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Mote bolsonarista para o Senado, impeachment de Moraes causa embaraços entre aliados para 2026

Nomes como Derrite em São Paulo e Castro no Rio são instados a abraçar a pauta, enquanto outros postulantes a endossam a fim de ganhar moral no bolsonarismo

O ministro Alexandre de Moraes teve cartão de bandeira americana bloqueado ( Rosinei Coutinho/STF)

O ministro Alexandre de Moraes teve cartão de bandeira americana bloqueado ( Rosinei Coutinho/STF)

Agência o Globo
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Agência de notícias

Publicado em 17 de agosto de 2025 às 09h34.

A pressão do bolsonarismo pelo impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), vem criando embaraços a candidatos ao Senado que buscam apoio de eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2026. Em estados como Rio, São Paulo, Mato Grosso e Paraíba, pré-candidatos que não endossavam a medida contra Moraes passaram a ser cobrados a adotar posicionamentos mais críticos ao STF. Em outra frente, senadores que buscarão a reeleição sob a concorrência de bolsonaristas abraçam propostas para derrubar o ministro.

Em São Paulo, a hesitação do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em criticar o Supremo já causa desdobramentos na corrida pelo Senado. Favorito dele para concorrer a uma das vagas, o secretário estadual de Segurança, Guilherme Derrite (PP), é alvo de cobranças veladas no bolsonarismo.

Um dos cotados para se lançar a senador, o deputado estadual Gil Diniz (PL-SP) criticou pré-candidatos que não participaram, neste mês, das manifestações cuja pauta incluiu um desagravo a Bolsonaro e ataques ao STF. Diniz e o deputado federal Marco Feliciano (PL-SP), outro nome ventilado, estiveram no ato da Avenida Paulista. Derrite e Tarcísio, por sua vez, se ausentaram.

— A pauta do impeachment de Moraes é o item número um para o eleitor bolsonarista na corrida ao Senado. Estou sentindo falta da manifestação de alguns pré-candidatos. Se hoje eles silenciam, por que vão falar no assunto caso sejam eleitos? — argumenta Diniz.

Outro cenário de saia-justa é o Rio, estado em que o governador Cláudio Castro (PL) almeja se lançar ao Senado apesar da desconfiança de aliados de Bolsonaro. Castro jamais adotou uma postura bélica contra a Corte, que trancou no ano passado inquéritos que apuravam supostos repasses de propina envolvendo o governador do Rio — ele sempre negou quaisquer irregularidades. O mandatário também depende da Corte para a questão fiscal do estado. Já no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), enfrentará em breve o julgamento do caso Ceperj, no qual é acusado de promover um esquema eleitoreiro no órgão para ser reeleito em 2022.

Após o fim da licença do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Castro chegou a acenar com a hipótese de nomeá-lo secretário estadual no Rio para que ele pudesse seguir nos EUA — onde comanda uma ofensiva contra o STF — sem o risco de cassação. O governador recuou, no entanto, alegando entraves burocráticos para uma nomeação à distância. Interlocutores de Bolsonaro avaliam, contudo, que Castro fez um “jogo de cena” de afagar o ex-presidente sem gerar efeitos práticos, a fim de não melindrar a Corte.

A postura de Castro vem sendo criticada por concorrentes à vaga, como o atual senador Carlos Portinho (PL-RJ) e o deputado federal Sóstenes Cavalcante (RJ), líder do PL na Câmara, que cobram uma atitude mais combativa contra o Supremo. Segundo Sóstenes, o governador fez gestos “nobres” ao ex-presidente “em um momento difícil”, mas ainda não superou as desconfianças.

— Com ele virando senador, a principal preocupação nossa é que talvez tenha limitação para abraçar a agenda. Queremos senadores que não tenham comprometimento com ministros do STF. A preocupação com o Cláudio é essa — afirma o líder do PL.

Outro governador que avalia se candidatar ao Senado em 2026, Mauro Mendes (União), de Mato Grosso, criticou na semana passada o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), por se recusar a pautar pedidos de impeachment contra Moraes. Embora sejam colegas de partido, Mendes acusou Alcolumbre de “autoritarismo”.

