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Executivos começam a procurar por 'tradutores' de tecnologia

C-levels precisam de quem entenda a estratégia do negócio e saiba aplicar tecnologia para resolver problemas concretos

O elo entre as áreas de negócio e tecnologia ajuda empresas a transformar investimentos em soluções com resultados mensuráveis (WHYFRAME/Shutterstock)

O elo entre as áreas de negócio e tecnologia ajuda empresas a transformar investimentos em soluções com resultados mensuráveis (WHYFRAME/Shutterstock)

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Publicado em 8 de novembro de 2026 às 13h00.

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João Chebante, CEO da Sinergis, empresa brasileira de software e consultoria estratégica, defende a contratação de profissionais capazes de conectar negócios e tecnologia para gerar resultados mensuráveis. Segundo pesquisa da consultoria Deloitte publicada em 2024, 68% dos entrevistados disseram que suas organizações haviam levado 30% ou menos dos experimentos com inteligência artificial generativa à produção.

Por João Chebante*

Durante muito tempo, as empresas trataram negócios e tecnologia como áreas com responsabilidades bem definidas. De um lado, executivos preocupados com crescimento, receita, eficiência e competitividade.

De outro, profissionais dedicados a sistemas, infraestrutura, dados e desenvolvimento de soluções. O problema é que, em um mercado cada vez mais digital, essa divisão já não corresponde à realidade das organizações.

E é justamente nesse espaço entre estratégia e execução que surge uma função cada vez mais relevante: a de quem consegue traduzir as necessidades do negócio em soluções tecnológicas e transformar as possibilidades da tecnologia em resultados concretos.

Esse profissional não precisa necessariamente ser um programador excepcional nem um executivo com décadas de experiência comercial. Seu diferencial está em compreender as duas linguagens, identificar onde elas se desencontram e construir uma ponte entre elas.

Afinal, de pouco adianta uma empresa investir em inteligência artificial, automação ou análise de dados se as equipes técnicas não compreendem o problema que precisam resolver ou se a liderança não consegue avaliar o potencial e as limitações das ferramentas disponíveis.

O desafio não é apenas tecnológico. É também de comunicação, gestão e tomada de decisão. Uma área comercial pode pedir uma nova plataforma quando, na realidade, precisa eliminar etapas desnecessárias de um processo.

Uma equipe de tecnologia pode desenvolver uma ferramenta sofisticada que não resolve a dificuldade cotidiana dos usuários. Em ambos os casos, há investimento, esforço e expectativa, mas não necessariamente geração de valor.

O tradutor de negócios e tecnologia atua justamente antes que essas falhas se transformem em custos.

Por que a inteligência artificial exige integração entre as áreas?

Os dados ajudam a dimensionar a importância dessa conexão.

A pesquisa The State of Generative AI in the Enterprise, publicada pela Deloitte em 2024, identificou que a experimentação com inteligência artificial generativa avançava mais rapidamente do que a capacidade de muitas organizações de incorporar essas soluções em escala.

Em uma das edições do levantamento, 68% dos entrevistados afirmaram que suas organizações haviam levado 30% ou menos dos experimentos com essa tecnologia para a produção.

O resultado evidencia a distância que pode existir entre testar uma inovação e incorporá-la efetivamente à operação.

O desafio, portanto, não se limita a acessar novas ferramentas: envolve preparar processos, pessoas e estruturas para transformar experimentos em aplicações efetivas.

A mesma questão aparece sob outra perspectiva no relatório Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial.

O levantamento, baseado nas expectativas de mais de mil empregadores que representam milhões de trabalhadores em diferentes economias, aponta o crescimento da importância das competências tecnológicas, incluindo inteligência artificial, big data e letramento tecnológico.

Ao mesmo tempo, habilidades como pensamento analítico, flexibilidade e liderança continuam relevantes. A combinação é reveladora: as empresas precisam tanto de domínio técnico quanto de capacidade para interpretar problemas, colaborar e tomar decisões.

O papel do profissional que conecta operações e tecnologia

É nesse encontro que o profissional que faz a ponte entre operações e tecnologia ganha espaço.

Ele entende que uma decisão não deve começar pela pergunta “qual ferramenta vamos contratar?”, mas por questões mais fundamentais: qual problema queremos resolver? Como ele afeta a operação?

Que resultado esperamos alcançar? Quais dados sustentam essa decisão? Como saberemos se a solução funcionou?

Essas perguntas parecem simples, mas ajudam a evitar projetos conduzidos pelo entusiasmo com novidades, pela pressão de concorrentes ou pela promessa comercial de fornecedores.

Quais profissionais podem fazer a ponte entre negócios e tecnologia?

Na prática, esse profissional pode assumir diferentes formas: um gerente de produto com visão de negócio, um consultor de transformação digital, um líder de operações com conhecimento tecnológico ou até um executivo capaz de articular as áreas comercial, financeira e técnica.

O título importa menos do que a competência. O que a empresa precisa é de alguém que consiga fazer as perguntas certas, estabelecer prioridades e garantir que a solução escolhida tenha relação direta com os objetivos estratégicos.

