capacidade de detectar padrões invisíveis ao olho humano e antecipar riscos em tempo real.

São sistemas que identificam transações suspeitas e que aprendem com cada interação e se tornam mais inteligentes a cada dia.

Empresas líderes estão criando comitês de ética em IA, estabelecendo princípios claros de uso e investindo em capacitação de suas equipes.

O fator internacional e a OCDE

Parte da solução para o compliance brasileiro está na observação e adoção de referências internacionais.

95% dos profissionais entrevistados acreditam que empresas multinacionais sujeitas a legislações anticorrupção estrangeiras possuem sistemas de integridade corporativa mais robustos.

Fato é que o Foreign Corrupt Practices Act (FCPA) estabeleceu um padrão global que elevou a régua da integridade, podendo ser um modelo para criarmos nossos próprios marcos regulatórios que sejam igualmente rigorosos e efetivos.

Além disso, a adesão do Brasil à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), apoiada por 96% dos entrevistados, representa mais que um selo de qualidade internacional.

É uma oportunidade de acelerar nossa curva de aprendizado, absorvendo décadas de experiência global em governança e transparência.

Países que abraçaram esses padrões reduziram a corrupção e criaram ambientes de negócios mais atrativos para investimentos de longo prazo.

Além do compliance tradicional

O futuro da integridade corporativa está em repensar fundamentalmente nossa abordagem. Três caminhos emergem como essenciais:

  1. Integração sistêmica: em vez de tratar compliance como uma área isolada, as organizações estão incorporando princípios de integridade em cada processo, desde a estratégia até a operação. Isso significa que todo colaborador se torna um guardião da ética.
  2. Cultura de propósito: empresas que conectam suas práticas de integridade a um propósito maior – seja sustentabilidade, impacto social ou inovação – criam um engajamento emocional que nenhum manual de procedimentos consegue alcançar.
  3. Colaboração ecossistêmica: a luta contra a corrupção não pode ser travada isoladamente. Empresas estão formando coalizões setoriais, compartilhando melhores práticas e criando padrões coletivos que elevam todo o mercado.

A verdadeira revolução acontecerá quando pararmos de ver integridade como custo de conformidade e começarmos a enxergá-la como fonte de vantagem competitiva sustentável.

O paradoxo da integridade corporativa tem solução: “Parar de tratar ética como obrigação e começar a vê-la como oportunidade.” Quem fizer essa transição primeiro não apenas sobreviverá aos desafios atuais, mas prosperará no futuro que está sendo construído agora.

*Claudia Elisa Soares integra conselhos de administração em companhias de capital aberto e grupos familiares, como Camil Alimentos, CPFL Energia, Smart Fit e Hospital BP São Paulo. É mentora estratégica de líderes e empreendedores, reconhecida pela expertise em transformação de negócios e cultura corporativa. Com uma trajetória executiva de mais de 30 anos, foi C-level em organizações de prestígio, como GPA, FNAC, AmBev e Votorantim Cimentos. É coautora dos livros “Mulheres ESG” e “Mulheres no Conselho” e apresentadora do podcast Liderança em Pauta.

 

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