Presidente Lula (ao centro) com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e outros chefes de Estado durante conferência sobre IA
Editor de Macroeconomia
Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 09h04.
Nova Délhi* – Em seu primeiro compromisso oficial na Índia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um discurso com forte tom político e geopolítico na Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial, realizada no centro de convenções Bharat Mandapam.
Diante de líderes globais, Lula defendeu uma governança multilateral para a IA, criticou a concentração de poder nas grandes empresas de tecnologia e alertou para os riscos da desinformação digital às democracias.
“Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação”, afirmou o presidente, em uma das frases mais contundentes do discurso.
Ao abrir sua fala na Cúpula, Lula destacou o simbolismo de o encontro ocorrer pela primeira vez no Sul Global. “Aqui em Délhi, o mundo digital retorna à sua terra natal”, afirmou, lembrando a contribuição histórica da matemática indiana ao desenvolvimento da computação moderna.
Em tom quase filosófico, o presidente afirmou que as sociedades estão diante de uma encruzilhada: ou constroem uma governança internacional da inteligência artificial que seja multilateral, inclusiva e orientada ao desenvolvimento, ou assistirão ao aprofundamento das desigualdades e à erosão democrática.
Segundo ele, a revolução digital e a Inteligência Artificial elevam ampliarão a produtividade industrial, os serviços públicos, a medicina, a segurança alimentar e energética e a forma como conectamos uns com os outros.
"Mas também podem fomentar práticas extremamente nefastas, como o emprego de armas autônomas, discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil, feminicídio, violência contra mulheres e meninas e precarização do trabalho", afirmou.
Para Lula, a chamada Quarta Revolução Industrial avança em um momento de retração do multilateralismo, o que torna a governança da inteligência artificial uma questão estratégica.
Ele argumentou que os algoritmos deixaram de ser apenas ferramentas técnicas e passaram a integrar “uma complexa estrutura de poder”.
O presidente citou dados da União Internacional de Telecomunicações segundo os quais 2,6 bilhões de pessoas ainda estão desconectadas do universo digital. Sem ação coordenada, afirmou, a IA pode aprofundar desigualdades históricas.
Além dos benefícios potenciais — como ganhos de produtividade, avanços na medicina e melhorias em serviços públicos — Lula ressaltou o “caráter dual” da tecnologia.
Segundo ele, conteúdos falsos manipulados por IA já distorcem processos eleitorais e ameaçam a democracia, além de possibilitar usos como armas autônomas, discursos de ódio e exploração de dados pessoais.
No campo regulatório, Lula defendeu a necessidade de enquadramento das chamadas big techs, cujo modelo de negócios, segundo ele, depende da exploração de dados pessoais e da monetização de conteúdos que amplificam a radicalização política.
"A regulamentação das chamadas “Big Techs” está ligada ao imperativo de salvaguardar os direitos humanos na esfera digital, promover a integridade da informação e proteger as indústrias criativas de nossos países", afirmou o presidente brasileiro.
Segundo Lula, o modelo atual de negócios dessas empresas depende da exploração de dados pessoais, da renúncia do direito à privacidade e da monetização de conteúdos chamativos que amplificam a radicalização política.
O presidente lembrou que o Congresso brasileiro discute um marco regulatório para a inteligência artificial e uma política de atração de investimentos em centros de dados.
Lula se encontrou no evento com o CEO global do Google, Sundar Pichai, que nasceu na Índia e esteve no evento.
Lula, durante encontro com o CEO do Google, Sundar Pichai, na Índia
Segundo Lula, a posição brasileira também tem sido defendida em fóruns internacionais, como a declaração sobre IA aprovada na Cúpula do BRICS no Rio de Janeiro e nas discussões no âmbito das Nações Unidas, que ele considera o foro mais legítimo para uma governança global inclusiva.
A Cúpula em Nova Délhi integra o chamado Processo de Bletchley, série de encontros intergovernamentais iniciada no Reino Unido em 2023 para discutir segurança e governança da IA.
Esta é a primeira vez que um presidente brasileiro participa de um evento global de alto nível sobre o tema.
A visita de Lula ocorre em um momento de intensificação das relações entre Brasil e Índia. O comércio bilateral atingiu US$ 15 bilhões em 2025, alta de 25,5% em relação ao ano anterior, o maior valor da série histórica. A meta conjunta é chegar a US$ 20 bilhões até 2030.
A Índia, hoje o país mais populoso do mundo, com 1,4 bilhão de habitantes, é a quarta maior economia global, com PIB estimado em US$ 4,2 trilhões.
A agenda bilateral inclui cooperação em transformação digital, ciência e tecnologia, transição energética e segurança alimentar — temas alinhados aos cinco pilares estratégicos definidos pelos dois governos.
Após a participação na Cúpula, Lula terá uma agenda bilateral com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, com quem discutirá a expansão das parcerias econômicas e tecnológicas, além de temas como reforma da governança global e fortalecimento das Nações Unidas.
À margem do evento, Lula também se reuniu com o primeiro-ministro da Croácia, Andrej Plenković.
Os dois líderes defenderam a rápida entrada em vigor do acordo de comércio Mercosul-União Europeia, considerado estratégico diante do avanço do protecionismo e do unilateralismo comercial.
Na conversa, também trataram de temas ligados à paz e segurança internacional. Lula voltou a criticar os elevados gastos globais com armamentos e reforçou a necessidade de fortalecer o sistema multilateral.
* O jornalista viajou a convite da ApexBrasil