Lula e Jair: petista tem cenário melhor que o antecessor na disputa pela reeleição (Renato Pizzutto/Band/Divulgação)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 12 de agosto de 2026 às 17h16.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega à disputa eleitoral de 2026 em uma situação mais competitiva do que a enfrentada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no mesmo período da campanha de 2022, segundo Marcelo Souza, diretor do instituto MDA, em entrevista à EXAME.
Reconhecido por ser um dos institutos que acertou a eleição de 2022, o MDA soltou uma nova rodada nesta terça-feira, 11, que mostra Lula com 42,3% das intenções de voto no primeiro turno contra 28,7% de Flávio Bolsonaro (PL).
Além do dado quantitativo de intenção de votos, o instituto também comparou os percentuais de aprovação e avaliação dos incumbentes antes de cada eleição.
Em agosto deste ano, 35% dos entrevistados avaliam o governo Lula como ótimo ou bom, enquanto 36% consideram a gestão ruim ou péssima, uma diferença negativa de 1 ponto percentual.
No mesmo período de 2022, Bolsonaro tinha uma situação mais desfavorável. A avaliação positiva de seu governo era de 33%, ante 42% de ruim ou péssimo — saldo negativo de 9 pontos. Os dados fazem parte da série histórica da Pesquisa CNT de Opinião, realizada pela MDA.
A diferença também aparece quando a pesquisa pergunta diretamente se o entrevistado aprova ou desaprova o desempenho do governo. Lula tem 47% de aprovação e 48% de desaprovação em agosto de 2026, praticamente um empate dentro desse indicador. Em agosto de 2022, Bolsonaro tinha 41% de aprovação e 55% de desaprovação.
Na comparação entre os dois períodos, portanto, o saldo entre aprovação e desaprovação de Lula é de 1 ponto negativo, ante 14 pontos negativos de Bolsonaro em agosto de 2022.Para Souza, a diferença ajuda a mostrar que Lula chega ao atual estágio da disputa em condições melhores que Bolsonaro há quatro anos. Mas o diretor da MDA ressalta que a avaliação de um governo, isoladamente, perdeu capacidade de antecipar o resultado de uma eleição presidencial marcada por forte polarização.
“Essa regra continua válida, mas não tanto mais para uma eleição presidencial”, afirma Souza.
Segundo ele, a eleição de 2022 já mostrou essa mudança. Mesmo com desaprovação superior à aprovação e avaliação negativa maior que a positiva, Bolsonaro chegou competitivo à reta final da disputa.
“Se você for ver, em agosto de 2022, nesse mesmo período, o Jair Bolsonaro tinha 33% de ótimo e bom e 42% de ruim e péssimo. Ou seja, um cenário pior do que o do Lula”, afirma.
A série histórica mostra que Bolsonaro reduziu parte dessa diferença até a reta final da campanha. Em outubro de 2022, a avaliação positiva chegou a 35%, enquanto a negativa ficou em 40%. O saldo entre ótimo/bom e ruim/péssimo, portanto, passou de 9 pontos negativos em agosto para 5 pontos negativos em outubro.
“O Jair Bolsonaro chega no final de 2022 com um saldo negativo de menos cinco em termos de ótimo e bom versus ruim e péssimo. E, mesmo assim, foi competitivo”, diz Souza.No indicador de aprovação, porém, a diferença permaneceu. Bolsonaro tinha 41% de aprovação e 55% de desaprovação tanto em agosto quanto em outubro de 2022, segundo a série da CNT/MDA. O saldo negativo era de 14 pontos.
“Mas por que ele foi competitivo mesmo dessa forma? Por causa do medo de o Lula voltar”, afirma Souza.
Para o diretor da MDA, a experiência de 2022 ajuda a compreender o comportamento do eleitor em 2026. A avaliação é que uma parcela do eleitorado pode desaprovar o governo e, ao mesmo tempo, escolher o presidente na eleição por rejeitar a alternativa apresentada pelo campo adversário.
“Várias pessoas que em 2022 desaprovavam Jair Bolsonaro votaram nele. Como o Lula este ano também: a gente já observa pessoas que desaprovam o governo Lula, mas votam nele”, afirma.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que, na avaliação de Souza, a eleição de 2026 não deve funcionar apenas como um plebiscito sobre os quatro anos de governo Lula.
“Não é muito uma eleição plebiscitária em relação ao governo Lula. É mais uma eleição de comparação, de contenção de riscos, de danos, onde a gente vê pessoas que desaprovam o Lula, mas votam nele exatamente por uma comparação com o governo anterior”, afirma.
A própria evolução da aprovação de Lula mostra uma recuperação em relação ao pior momento do atual mandato, registrado pela série da CNT/MDA. Em fevereiro de 2025, 40% aprovavam e 55% desaprovavam o governo. A aprovação avançou para 44% em setembro, 48% em novembro e chegou a 49% em junho de 2026, quando superou os 46% de desaprovação. Em agosto, os índices passaram para 47% e 48%, respectivamente.