O governador, no entanto, tem evitado criticar diretamente ministros do Supremo e mantém interlocução com integrantes da Corte. Segundo a colunista Malu Gaspar, do GLOBO, ele tentou intermediar um encontro entre Bolsonaro e o ministro Gilmar Mendes, que acabou frustrado pela imposição de tornozeleira eletrônica ao ex-presidente. Após a derrota de Bolsonaro em 2022, Mauro Mendes também incomodou os bolsonaristas ao ser questionado sobre acampamentos de teor golpista diante de quartéis e afirmar que iria “deixar o Xandão cuidar disso”.

Outros postulantes à vaga ao Senado, como o ex-deputado José Medeiros (PL), intensificaram o pedido para que eleitores bolsonaristas optem por candidatos que tratem a Corte como adversária:

“Precisamos remodelar o Senado com pessoas que tenham coragem de colocar vários ministros do Supremo no lugar deles”, afirmou Medeiros em uma rede social.

No vizinho Mato Grosso do Sul, a senadora Soraya Thronicke (União), que busca se reeleger no próximo ano, fez uma publicação reclamando de “chantagens perversas que colocam em risco toda a população brasileira”, em referência à pressão para apoiar o impeachment de Moraes. Soraya se elegeu em 2018 com apoio de Bolsonaro e chegou a se mostrar favorável ao impeachment do ministro no início de 2020. Ela, no entanto, rompeu com o ex-presidente na pandemia e virou crítica dos enfrentamentos de Bolsonaro com o Judiciário.

Na semana passada, Soraya acusou “políticos sem escrúpulos” de tentarem manobrar a pauta do Congresso “para se safarem da iminente prisão”. A senadora, no entanto, fez um aceno ao eleitorado bolsonarista na mesma semana e, em outra publicação nas redes sociais, destacou que havia “assinado um pedido contra decisão de Moraes” — o pedido, porém, é para retirada da tornozeleira eletrônica do também senador Marcos do Val (Podemos-ES), alvo de medida cautelar do ministro do Supremo.

Freio na concorrência

Na Paraíba, o senador Efraim Filho (União) anunciou sua assinatura ao pedido de impeachment de Moraes após pressão de aliados do PL, com o qual costura uma aliança. Questionado sobre o assunto pela imprensa local, afirmou que o impeachment é uma alternativa “se precisar coibir os excessos” de outro Poder.

Já no Rio Grande do Sul, o governador Eduardo Leite (PSD) se posicionou de forma contrária ao impeachment de Moraes, mas tem defendido limitações a decisões monocráticas de ministros e a possibilidade de estipular mandatos na Corte, pautas hoje abraçadas pelo bolsonarismo. Leite avalia concorrer ao Senado em 2026, caso não seja lançado como candidato à Presidência por seu partido.

Em outros estados que votaram majoritariamente em Bolsonaro na última eleição, senadores abraçaram a defesa ao impeachment de Moraes a fim de frear a concorrência do bolsonarismo por suas próprias cadeiras.

Em Santa Catarina, por exemplo, o senador Esperidião Amin (PP) passou a defender que se “coloque um freio de arrumação” na atuação do Supremo e que uma eventual abertura de processo de impeachment levaria à “autocontenção do Judiciário”. Amin pode ter a concorrência das deputadas federais Carol de Toni e Julia Zanatta, ambas do PL, pelas duas vagas em disputa. Outra hipótese é a candidatura de um dos filhos do ex-presidente, o vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL), que avalia migrar para o estado.

Já em Roraima, estado para o qual Bolsonaro também avalia “exportar” um aliado de confiança, o senador Mecias de Jesus (Republicanos) anunciou apoio ao impeachment de Moraes ao lado de lideranças do bolsonarismo, como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em vídeo, Mecias procurou frisar alinhamento ao bolsonarismo e justificou que o impeachment seria uma forma de cessar “perseguições”. Um dos possíveis concorrentes dele na briga pela reeleição em 2026 é o deputado federal Hélio Lopes (PL-RJ), que pode se candidatar por Roraima.

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