2ª ou 3ª onda? Pouco importa: a luz no fim do túnel continua bem distante

Número de mortes se estabilizou em um patamar alto demais para dar como terminada a segunda onda, mas uma terceira já parece se iniciar

Por Marcelo Tokarski*

O recente crescimento do número de pessoas internadas com covid-19 tanto em leitos comuns quanto em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) tem levantado a suspeita de que o Brasil pode estar entrando na terceira onda da pandemia. Mas a verdade é que, infelizmente, ainda nem saímos da segunda onda. Nos últimos dez dias, a média móvel de mortes por coronavírus se estabilizou ao redor do patamar de 1.900 óbitos diários, o que é um nível muito elevado para se dizer que a segunda onda acabou.

É verdade que o patamar é bastante inferior às 3.124 mortes por dia registradas no final de abril, mas em compensação é quase duas vezes maior que o platô de mil óbitos diários ocorridos entre o final de maio e o final de agosto do ano passado, quando o país passou pela primeira onda da pandemia. Para se ter uma ideia, na primeira onda chegamos a cair para algo ao redor de 300 mortes diárias, em novembro do ano passado.

A atual queda no número de óbitos levou estados e municípios a flexibilizarem novamente as medidas restritivas de circulação ao longo do mês de maio, o que tem levado a média nacional de casos a crescer ao longo dos últimos 30 dias. Hoje, são registrados em média 61,1 mil novos casos, quase 10 mil a mais por dia na comparação com o final de abril.

E o pior: o Brasil já detectou a presença da variante indiana, diagnosticada em marinheiros de um navio que chegou da Malásia e aportou em São Luís, no Maranhão. O temor dos especialistas é que a nova cepa possa acelerar o número de casos e mortes no Brasil, como ocorreu em janeiro em Manaus, com a variante P1, o que provocaria um repique da segunda onda (o que alguns chamam de terceira onda).

Na semana passada, apenas o Estado de Pernambuco estava com o contágio em aceleração, quando se compara a atual média móvel de mortes com a de duas semanas atrás. Neste domingo, além de Pernambuco, Piauí e o Amapá estão com alta superior a 15% no número de vítimas. Apenas cinco unidades da federação estão com desaceleração: Acre, Pará e Tocantins, na região Norte; Paraná, na região Sul; e o Distrito Federal, no Centro-Oeste. Os demais estados hoje apresentam alguma estabilidade nos números.

Na última semana, segundo estatísticas do Worldometers, o Brasil registrou 63 novas mortes por covid-19 para cada 1 milhão de habitantes. Proporcionalmente ao tamanho da população, neste triste ranking estamos atrás apenas de nações sul-americanas, como Uruguai (113 por milhão), Paraguai (97), Argentina (75) e Colômbia (67).

As próximas duas semanas serão cruciais para entendermos se o número de mortes no Brasil voltará a cair forte, se entramos em um elevado platô ou se estamos diante do recrudescimento da pandemia. O mais provável é que estejamos entre a segunda e a terceira hipótese, o que não é nada bom.

Vacinação segue lenta

 O fato é que só teremos certa tranquilidade quando atingirmos pelo menos 50% ou 60% da população vacinada. E ainda estamos muito distantes disso. Embora quase 20% dos brasileiros acima dos 16 anos já tenham recebido pelo menos a primeira dose, apenas 9,7% da população já receberam as duas doses, estando, portanto, imunizados.

Para piorar, o ritmo da vacinação segue bem aquém do esperado. No final de abril, chegamos a ter uma média de mais de 1 milhão de doses aplicadas por dia. Desde o início de maio, o Programa Nacional de Imunização (PNI) perdeu velocidade e há dez dias patina na média ao redor de 680 mil doses por dia. Ou seja, a velocidade da imunização diminuiu quase um terço. E isso tem ocorrido não porque o sistema não tenha capacidade de aplicar as vacinas, mas sim porque faltam doses em muitas partes do país.

No ritmo atual, levaríamos dois meses para dobrar o número de imunizados com duas doses, chegando a 20% da população. Para atingirmos pelo menos metade dos brasileiros, levaríamos oito meses. Ou seja, caso a vacinação não acelere, somente no fim de janeiro teríamos metade dos brasileiros vacinados (com as duas doses necessárias à imunização).

Diante desse cenário, pouco importa saber se estamos diante de um repique ou de uma nova onda da pandemia. O que todos devem estar cientes é que o coronavírus continua circulando livremente pelo país, e que a grande maioria da população ainda é suscetível ao vírus, tanto por não ter contraído a doença quanto por não ter sido vacinada. Pelo visto, o caminho para alguma normalidade parece ainda tortuoso e bastante longo.

*Marcelo Tokarski é sócio-diretor do Instituto FSB Pesquisa e da FSB Inteligência

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