O movimento, no entanto, não elimina a insatisfação de parte dos eleitores. Souza afirma que a decisão de voto passa por uma comparação entre a avaliação do governo atual e a percepção de risco associada à vitória do adversário.
“A gente vê o eleitor do Lula, embora ele vote no Lula por conquistas sociais, por melhorias de benefício para a população mais necessitada, é um eleitor que sente um custo de vida alto, que sente um aperto financeiro, mas, mesmo assim, no comparativo, ele acaba se posicionando pelo Lula”, diz.
Na avaliação de Souza, a elevada rejeição aos dois campos políticos faz com que parte dos eleitores permaneça com sua candidatura mesmo quando desaprova o governo.“Numa eleição onde os dois campos são muito rejeitados e o medo do campo oposto é muito grande, é como se ninguém soltasse a mão de ninguém”, afirma.
A concentração do campo progressista em torno de Lula também abre a possibilidade de uma vitória no primeiro turno, segundo Souza. Ele ressalva, porém, que ainda é cedo para transformar os resultados das pesquisas em uma projeção de votos válidos.
O diretor lembra que Lula já esteve próximo de encerrar a eleição de 2022 no primeiro turno. Naquele ano, porém, outros candidatos disputavam parcelas relevantes dos votos fora dos dois principais polos.
Para 2026, Souza identifica uma diferença importante. “O campo progressista hoje é basicamente o Lula”, afirma. Segundo ele, candidatos como Ciro Gomes e Marina Silva ocuparam, em eleições anteriores, parcelas desse eleitorado.
A ausência de um concorrente relevante nesse campo pode favorecer a concentração dos votos no presidente. Ainda assim, Souza considera prematuro usar os resultados atuais para projetar uma vitória no primeiro turno.
“De fato, existe a possibilidade de ganhar, sim, no primeiro turno. Mas não tem nada definido. Está muito longe ainda de a gente fazer essa conta. A campanha não começou”, afirma.
Segundo o diretor da MDA, o cálculo de votos válidos feito a partir de pesquisas exclui brancos, nulos e indecisos e redistribui matematicamente os demais resultados. Esse procedimento, diz, não significa que os eleitores ainda sem candidato definido terão, na urna, a mesma distribuição proporcional daqueles que já escolheram um nome.
Por isso, a MDA tende a dar maior peso ao cálculo de votos válidos na reta final da campanha. Até lá, Souza vê uma disputa marcada pela consolidação dos dois principais campos e pela rejeição ao adversário — fatores que, segundo ele, ajudam a explicar por que Lula pode chegar à eleição em condições melhores do que Bolsonaro tinha em 2022, mesmo sem uma avaliação majoritariamente positiva do governo.
A leitura da MDA é que a eleição caminha, até o momento, para uma disputa concentrada entre Lula e Flávio Bolsonaro. Segundo Souza, as duas candidaturas concentram tanto intenção de voto quanto rejeição.
“São as duas candidaturas preferidas, são as duas candidaturas mais rejeitadas. Uma se alimenta da rejeição da outra, vamos dizer assim”, afirma.
Esse comportamento também reduz, segundo o diretor da MDA, o espaço para uma candidatura de terceira via. Embora identifique demanda por uma alternativa, Souza afirma que os nomes que tentam ocupar esse espaço ainda não avançaram.
O receio de abandonar um dos principais candidatos e, com isso, favorecer a vitória do adversário também pesa nessa decisão.
“Ninguém caminha para uma terceira via, por exemplo, porque há o medo de ir para uma terceira via e acabar favorecendo o outro campo a ganhar”, afirma.
Segundo Souza, os grupos que apoiam Lula e Flávio também apresentam alto grau de definição do voto. A decisão chega a cerca de 80% entre os eleitores de Lula e a 70% entre os de Flávio Bolsonaro.
Para o pesquisador, essa consolidação ajuda a reduzir o efeito eleitoral de crises envolvendo os dois campos.
“São grupos muito resilientes e em que as denúncias do campo oposto amortecem as denúncias do meu campo. Isso vale para o Lula e vale para o Flávio Bolsonaro.”
Apesar da consolidação dos dois campos, Souza identifica diferenças regionais. Segundo ele, Lula mantém posição mais sólida no Nordeste e entre os eleitores de renda mais baixa. Flávio Bolsonaro, por sua vez, avançou no Sudeste, entre pessoas de 35 a 44 anos e nas faixas de renda mais altas na comparação com a rodada anterior.
Na avaliação do diretor da MDA, esse movimento coloca os três maiores colégios eleitorais do Sudeste no centro da disputa presidencial.
“A disputa, para mim, hoje, vai ser decidida no Sudeste. São Paulo, Minas e Rio são estados fundamentais”, afirma Souza.A leitura parte também do comportamento mais estável observado pela MDA no Nordeste. Segundo Souza, pesquisas estaduais acompanhadas pelo instituto apontam uma consolidação forte de Lula na região.