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Liderança: o que está por trás dos riscos globais de 2026 – e com o que se preocupar

Instabilidade geopolítica e IA desafiam a liderança empresarial em 2026

Top Risks 2026", da Eurasia Group, traz um horizonte de incertezas (Trevor Williams/Getty Images)

Top Risks 2026", da Eurasia Group, traz um horizonte de incertezas (Trevor Williams/Getty Images)

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Publicado em 16 de fevereiro de 2026 às 10h00.

Por Claudia Elisa Soares*

O ano de 2026 se anuncia como um verdadeiro ponto de inflexão na tapeçaria das relações globais. O relatório "Top Risks 2026", da Eurasia Group, traz um horizonte de incertezas e transformações profundas.

Ao contrário do que muitos imaginam, as maiores ameaças não residem em embates diretos entre superpotências, mas sim em um intrincado emaranhado de desestabilização interna nos Estados Unidos e em uma revolução tecnológica sem precedentes, carente de governança.

Para o mundo corporativo, isso significa que o baralho de riscos globais teve suas cartas embaralhadas e as regras do jogo estão em constante redefinição. As empresas e os investidores que souberem antecipar e adaptar-se a essas mudanças terão uma vantagem competitiva inestimável.

A era da previsibilidade cede lugar à gestão contínua de cenários voláteis, onde a agilidade e a resiliência serão moedas de alto valor. Não se trata apenas de reagir a eventos, mas de construir estratégias que incorporem essa nova realidade.

É tempo de olhar além dos balanços e entender as forças subjacentes que remodelam o ambiente de negócios global. A seguir, uma análise dos principais riscos apontados pelo relatório.

EUA: o epicentro da incerteza

No coração da convulsão de 2026 está a revolução em marcha nos Estados Unidos. A maior economia do planeta, que por décadas ancorou a ordem global, torna-se agora a principal fonte de instabilidade.

A erosão das instituições e a politização do aparelho de Estado criam um ambiente de negócios onde a previsibilidade jurídica e regulatória é uma miragem. Líderes empresariais precisam entender que a governança corporativa se estende agora à governança geopolítica.

Mapear a exposição a um governo volátil, diversificar parcerias e não apostar todas as fichas na estabilidade tradicional são imperativos. A inteligência política, antes um acessório, agora é um requisito fundamental para a sobrevivência corporativa.

Esse cenário é amplificado pelo capitalismo de estado com características americanas, uma fusão inesperada de liberalismo e intervencionismo. A administração não hesitará em usar seu poder para moldar setores e até mesmo intervir diretamente em investimentos.

Isso cria um campo de jogo desequilibrado, onde a produtividade pode ceder lugar ao alinhamento político. Para o setor privado, o desafio é duplo: manter a integridade e a eficiência enquanto navega em águas onde o Estado é um jogador ativo, não apenas um árbitro.

A liderança precisa blindar suas estratégias de longo prazo contra os ventos efêmeros da política. A assertividade americana se projeta também na Doutrina Donroe, uma reinterpretação agressiva da política de Washington para o Hemisfério Ocidental.

Medidas enérgicas, como a observada na Venezuela, podem, paradoxalmente, gerar mais instabilidade do que controle e empurrar países para órbitas de influência rivais, como a China.

Para empresas com investimentos na América Latina, a instabilidade geopolítica se intensifica, exigindo avaliações de cenários robustas, planos de contingência para interrupções operacionais e uma diplomacia corporativa.

As rachaduras no Velho Continente

A Europa, por sua vez, mostra sinais de fragilidade preocupante, encontrando-se "sob cerco". A fragmentação política interna, impulsionada por populismos e a inabilidade de governos em lidar com desafios econômicos, mina a coesão do bloco.

Essa vulnerabilidade é explorada por atores externos, o que resulta em um ambiente de negócios menos dinâmico e mais imprevisível para investidores. Os líderes europeus enfrentam o desafio hercúleo de reconstruir o consenso e a eficácia.

As empresas devem se preparar para uma Europa mais lenta em decisões, com mercados mais voláteis e regulamentações fragmentadas. A adaptabilidade será a chave para transitar por este mosaico de interesses.

Adicionalmente, a segunda frente da Rússia adiciona uma camada de riscos globais sem precedentes. Não se trata de uma guerra convencional, mas de uma intensificação da guerra híbrida contra a OTAN, com ataques cibernéticos a infraestruturas críticas e sabotagens.

Essa estratégia de "zona cinzenta" aumenta dramaticamente a probabilidade de incidentes que podem ter consequências físicas e econômicas severas. Empresas que dependem de cadeias de suprimentos críticas na região devem investir pesadamente em cibersegurança e resiliência operacional.

A proteção de ativos digitais e físicos torna-se um pilar estratégico da liderança empresarial.

O desafio asiático

Mais à leste, a armadilha de deflação da China é um risco sísmico que pode reverberar globalmente. A economia chinesa pode inundar os mercados globais com produtos baratos, gerando deflação em outros lugares e intensificando o protecionismo comercial.

Isso força as empresas a um doloroso ajuste: ou aceitam margens mais apertadas e uma competição feroz, ou diversificam suas fontes de produção e mercados para mitigar a dependência chinesa.

A liderança precisa reavaliar profundamente a estratégia de suprimentos e vendas, considerando que a "fábrica do mundo" pode também exportar desequilíbrio.

A face oculta da tecnologia

A fronteira da inovação, a IA, embora promissora, também esconde uma ameaça insidiosa: ela devora seus usuários. A pressão para monetizar investimentos maciços pode levar à criação de modelos de negócios que priorizam o engajamento sobre o bem-estar humano.

Isso levanta questões éticas profundas e o risco de um backlash regulatório significativo. Empresas que desenvolvem ou empregam Inteligência Artificial devem adotar uma abordagem de "IA responsável" desde o início.

A liderança precisa garantir que a busca por lucro não sacrifique os valores fundamentais, sob pena de perder a licença social para operar.

Em meio a esse caldeirão de desafios, a história não está escrita. 2026 não é um ano para ser enfrentado com temor, mas com uma determinação estratégica renovada.

A liderança empresarial tem o poder de não apenas reagir a essas forças, mas de moldar sua resposta, transformando cada ponto de instabilidade geopolítica em uma oportunidade para inovar e fortalecer a resiliência.

O grande teste é, em essência, um convite à reinvenção.

*Claudia Elisa Soares integra conselhos de administração em companhias de capital aberto e grupos familiares, como Camil Alimentos, CPFL Energia, Smart Fit e Hospital BP São Paulo. É mentora estratégica de líderes e empreendedores.

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