Brasil

Lula subestimou Flávio e comando da campanha precisa ser demitido, diz cientista político

Aldo Fornazieri vê pequena chance de virada, critica estratégia petista no primeiro turno e diz que avanço da direita foi planejado por anos

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República e candidato do PT, e Flávio Bolsonaro, senador e candidato do PL: os dois disputarão o segundo turno da eleição presidencial em 25 de outubro (Ricardo Stuckert/Vittor Sales)

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República e candidato do PT, e Flávio Bolsonaro, senador e candidato do PL: os dois disputarão o segundo turno da eleição presidencial em 25 de outubro (Ricardo Stuckert/Vittor Sales)

Ivan Martínez-Vargas
Ivan Martínez-Vargas

Repórter especial em Brasília

Publicado em 6 de outubro de 2026 às 09h00.

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O cientista político Aldo Fornazieri conhece bem o Partido dos Trabalhadores: é próximo de parlamentares, ex-dirigentes e lideranças da sigla. Estudioso de lideranças políticas há décadas, ele diz, em entrevista à EXAME, que o desempenho de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno e o avanço da direita no Congresso são resultado de uma estratégia construída ao longo dos últimos anos e também de erros da campanha e do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Para Fornazieri, que é professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), a desvantagem do petista é difícil de reverter e isso só será possível com uma mudança profunda que exigiria a saída do comando da campanha e do partido.

Como você avalia o desempenho da direita, especialmente do PL, nas eleições para o Congresso?

O PL construiu uma estratégia para fazer uma grande bancada no Congresso há anos, principalmente no Senado, mas também na Câmara. O Centrão e a esquerda comeram bola e só foram pensar nisso no último ano. Foi uma estratégia consciente e com planejamento da direita bolsonarista, e há de se reconhecer isso. Jair Bolsonaro, mesmo antes de ser preso, vinha trabalhando nessa estratégia. Não há coisas espontâneas na política, vence quem está mais preparado.

O resultado do primeiro turno, com Flávio Bolsonaro à frente de Lula, surpreendeu você?

Na sexta-feira à noite, para mim, era claro que Flávio Bolsonaro chegaria em primeiro lugar no primeiro turno porque, a despeito dos números das pesquisas, elas mostravam, na reta final da campanha, um movimento do eleitorado em seu favor. A tendência era essa.

Esses movimentos de chegada têm sido surpreendentes nos últimos dias antes da eleição. O movimento nas últimas duas semanas, em especial nesta última, era de crescimento do Flávio Bolsonaro e de estagnação do Lula, se não de perda. Essa performance de chegada tem um efeito de arrasto, uma avalanche que arrasta deputados, governadores e senadores.

Qual é o cenário para o segundo turno? Lula ainda tem chances de virar a disputa?

Penso que a chance de uma virada de Lula no segundo turno é muito pequena. A primeira pesquisa deste segundo turno já deve mostrar Flávio até cinco pontos à frente, provavelmente. Há, sim, votos disponíveis para Lula virar, mas a campanha do Lula foi muito ruim do começo ao fim, com uma série de erros.

Em seu discurso após os resultados, Lula admitiu que imaginava que ganharia no primeiro turno, e aliados dizem que ele não admitia a possibilidade de derrota para um político como Flávio Bolsonaro, que tinha menos expressão nacional. Ele subestimou Flávio?

Sim, há uma arrogância que transparece nesse discurso do Lula e isso não ajuda. O Jair Bolsonaro é claramente mais carismático que o Flávio, mas esse filho dele tem muito mais capacidade política que o pai, em termos de persuasão e de articulação. A campanha de Lula e o PT julgaram o Flávio mal, o viram como alguém mais fraco que o pai e um alvo mais fácil de ser derrotado e desmontado no segundo turno.

Não só não destruíram nada, como também perderam para ele nos votos. O PT não conheceu nem estudou o Flávio que estava na campanha; subestimaram a figura, tratando-o como um apêndice do pai. Em política, é essencial conhecer bem o seu adversário.

Cientista político Aldo Fornazieri (Divulgação/Fespsp)

O que Lula deveria fazer na campanha do segundo turno?

Para começar, o Sidônio deveria ser demitido e o Edinho Silva, presidente do PT, deveria renunciar às suas funções nesta campanha. Ao menos o marqueteiro, Raul Rabelo, ligado a Sidônio, deveria sair. Foi ruim o desempenho do ministro da Comunicação do governo e a campanha do Lula foi realmente muito ruim.

O principal erro da campanha é não perceber que importa muito se o governo está mal ou bem avaliado numa disputa à reeleição. Se está mais mal avaliado, como estava o Lula, é um indicativo de que o eleitorado quer mudança. Era essa, desde o início, a conjuntura da eleição.

O primeiro turno, para um candidato que concorre à reeleição, serve para o incumbente melhorar a percepção sobre seu governo e, para isso, a campanha é importante. Isso não aconteceu na campanha do Lula, que foi difusa, sem estratégia, fraca no conteúdo e desastrada na forma.