Essa função também ganha relevância diante da pressão por retorno sobre os investimentos.

Em vez de medir o sucesso apenas pela entrega de um sistema ou pela conclusão de um projeto, o profissional ajuda a estabelecer indicadores relacionados ao resultado esperado: redução de custos, diminuição do tempo de atendimento, aumento da conversão comercial ou melhoria da experiência do cliente.

Com critérios claros, a organização consegue avaliar se deve ampliar um investimento, corrigir sua implementação ou abandonar uma iniciativa que não entrega o valor prometido.

Por que a colaboração entre negócio e tecnologia importa?

Há ainda um aspecto cultural.

Quando as áreas não compartilham objetivos, a tecnologia corre o risco de ser vista como um centro de custos, enquanto as equipes de negócio podem ser percebidas como pouco realistas em suas demandas.

O tradutor ajuda a substituir essa dinâmica por uma relação de corresponsabilidade.

A área técnica passa a compreender melhor as prioridades comerciais, e a liderança aprende a considerar questões como integração de sistemas, segurança, qualidade dos dados e capacidade de implementação antes de assumir compromissos.

Isso não significa criar mais uma camada hierárquica ou concentrar todas as decisões em uma única pessoa. A função só faz sentido quando melhora a colaboração e distribui conhecimento entre as equipes.

Também não substitui especialistas técnicos, profissionais de dados ou gestores de negócio. Pelo contrário: seu trabalho depende da capacidade de reconhecer quando uma questão exige conhecimento especializado e de reunir as pessoas certas para resolvê-la.

Como identificar esse perfil na contratação?

Para contratar esse perfil, portanto, as empresas deveriam olhar além dos currículos que acumulam certificações ou experiências em ferramentas específicas.

É importante avaliar se o candidato consegue explicar um problema complexo de forma compreensível, questionar uma demanda aparentemente óbvia, relacionar uma solução a indicadores de desempenho e negociar prioridades sem perder de vista as limitações técnicas.

A capacidade de ouvir e traduzir perspectivas diferentes pode ser tão relevante quanto o conhecimento das tecnologias mais recentes.

Inteligência artificial e pensamento analítico são competências complementares

Em um ambiente no qual a inteligência artificial, a automação e a análise de dados alteram a forma de competir, a vantagem não estará necessariamente com quem adotar mais ferramentas, mas com quem souber escolher melhor onde aplicá-las.

O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, reforça essa combinação: 69% dos empregadores consultados consideram o pensamento analítico uma competência essencial, enquanto 51% apontam o letramento tecnológico.

Os números indicam que interpretar problemas e compreender tecnologia são capacidades complementares, não alternativas.

A próxima contratação estratégica de uma empresa, portanto, talvez não deva ser mais um especialista em uma ferramenta da moda, mas alguém capaz de conectar o conhecimento técnico às decisões que movem o negócio.

Em vez de perguntar apenas quais tecnologias a organização precisa adquirir, os executivos deveriam se perguntar se possuem pessoas capazes de transformar essas tecnologias em prioridades, processos e resultados mensuráveis.

Porque, no fim, a inovação não se concretiza quando uma ferramenta é implementada. Ela se concretiza quando a empresa consegue fazer algo melhor por causa dela.

*João Chebante é CEO da Sinergis, empresa brasileira especializada em revenda de software e consultoria estratégica para a transformação digital. 

'Perguntas frequentes'

O que faz um profissional que conecta negócios e tecnologia? +

Esse profissional traduz as necessidades do negócio em soluções tecnológicas, articula equipes e busca resultados mensuráveis. Pode atuar como gerente de produto, consultor de transformação digital ou líder de operações.

Por que tantos projetos de inteligência artificial não chegam à produção? +

Segundo pesquisa da Deloitte publicada em 2024, 68% dos entrevistados afirmaram que suas organizações levaram à produção 30% ou menos dos experimentos com inteligência artificial generativa. A adoção em escala depende também do preparo de processos, pessoas e estruturas.

Quais competências são importantes para conectar tecnologia e negócios? +

O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta que 69% dos empregadores consultados consideram o pensamento analítico uma competência essencial, enquanto 51% destacam o letramento tecnológico. Comunicação, flexibilidade e liderança também são habilidades relevantes.

Como medir o retorno dos investimentos em tecnologia? +

Os indicadores podem incluir redução de custos, diminuição do tempo de atendimento, aumento da conversão comercial e melhoria da experiência do cliente. Esses critérios ajudam a empresa a decidir se deve ampliar, corrigir ou abandonar um investimento.

É preciso ser programador para conectar negócios e tecnologia? +

Não necessariamente. O principal diferencial desse profissional é compreender as linguagens técnica e empresarial, questionar demandas, estabelecer prioridades e reunir especialistas quando necessário.

O que as empresas devem avaliar ao contratar esse profissional? +

As empresas devem observar se o candidato consegue explicar problemas complexos com clareza, questionar demandas, relacionar soluções a indicadores de desempenho e negociar prioridades sem ignorar limitações técnicas. A capacidade de ouvir e traduzir perspectivas diferentes também é importante.

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