Executivos de tecnologia usam know-how em IA para modernizar a economia tradicional (Olena-Yakobchuk/Shutterstock)
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Publicado em 10 de agosto de 2026 às 17h00.
Por João Chebante*
Toda vez que me deparo com um anúncio de layoff, ouço praticamente a mesma frase: “menos gente fazendo mais com apoio de ferramentas de IA”.
O detalhe que poucos comentam é onde esse corte bate primeiro. Historicamente, demissões miram a parte operacional ou, em crises mais graves, o topo da hierarquia.
Agora o alvo mudou de lugar, está bem no meio do organograma, na camada de coordenadores e gerentes.
Uma pesquisa do Fórum Econômico Mundial mostrou que 41% das empresas no mundo esperam reduzir suas forças de trabalho nos próximos cinco anos em razão do avanço da IA.
O movimento já entrou no planejamento de médio prazo de quase metade das companhias globais, o que ajuda a explicar por que esses cortes deixaram de ser exceção.
Um coordenador ou gerente passa boa parte do tempo organizando informação, cruzando dados e produzindo análises para embasar decisões de terceiros.
É esse tipo de trabalho que a IA generativa já executa com velocidade e consistência iguais ou em breve superiores ao de um time humano. Com um custo muito menor.
Então, em vez de ampliar equipes para produzir análises e consolidar dados, as empresas passam a depender de estruturas mais enxutas, nas quais menos pessoas coordenam processos que hoje podem ser executados por ferramentas e seus agentes de IA.
Isso, obviamente, deixa um grupo de profissionais em uma posição desconfortável.
São pessoas que construíram carreira justamente nesse meio, com domínio de processos, ferramentas e gestão de equipes, e que agora encontram um mercado de tecnologia com menos vagas para esse perfil.
Voltar para dentro do setor, competindo por posições que também estão encolhendo, é um caminho cada vez mais complexo.
A oportunidade mais promissora talvez esteja justamente onde pouca gente olha. Não nas empresas de tecnologia, mas na chamada boring economy, formada por negócios tradicionais da indústria e dos serviços que sustentam a economia.
A economia "formal", diriam alguns. Um outro fator que pode estimular esse olhar, é que ao mesmo tempo, esses setores convivem há anos com a dificuldade de encontrar sucessores para empresas e cargos estratégicos, ou precisam justamente entrar no jogo da transformação digital vivida por startups e empresas de tecnologia.
A transição da tecnologia para a economia tradicional
Muitos fundadores que construíram empresas sólidas ao longo de décadas chegam à aposentadoria sem alguém para dar continuidade ao negócio. Em muitos casos, os filhos seguiram outros caminhos profissionais e não têm interesse em assumir a empresa da família.
Uma reportagem recente da Forbes internacional mostra que esse movimento já começa a ganhar força nos Estados Unidos, onde jovens profissionais estão deixando cargos corporativos em empresas de tecnologia para comprar empresas de setores como metalurgia, manutenção industrial, serviços profissionais e outros negócios pouco glamourosos, mas com receita recorrente e uma carteira de clientes consolidada.
Esse tipo de transição pode se tornar cada vez mais comum também no Brasil, tendo em vista que muitos profissionais que passaram pelos primeiros ciclos de adoção de IA dentro de empresas de tecnologia carregam um repertório valioso, sabem estruturar processos, automatizar rotinas e liderar times em meio a mudança.
Esse know-how, aplicado a um negócio tradicional que nunca passou por uma transformação digital de verdade, tem potencial de gerar um salto de eficiência considerável.
A travessia para essa transformação pode exigir capital, paciência para lidar com uma operação física e disposição para aprender um setor do zero.
Mas é justamente essa disposição para lidar com incerteza e mudança rápida, treinada nos anos de tecnologia, que pode ajudar o profissional competente a transformar um negócio tradicional em algo relevante para a próxima década.
Aliada a uma concorrência que está há anos de distância das melhores práticas de gestão do Vale do Silício ou de Israel, pode ser um excelente diferencial.
O impacto da inteligência artificial vai muito além dos cortes nas empresas de tecnologia.
Talvez a principal mudança seja obrigar profissionais a olhar para oportunidades que, até pouco tempo atrás, eram ignoradas. Nem sempre o melhor caminho é disputar espaço onde todos estão tentando voltar.
*João Chebante é CEO da Sinergis, empresa brasileira especializada em revenda de software e consultoria estratégica para a transformação digital.