Não vejo capacidade dessa equipe de comunicação de seguir na campanha do segundo turno. Eles ficaram com fórmulas antigas, musiquinhas e jingles, mais do que com estratégia de comunicação. Foi medíocre a campanha em rádio e TV também, que falou de muitos assuntos que não dialogam com a população.

Para ter alguma chance, a campanha teria que melhorar extraordinariamente para impactar positivamente na avaliação de governo, mas o tempo é curto. Até agora, só se perdeu tempo. A campanha precisaria escolher dois ou três pontos fortes deste governo e martelar como marcas e duas ou três fortes promessas de futuro também. É preciso falar de mudança para o futuro.

Há outros erros desta campanha e deste governo. Faltou mobilizar os movimentos sociais de base, os sindicatos.

Mas o governo chegou a adotar medidas como o reajuste do Bolsa Família e o fim das bets, e prometeu o fim da escala 6x1 no futuro. Por que nada disso surtiu o efeito esperado?

Porque foi artificialismo de última hora. O Desenrola, o reajuste do Bolsa Família e o fim das bets não funcionaram porque vieram como uma resposta eleitoreira às vésperas da eleição. Não adianta subestimar a inteligência do eleitor.

Que tipo de disputa você espera no segundo turno?

Agora, no segundo turno, esta será uma disputa de rejeição, e cada um dos candidatos vai tentar aumentar a rejeição do outro. O governo Lula, porém, não tem bala de prata nesse campo porque, embora seja um político notoriamente envolvido em escândalos de corrupção, Flávio Bolsonaro conseguiu se livrar disso a ponto de poder empunhar a bandeira anticorrupção. Ele foi esperto, principalmente ao capitalizar a crise do STF e se desvencilhar da pecha do caso Master, mesmo tendo sido o único candidato que de fato tinha uma relação com Daniel Vorcaro a ponto de pedir e receber dinheiro dele.

A crise do STF puniu Lula eleitoralmente?

Sim, mas aí também foi um erro do governo. Edinho e Lula, a todo momento, falaram do STF. Lula declarou várias vezes que cobrou pessoalmente Edson Fachin (presidente do STF), que disse a Alexandre de Moraes que devia uma explicação (sobre a relação do ministro com Daniel Vorcaro). Ele se colocou na crise.

Veja se Flávio Bolsonaro disse que André Mendonça, sob quem também pesam suspeitas, tinha de se explicar. Pelo contrário. O PT deu uma de moralista onde não deveria dar e deixou de combater a corrupção onde de fato deveria.

O desempenho da economia teve seu papel nesse cenário eleitoral?

Sim, e nessa área o peso maior foi o custo de vida, que tem punido governos mundo afora, não apenas no Brasil. Aqui, o problema foi o governo ter demorado para fazer medidas que realmente dessem uma resposta ao problema.

O custo de vida foi explorado por Flávio mesmo com o governo Bolsonaro tendo registrado inflação mais alta, e a campanha de Lula dormiu no ponto ao ser só reativa nesse sentido.

Como seria o quadro político brasileiro em um eventual governo de Flávio Bolsonaro?

Se Flávio ganhar, será o início de uma longa hegemonia da direita. Ele dominará o Executivo e o Legislativo de entrada e também almejará o controle do Judiciário. E, além dele, a direita projeta novas lideranças o tempo todo. Nikolas Ferreira, Lucas Pavanatto, Michelle Bolsonaro mostram isso.

E, do outro lado, à esquerda, os nomes que surgem não estão mais ligados ao PT, que hoje é um partido em declínio justamente por não ter conseguido renovar seus quadros e lideranças.

Minha dúvida em relação à esquerda é sobre o que acontecerá com o PSOL, que formou lideranças jovens. O partido vai ter coragem e ousadia de ser protagonista e não ficar à sombra do PT?

Com um Senado mais à direita a partir de 2027, quais podem ser as consequências para a relação com o Supremo Tribunal Federal?

Num eventual governo Flávio, o PL tem tudo para conquistar a presidência do Senado e poderá colocar na pauta e na agenda política do país o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, que tem chance real de ocorrer. O bloco parlamentar que será formado por PL, Novo, somados a boa parte de PP e Republicanos, consegue aprovar esse impeachment.

Embora esses partidos do Centrão não façam do STF seu foco principal, estão suscetíveis ao impeachment de Alexandre de Moraes. Os demais ministros, por mais que tenham suspeitas, não estão na linha de tiro do bolsonarismo. Flávio Dino está, mas não há base factual para um impeachment dele.

O Centrão perdeu força na eleição. Por quê?

De fato, o Centrão sai menor. No caso do PSD, o Kassab errou na escolha do candidato à Presidência e pagou um preço por isso. A visão dele de ter um nome para preencher o vácuo de liderança em 2030 era correta, mas o candidato escolhido não empolgou.

Havia um eleitorado disponível para ser capturado por um candidato que falasse ao eleitor cansado, mas o Caiado não o fez. Renan Santos, sem estrutura partidária, fez um jogo pensando em 2030.

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