Brasil

SP abre consulta pública para política de imigrantes

Texto foi elogiado por especialistas e entidades do setor, mas visto com ceticismo por causa da abrangência de suas propostas


	Imigração: a ideia principal do documento é consolidar projetos e propostas já existentes na capital
 (Thinkstock/Thinkstock)

Imigração: a ideia principal do documento é consolidar projetos e propostas já existentes na capital (Thinkstock/Thinkstock)

DR

Da Redação

Publicado em 16 de fevereiro de 2016 às 19h27.

São Paulo - A Prefeitura de São Paulo abriu consulta pública para a criação da primeira política para a população imigrante da capital na última sexta-feira, 12.

O documento, disponível para receber sugestões até o dia 4 de março, prevê a criação de cursos de Português, inserção de materiais pedagógicos sobre imigração nas escolas municipais, cursos preparatórios para vestibular, parceria com universidades públicas para revalidação de diplomas e até a contratação de estrangeiros nos equipamentos públicos que atendam a esta população.

O texto foi elogiado por especialistas e entidades do setor, mas visto com ceticismo por causa da abrangência de suas propostas.

A ideia principal do documento é consolidar projetos e propostas já existentes na capital, mas que são realizadas de maneira pontual ou sem interligação entre as secretarias.

"Nossa preocupação é de institucionalizar essas boas práticas e criar outras que ainda não fizemos neste período", explica o coordenador de políticas para migrantes da Secretaria de Direitos Humanos, Paulo Illes.

A proposta foi elaborada entre 13 secretariais municipais e 13 entidades de direitos humanos ligadas aos imigrantes.

O projeto, que ainda passará pela Câmara, prevê uma série de diretrizes sobre o acesso dos imigrantes aos serviços públicos, inclusive com a perspectiva da criação da figura do "mediador cultural", um profissional que atuaria em todos os órgãos que tenham imigrantes, facilitando a comunicação nos dialetos mais específicos.

Além disso, uma das metas do documento é desburocratizar o acesso aos serviços, garantindo que um imigrante com documentos do país de origem, por exemplo, possa ser atendido.

Hoje a cidade já conta com um Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes (Crai), administrado pelo poder público municipal, além de casas de acolhida oferecidas por entidades ligadas a igrejas.

Com a aprovação da lei, o Crai deve se expandir com unidades móveis para outras regiões da cidade, além de consolidar parcerias com as entidades.

Na Educação, a Prefeitura espera apoio com recursos do governo federal. Neste ano serão abertas cerca de 600 vagas em cursos de Português, com apoio do Ministério da Justiça.

Já para a validação de diplomas estrangeiros, a aposta é universidades públicas estaduais. De acordo com Illes, a Universidade Federal do ABC (UFABC) já realiza o processo, por meio de readaptação dos cursos.

Para a coordenadora do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante, entidade que atende esta população na zona leste da cidade, Tania Rocio, a política é positiva, mas precisa de elementos mais concretos para garantir que seja implementada.

"Hoje já existem os cursos de Português, mas é preciso que eles também cheguem ao alcance das regiões mais periféricas, onde já há imigrantes. Isso precisa ser discutido" comenta.

Letícia Carvalho, uma das porta-vozes da Missão Paz, que atende imigrantes no bairro do Glicério, região central, aponta que a lei pode trazer mais visibilidade aos problemas, também acredita que faltam garantias.

"Muito já foi discutido sobre o tema e não vemos muita operacionalidade", disse. Ela critica a falta de políticas mais efetivas na habitação. "É um das maiores dificuldades. Quando eles chegam, não têm onde ficar".

Outra proposta do documento é a de mapear os movimentos de imigração na capital. A estimativa da Prefeitura é de haja pelo menos 500 mil imigrantes em São Paulo, embora ainda não exista um levantamento oficial.

Uma pesquisa já está sendo feita em parceria com a Faculdade Santa Marcelina para apontar os principais bairros onde está essa população.

Dificuldades

A dificuldade com o idioma e o preconceito fizeram com que a dançarina colombiana Marcela Tatiana, 25 anos, e sua mãe, Luzmary Ramos, de 55, tivessem dificuldade em se adaptar em São Paulo.

A mãe chegou à capital em 2012 e a filha, em 2014, ambas em busca de trabalho.

Até agora não conseguiram se estabilizar em nenhum emprego. Elas dividem um quarto na República, região central de São Paulo, pelo qual pagam R$ 1100.

Para bancar o aluguel, dividem-se em trabalhos temporários - Luz Mary recebe R$ 500 por mês para limpar uma casa duas vezes por semana.

"É difícil conseguir emprego, muita gente nos vê como se fôssemos bandidos. E quando não é o preconceito, reclamam do Português", diz Marcela, que disse ter sido rejeitada em diversas entrevistas.

Ela quer dar aulas de dança para crianças. Outra reclamação frequenta é a falta de lazer. "Só ficamos aqui no centro da cidade. Não temos dinheiro para ônibus", diz a mãe.

Acompanhe tudo sobre:cidades-brasileirasMetrópoles globaisImigraçãoSão Paulo capitalDireitos Humanos

Mais de Brasil

STF critica fala de Milei contra Moraes após convenção do PL em São Paulo

Missão eleitoral dos EUA sem convite seria 'interferência indevida', diz especialista

Lula sobe o tom sobre eleições: 'quem quiser se meter, vai apanhar muito'

'Em 2027, Jair Bolsonaro vai subir a rampa do Planalto', diz Flávio ao lançar candidatura